A vitória e a traição tinham o mesmo gosto — como sangue. Enchia a boca de Elspeth, transbordando pelas bordas com seu choque. Ela agarrou a lança familiar como se pudesse tirá-la das mãos de Heliod e libertar-se de sua lâmina. Mas a força estava deixando seus dedos mais rápido do que a vida estava deixando seu corpo.
Ajani rugiu à distância, longe demais para alcançá-los. Mas o que ele faria se pudesse? Ambos estavam feridos e exaustos da batalha com Xenagos e, mesmo que não estivessem, havia pouco sentido agora. Sua vida fora confiscada no momento em que fizera um acordo com Erebos, Deus dos Mortos e inimigo jurado de Heliod, para trazer de volta seu amor perdido, Daxos. Ela já havia barganhado sua vida. Heliod estava meramente ajudando o processo e consolidando sua vingança por todas as suas transgressões.
"Leve-a de volta ao reino mortal, leonin. Entregue-a a Erebos", ordenou o deus a Ajani. Com um movimento brusco, Heliod retirou a Dádiva Divina — a arma que ela encontrara originalmente como uma espada dos céus e que Heliod transformara em uma lança e tornara sua responsabilidade, seu fardo. Sem seu apoio, Elspeth desmoronou, seus joelhos encontrando a pedra dura do Templo dos Deuses. Ela sentiu todo o peso de sua mortalidade, esmagando-a enquanto seu corpo sucumbia lentamente aos ferimentos.
"Se ela morrer aqui, ela se dispersará no nada." Os olhos de Heliod se estreitaram, seu brilho divino diminuindo com seu desdém. Elspeth lutou por palavras. Mas não havia nenhuma a ser encontrada. Ela e Ajani haviam lutado seu caminho até Nyx para matar Xenagos e corrigir os erros que ela causara. Eles venceram.
Mas sua vitória não desfez suas transgressões e apenas endureceu o frio desagrado de Heliod. Ele a ressentia pelos mistérios de seus poderes, por seus acordos, por matar um deus. Heliod não tinha calor por ela agora.
"Elspeth!" A graça habitual de Ajani deu lugar a movimentos desajeitados e bruscos enquanto ele corria em direção a ela.
Ela pressionou a mão contra o ferimento mortal em seu abdômen, tão inútil quanto era. Instinto, na verdade. "Ajani", ela sussurrou, tentando levantar a cabeça. Mas estava pesada demais. Seu corpo estava se tornando chumbo.
Os braços dele a envolveram. O mundo girou enquanto Ajani a carregava através de um portal para fora da terra do divino e de volta para o plano mortal de Theros. Seu amigo a pousou com cuidado.
"Aguente firme", instou Ajani, segurando a mão dela. "Vou buscar ajuda."
Elspeth piscou; cada vez era mais lenta que a anterior. Ajani estava lá e depois não estava. Sua visão estava ficando nebulosa, oscilando entre borrada e dolorosamente nítida. A ausência dele tornava-se mais dolorosa a cada segundo. Frio. Volte. Ela não queria morrer sozinha, mas não tinha mais forças nem para chamar.
Gritos distantes a lavaram. Estava ocorrendo uma grande batalha? Ou seriam ecos de sua luta contra Xenagos ecoando em seus pensamentos finais? Nada disso importava agora. Seus dias de batalha estavam se esvaindo, acumulando-se abaixo dela.
Com o que restava de suas forças, Elspeth voltou o olhar para o céu. O que ela estava procurando, não sabia. Talvez não estivesse procurando nada. Um ponto de escuridão entre as estrelas para se concentrar. Quietude. Paz.
Um suspiro suave escapou por seus lábios. Ela passara tanto tempo procurando um lugar para descansar, para simplesmente ser; talvez a morte fosse como ela finalmente o encontraria.
A última coisa que viu foi um flash de luz, partindo os céus em dois.
MUSEU DOS MAESTROS
Desordem suntuosa: tanto uma estética quanto um estilo de vida em Nova Capenna.
A cidade impossível se entregava a linhas fortes e douradas que subiam e se fragmentavam em delicados trabalhos de ferro. As decorações espelhavam as paisagens aquáticas e a fauna dos jardins em terraços que eram as marcas registradas de Altos do Parque. Se Xander pudesse capturar isso no traço de um pincel ou caneta, ele o faria. Mas, infelizmente, seus talentos nunca estiveram na criação de paisagens em tela.
Arte de: Grady Frederick
E no entanto, a cidade conhecia sua marca tão bem quanto a dos criadores mais famosos. Ele a pintara com sangue vezes o suficiente.
Xander acariciou a barba, um leve sorriso curvando seus lábios. Aqueles tinham sido dias divertidos, de fato. Os dias de um homem mais jovem, um homem de quem ele agora tinha distância suficiente para notar que lhe faltava um pouco de~finesse. Edição, por assim dizer.
Como ele desejava poder voltar e repetir alguns daqueles primeiros assassinatos. Para fazê-los melhor. Se ele tivesse a habilidade duramente conquistada e o controle que possuía agora com o corpo que tinha então — livre de todas as suas velhas feridas doloridas e males presentes — Nova Capenna conheceria o verdadeiro medo. Mas o tempo continuava sua marcha, arrastando ele e Nova Capenna junto. A cidade que ele outrora rondava estava desaparecendo diante de seus olhos e, hoje em dia, ele preferia muito mais a companhia de telas e esculturas em vez de lâminas e alvos.
Era um prodígio, na verdade, que a cidade ainda estivesse de pé. Ela se erguia de um vasto vazio e de cidades há muito abandonadas, um testemunho do poder — ou talvez da hybris — de seus fundadores há muito esquecidos. A barreira que aqueles construtores deixaram para trás permanecia, um último bastião de esperança contra um grande mal, agora esquecido. Mas o perigo que Nova Capenna enfrentava agora não era uma ameaça externa, mas um apodrecimento que fermentava em seu interior. As alianças frágeis que fomentavam a paz entre as cinco famílias que governavam a cidade estavam sendo esticadas até um ponto de ruptura do qual provavelmente não haveria retorno. Algumas relações, uma vez rompidas, nunca poderiam ser reparadas. Tudo o que Xander podia fazer agora era garantir que ele e sua família estivessem do lado dos vencedores ao final de tudo.
Uma batida na porta interrompeu os pensamentos que o atormentavam durante toda a noite. Xander sacou um relógio de bolso e verificou a hora. Alguns minutos de atraso. Permissível. "Entre."
"Minhas desculpas", disse Anhelo com uma inclinação de cabeça. Ele continuou sem levantar o rosto; isso o fazia parecer quase pequeno sob os lustres e a opulência avassaladora da sala. "Os assuntos levaram um pouco mais de tempo do que o esperado para serem resolvidos." A preocupação pesava em suas palavras.
"Você não se atrasou. Estava me dando tempo para apreciar o novo paisagismo do outro lado." Xander gesticulou para a janela. Trabalhadores estiveram nos jardins em terraços que ele tanto admirava o dia todo, trocando flores como se fossem bainhas de vestidos. O verde era de tirar o fôlego, costurado com riachos e cachoeiras não naturais, caindo pela lateral do edifício oposto ao museu.
"Mesmo assim, não é—"
"Não foi problema", disse Xander com um tom mais firme ao final da frase. Ele não precisava das prostrações ou dos tropeços verbais de Anhelo. Tudo o que Xander exigia de seu Diácono era lealdade. Lealdade incondicional, descarada e inabalável. E isso ele já possuía de sobra. "Agora, fique aqui, preciso fazer algumas modificações em seu traje antes de sua próxima tarefa."
Anhelo atravessou a sala até um pedestal baixo, subindo nele. Xander fez o mesmo, ignorando a bengala encostada em sua mesa. As velhas lesões não doíam tanto hoje, o que era uma sorte, já que precisava de ambas as mãos para tirar as medidas de Anhelo.
"Como está o Mezzio hoje?" A fita deslizou entre os dedos de Xander, ainda ágeis depois de todo esse tempo, enquanto ele confirmava os últimos números.
"Como você soube que eu estava no Mezzio?" Anhelo parecia mais divertido do que perturbado.
"O que é que eu não sei?" Na verdade, era o cheiro. Os óleos dos engraxates combinados com os aromas dos mercados abertos, o incenso dos videntes por cima, e as notas de fundo de suor dos salões de dança; era um perfume único que grudava nas roupas e era distintamente do Mezzio. Ele se agarrava às pessoas como se fosse um cartão de visitas enviado para atraí-las de volta ao centro da cidade, sussurrando docemente sobre perigo e decadência.
A boca de Anhelo curvou-se de um lado, um sorriso característico que revelava uma de suas presas vampíricas. "E é por isso que você comanda esta cidade."
Xander riu, pousando sua fita e passando os dedos pela variedade de espaldares que selecionara de sua coleção. O traje de Anhelo estava deixando a desejar há algumas semanas, e isso simplesmente não serviria. Além disso, ele precisava de algumas mudanças se quisesse se misturar adequadamente com a ralé dos níveis inferiores.
Arte de: Christian Dimitrov
Cada nível de Nova Capenna tinha seus próprios~encantos, desde os degraus mais baixos da utilitária Caldaia, reinventada em sua moda macabra por Ziatora e seus Arrematadores, até o movimentado centro do Mezzio, imerso no crime e na oportunidade que os Cabaretti prometiam. O nível favorito de Xander era, de longe, seu museu nas extensões celestiais de Altos do Parque. O que era uma das muitas razões pelas quais ele raramente saía e Anhelo sempre vinha até ele.
Arte de: Christian Dimitrov
"Quem dera eu comandasse esta cidade", ponderou Xander, finalmente decidindo-se por um adorno para o ombro que se prenderia a um colarinho alto de aço. Estava mais perto do queixo do que Anhelo costumava preferir. Mas o Diácono usava suas camisas abertas demais na opinião de Xander, e quando se tratava de moda, não havia ninguém com olho melhor do que Xander.
"Algo está pesando sobre você." Anhelo manteve os olhos para frente enquanto Xander ajustava o espaldar em seu ombro, testando o encaixe.
"Muitas coisas."
"Posso perguntar o que são?" Os olhos pálidos de Anhelo buscaram seu rosto. Expectantes, mas não exigentes.
"Por onde começar?" Xander voltara para a mesa, o espaldar de volta ao seu lugar na fileira. Ele agora examinava adagas, anéis de veneno, anéis que também funcionavam como socos-ingleses e, seu favorito pessoal, algemas silenciadoras que reduziam o som e o clarão da magia a quase nada, a ferramenta perfeita para um assassino. "Por isto, suponho", Xander escolheu tanto uma algema quanto um pensamento. "O equilíbrio de poder nesta cidade está mudando."
"Ouvi os sussurros — o Adversário, como o chamam."
"Estou menos preocupado com um arrivista sombrio do que com o suprimento de Halo. O Adversário é um bruto e um sintoma. Não o problema." Halo — a substância mágica que vinha sustentando o poder e a vida em Nova Capenna há anos — tinha uma fonte minguante. O desespero pelo poder tornava os homens desastrados e impetuosos. E não havia poder maior que o Halo. Se ele algum dia acabasse, certamente significaria a anarquia para Nova Capenna.
"O Adversário está ganhando terreno na cidade. Ele é mais do que apenas um arrivista."
Xander sabia muito bem o terreno que o Adversário estava ganhando. O homem vinha lentamente drenando as fileiras dos Maestros, prometendo-lhes um suprimento constante de Halo em troca. Xander pouco se importava em ver os desleais sendo eliminados debaixo dele. Mas onde esse Adversário estava adquirindo a substância mágica era um mistério maior. Um que Xander estava determinado a resolver.
"Talvez sim", cedeu Xander enquanto prendia a algema no pulso de Anhelo. "Mas o Adversário não ganharia esse poder sem acesso constante ao Halo."
"Você acha que ele está em conluio com os Cabaretti? Eles têm acumulado seus estoques." Anhelo cerrou e abriu os dedos, sem dúvida testando sua magia contra a braçadeira.
"As demandas dos Cabaretti são altas em preparação para o seu Crescendo. Se o Adversário tivesse acesso ao Halo e estivesse trabalhando para eles, os Cabaretti já teriam consumido seu suprimento." Anhelo considerou isso e, em seu silêncio, Xander continuou: "O que mais me preocupa, em relação aos Cabaretti, é esse boato de seu 'novo suprimento' que planejam revelar durante as celebrações do Crescendo. É nisso que vou precisar que você se concentre — colete informações sobre o que é essa fonte por quaisquer meios necessários."
"Espionagem? Parece um trabalho para os Obscura, não?"
A família Obscura especializava-se em ilusões, distrações e manipulações. Era uma pergunta natural e soou curiosa, em vez de acusatória, então Xander deixou passar a afronta à sua posição. Muito poucos nos Maestros possuíam o entrosamento com ele para perguntar de forma tão audaciosa. "Para assuntos envolvendo Halo, prefiro manter as coisas internamente e com o homem em quem confio acima de todos os outros. Ninguém saberá desta tarefa além de você."
O sorriso de Anhelo desapareceu. Ele sabia que algo mais profundo estava errado, disso Xander podia ter certeza. Anhelo era sua mão direita, seu Diácono, e ele não havia alcançado esse posto sendo alheio.
"Há mais coisas que você não está me contando."
"Sempre há, não?" Xander voltou à mesa de ferramentas variadas, pronto para se afastar da conversa. Por mais que confiasse em Anhelo, informação era como o próprio Halo — apenas um gole tornava um homem forte e demais o tornava imprudente. "Acho que isto é exatamente o que falta para completar seu traje." Ele entregou um anel a Anhelo.
"O que ele faz?"
"Parece terrivelmente elegante."
Anhelo riu junto com ele. Mas o tom de Xander rapidamente tornou-se sério mais uma vez. "Devemos ficar um passo à frente. Os poderes de Nova Capenna estão mudando e, se não tivermos cuidado, nossa posição escorregará debaixo de nossos pés. Os Maestros mantiveram nossa influência por tempo demais para deixá-la ir agora."
"Não vou decepcioná-lo."
"Trate de não decepcionar." Xander afastou-se enquanto Anhelo descia do pedestal. Seu traje final não era o que Xander geralmente aprovaria, mas era o que o Mezzio esperava — prático, mantendo apenas o brilho necessário. Sem esforço, na vanguarda da moda. "Ouvi dizer que os Cabaretti têm sido implacáveis no Mezzio em busca de Halo. Volte lá e veja o que consegue encontrar."
Anhelo partiu e, em vez de voltar para sua janela, Xander dirigiu-se ao canto oposto da sala. Atrás de uma cortina havia uma porta trancada para a qual havia apenas uma chave, e ela estava perpetuamente em um bolso escondido em sua pessoa. O pequeno depósito estava apinhado com todo tipo de relíquias antigas. Estátuas de anjos alados estavam presas em orações de pedra, guardando os textos que Xander matara para coletar e proteger.
Essas eram as últimas histórias restantes da fundação de Nova Capenna, um tempo do qual ele deveria se lembrar, mas que se tornara obscuro após seu acordo. Xander pegou duas luvas de algodão, vestindo-as antes de folhear o primeiro texto. Ele lera aquelas palavras muitas vezes, mas ainda não perdera a esperança de que, em algum lugar nos anais do passado, pudesse encontrar a chave para o futuro deles.
Arte de: Martina Fačková
ESCRITÓRIO DO AVÔ CABARETTI
Uma melodia animada subia até os arcos superiores do Vantoleone. O calor dos sopros de metal se entrelaçava com as flores em treliças que pendiam como lustres. O pé de Jinnie batia levemente contra o tapete do escritório de Jetmir, no ritmo da batida pulsante e do pisar dos pés dos clientes que dançavam no salão abaixo.
"Vá e junte-se a eles." Jetmir riu e recostou-se em sua cadeira. "Estes assuntos podem esperar. Há uma festa."
"Sempre há uma festa." Jinnie sorriu e acariciou levemente o gato enrolado em seu colo. "Mas só há um Crescendo, e quero garantir que tudo esteja absolutamente perfeito para ele."
"Haverá outro Crescendo no próximo ano", ele rebateu brincando. "Supondo que o plano não chegue ao seu fim entre agora e lá e ainda existam novos anos para celebrar."
Jinnie lutou contra o desejo de revirar os olhos. Jetmir sempre sabia exatamente quais botões apertar e como provocá-la. Mas era isso que os pais deveriam fazer, mesmo os adotivos.
"Você sabe o que quero dizer." De onde estava sentada, do lado oposto da mesa de Jetmir, ela só conseguia ver o teto de vidro do Vantoleone e as figuras espelhadas brilhando contra ele. Esta noite era uma celebração decente, tão boa quanto qualquer outra nos padrões Cabaretti. Mas Jinnie queria que tudo para o Crescendo ocorresse sem problemas. Era sua prioridade máxima. "Recebi respostas de quase todas as famílias, exceto dos Maestros."
"E do Adversário."
Jinnie descartou a ideia com um gesto, fazendo com que o felino em seu colo lhe lançasse um olhar muito ofendido. Ela rapidamente voltou a coçar Muri entre as orelhas. "O Adversário não vale o convite. Fazê-lo seria uma demonstração de respeito que ele não merece."
"Às vezes é melhor mostrar respeito antes que seja devido. Nunca se sabe como um pequeno amigo de agora pode se tornar um grande aliado depois."
"Você realmente acha que ele pode formar uma nova família?", perguntou ela, incrédula.
"Acho que tudo é possível em Nova Capenna." O tom de Jetmir sugou a leviandade do ar e exigiu a atenção de Jinnie. Ela o conhecia há muito tempo — bem antes de ele ser o rico chefe dos Cabaretti, e tempo suficiente para saber quando um assunto exigia seu foco. "Ele está começando a acumular poder, atraindo leais com promessas de riquezas e Halo."
"Aqueles que trairiam suas famílias atuais porque acham que ter algum Halo dá licença para começar a sua própria não valem o sangue em suas veias." Suas palavras eram venenosas, carentes de uma onça de compaixão. A única coisa para a qual traidores serviam era para serem transformados em exemplos para outros pretensos vira-casacas.
"Eu não discordo."
"Além disso, no momento em que a Fonte for revelada, tudo em Nova Capenna mudará e os Cabaretti estarão no topo." Apenas dizer isso em voz alta enviou um formigamento por sua espinha. O plano estava prestes a passar por uma mudança fundamental e ela, como alguém que crescera forte e influente apesar do descaso e do abandono, estaria em seu centro.
"Como está a Fonte?" Jetmir uniu os dedos, as garras batendo levemente. A luz refletia em seu anel de sinete, um que Jinnie beijara muitas vezes.
"Em mãos. Sem problemas", Jinnie teve o prazer de relatar. "Tudo está exatamente como esperaríamos, e ninguém está ciente da Fonte além do conselho interno dos Cabaretti."
"Então o Crescendo será uma celebração histórica." Jetmir inclinou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada. Ele costumava estar de bom humor. Como o avô dos Cabaretti, ele tinha todos os motivos para isso. Jetmir garantira que o mundo ao seu redor fosse uma celebração, repleta de comida, bebida e dança. Nunca fora difícil para Jinnie jurar sua vida a ele.
"Sem dúvida."
"Agora, você deveria ir e se juntar às festividades da noite. Discutiremos os outros detalhes mais tarde. Você é linda demais para ficar trancada neste escritório a noite toda."
"Eu poderia dizer o mesmo de você." Jinnie abaixou-se, pegando sua bolsa. Ela ostentava o mesmo brasão do anel de Jetmir e das pesadas faixas de ouro que ele usava como ornamentação em seus dois chifres em forma de crescente. Muri saltou de seu colo para dentro da bolsa. Seu outro familiar, um cão chamado Regis, levantou o focinho de suas patas poderosas e a olhou inquisitivamente. Ela levantou-se e a fera espelhou seus movimentos. Jinnie contornou a mesa que estava entre ela e Jetmir, pousando a mão no cachecol de cashmere em volta do pescoço dele enquanto se inclinava para beijar sua bochecha levemente.
"Eu não sou lindo. Sou um homem velho."
"Você não é tão velho!" Ela deu um tapa brincalhão no ombro dele. "E todos sabem que você ainda é a alma de todas as festas. É por isso que todos querem ser um Cabaretti."
"Eles só pensam isso porque eu financio essas festas." Jetmir sorriu. Ela percebeu que ele estava brincando. Os Cabaretti eram o coração pulsante da cidade. Eles eram a alegria. Eles eram a vida. Eles eram o ritmo, a música, o som e a cor. E logo seriam os responsáveis por dar a Nova Capenna a Fonte e todo o Halo com que as pessoas jamais poderiam sonhar.
"Isso não é verdade e você sabe disso." Ela voltou para sua cadeira, jogando um xale adornado com joias sobre os ombros. Seus fios de seda brilhavam na luz, fazendo parecer que ela estava envolta em uma teia de aranha feita de diamantes. "Mas você tem razão, eu deveria voltar. Não quero deixar Kitt ou Giada por muito tempo."
"Dê a elas o meu melhor." Jetmir afastou-se da mesa, ajeitando sua própria faixa nos ombros e pegando seu cetro. No topo estava a face de um leonin coroado — o símbolo dos Cabaretti.
Arte de: Ryan Pancoast
"Sempre." Jinnie lançou-lhe um sorriso deslumbrante e saiu pela porta.
O escritório de Jetmir ficava no andar de cima do salão principal do Vantoleone. Cortinas verde-vivos com estampas de flores douradas e formas que lembravam as penas de pavão que forravam a bainha de seu vestido abafavam a música abaixo. Mas os sons retornaram com força total quando Jinnie surgiu na entrada que levava à pista de dança.
Duas mulheres descansavam em um sofá próximo, exatamente onde Jinnie as deixara. As orelhas peludas de Kitt estremeceram, girando na direção de Jinnie antes de sua cabeça o fazer. Kitt a conhecia apenas pelos passos.
"E como vão os preparativos para o Crescendo?" Uma mera pergunta de Kitt tinha uma natureza lírica, como se sua voz estivesse sempre a um curto suspiro da canção.
"De vento em popa."
"Terei meu solo?" A boca de Kitt curvou-se em um sorriso.
"Querida, houve alguma dúvida?" A atenção de Jinnie voltou-se para a adolescente ao lado de sua querida amiga. "E você, Giada, está animada?"
A jovem forçou um sorriso que não atingiu seus olhos saudosos; a expressão quase torturada era sempre estranha para Jinnie. Giada não carecia de nada; Jetmir oferecia-lhe sustento, abrigo e luxos. O ar ao seu redor estava cheio dos melhores perfumes. Suas unhas estavam perpetuamente feitas. Jinnie estava sempre presente para garantir que ninguém jamais encostasse um dedo no curto cabelo escuro de Giada — atualmente preso com penas raras. Ela tinha tudo o que poderia desejar, exceto sua liberdade.
"Estou", disse ela. Embora as palavras carecessem de sinceridade.
Jinnie ajoelhou-se diante dela, pegando as mãos de Giada. "Que bom, porque em pouquíssimo tempo, vamos mudar o plano."
PROFUNDEZAS DA CALDAIA
Vivien Reid estava na caça. Não por uma presa, mas por algo que poderia não existir. Por um equilíbrio que pudesse finalmente dar descanso aos fantasmas de Skalla que assombravam cada passo seu. Ela buscava um lugar — um povo — onde os mundos construído e natural estivessem em harmonia.
Mas ela estava aprendendo rapidamente que Nova Capenna provavelmente não era esse lugar.
Além desta cidade havia um plano desprovido de natureza e vida, caído em ruínas. Dentro de suas muralhas havia uma metrópole sintética de aço. Um templo à indústria. Os motivos encontrados na arquitetura eram naturais o suficiente. Vivien conseguia distinguir formas de palmeiras em janelas em leque; o metal fora martelado e polido para lembrar cachoeiras. Mas quando havia vegetação real, ela estava encapsulada em concreto e ferro, cuidadosamente esculpida e podada para assemelhar-se aos padrões em zigue-zague encontrados em muitas das roupas dos cidadãos.
A natureza podia existir aqui, mas não era real. Este plano estava desalinhado, dissonante e pesado em cada polo de sintético e natural, e ela não dava muito tempo a Nova Capenna antes que ela se rompesse pelas costuras. Esse era sempre o destino quando a balança pendia demais para uma direção.
Ela entrara na cidade em um local central por meio de um dos muitos trens e descera a partir dali, longe dos pináculos elevados e relevos esculpidos de anjos que olhavam para a cidade com seus olhos vagos. Em vez disso, Vivien mergulhara na névoa avermelhada dos níveis inferiores, procurando alguma conexão há muito perdida com a terra abaixo, escondida sob a fumaça e a sujeira. Raízes esquecidas, mas resistentes, apesar de tudo.
As passarelas bem pavimentadas acima deram lugar a ruas suspensas de aço. Vivien atravessava vigas com pés tão confiantes quanto os dos cidadãos. Os locais pareciam não ter problemas em escalar de viga em viga — saltando através de seções de ar aberto com apenas um passo cuidadoso separando-os de uma morte certa. A cidade acima desta barriga era sustentada por colunas afiadas em pontas impossíveis, equilibrando-se nos topos de pirâmides abaixo.
Ela vira muitos lugares impressionantes em suas viagens. Mas este era certamente um prodígio por si só~desde que estivesse disposta a ignorar seus graves erros ao rejeitar a natureza tão completamente.
Arte de: Jake Murray
Um clamor barulhento irrompeu das portas abertas de um edifício próximo. Abandonando sua curiosidade inicial — uma bigorna cercada por chamas em uma plataforma próxima — Vivien saltou da viga que atravessava para uma mais baixa que se conectava às portas. A luz da sala interna criava linhas nítidas através da fumaça e da neblina. Vivien deslizou para dentro, seus movimentos suaves passando quase despercebidos. Aqueles que a viram não deram importância. Estavam absortos demais no discurso.
"—não devem receber ordens das pessoas sentadas nas propriedades que nós construímos, bebericando o Halo que vem de nossos depósitos", trovejava uma voz sobre a multidão reunida, composta em sua maioria por pessoas com roupas de operários. A fonte das declarações era um dragão poderoso, empoleirado bem acima de todos. A julgar por como a multidão pendia de cada palavra sua, o dragão era claramente uma oradora habilidosa. "Os Cabaretti exigem demais para este Crescendo sem espalhar seus benefícios. Os Mediadores impõem-se em nossas ruas. E não tenho dúvidas de que os Obscura estão à espreita entre nós agora mesmo, ansiosos para reportar aos maiores licitantes como os cães de colo que são."
As massas aplaudiram em concordância. Alguns resmungaram queixas junto ao dragão. Uma espiral de fumaça escapou de suas narinas antes que ela continuasse: "Eles fariam bem em lembrar-se de não pisar nas mãos que constroem seus cabarés e salões. Alguns parafusos fracos e vigas velhas podem causar acidentes inoportunos."
"Você não é daqui." Um homem envolto em pesados casacos, luvas, botas e um chapéu de abas largas aproximou-se, interrompendo o foco de Vivien.
"Nem você", avaliou ela. Ele não se parecia em nada com os outros trabalhadores do salão e seus trajes práticos.
Ele riu. "Eu, pelo menos, não estou usando roupas de outro plano."
Vivien empertigou-se, afastando-se da parede em que se encostara. Os olhos do estranho eram brilhantes e reluzentes sob a sombra de seu chapéu. Algo no ar ao redor dele, na maneira como ele se portava, fazia sua pele arrepiar-se. Ele era diferente. E embora não pudessem ser menos parecidos, compartilhavam um parentesco distinto.
Ele também era um planeswalker.
"Ah, então você vê isso agora também. Venha, vamos trocar uma palavra antes que a ralé seja liberada do transe de Ziatora."
O homem saiu pelas mesmas portas por onde ela acabara de entrar, sem olhar para trás nem uma vez, confiando que ela o seguiria. Vivien olhou entre ele e o dragão, que ainda fazia seu discurso. Entre os dois, ele despertava mais interesse em Vivien.
"Eu não estava procurando outro planeswalker esta noite~mas você é um achado muito melhor do que o que vim buscar." Ele parou na borda de uma viga, olhando para a fumaça e o aço. "Há quanto tempo você está aqui?"
"O suficiente." O barulho do salão desapareceu à medida que ela se aproximava. Ele começou a caminhar mais uma vez, mantendo-se um passo à frente. Vivien deixou que ele a liderasse, com uma mão pronta para alcançar seu arco em um instante. Ela não viera aqui em busca de briga, mas acabaria com qualquer um audacioso o suficiente para trazer uma até ela.
"O suficiente para saber que há outros aqui como nós?"
"Outros?" Mais planeswalkers? Por quê? Ela viera aqui por motivos pessoais, mas agora parecia que entrara em algo mais profundo do que o esperado.
"Quanto você sabe sobre Halo?"
"Pouco." Ela ouvira menções entre os cidadãos e deduzira que tinha algo a ver com a substância iridescente que enchia as taças dos foliões por quem passava. Mas Vivien não tivera tempo suficiente para aprender mais do que isso.
"Este plano prospera com ele, e ele detém um poder imensurável. O homem para quem estou trabalhando atualmente está em processo de adquiri-lo. Mas seus verdadeiros objetivos residem em outro lugar."
"Que seriam?"
"Curiosa?" Ele olhou por cima do ombro com um sorriso malicioso. O som do metal batendo suavemente acompanhava cada movimento seu.
"Talvez." Vivien ainda não tinha certeza se confiava nele ou não, mas não precisava de confiança para colher mais informações dele.
"Bom, venha então. Urabrask estará ansioso para conhecê-la."
Ela não se moveu desta vez quando ele começou a caminhar. "E qual é o seu nome?"
Ele parou, então falou sem olhar para trás. "Tezzeret, e tenho pessoas esperando por mim, então se você pudesse se apressar."
Vivien não se apressou. Ela não se moveu de todo. Embora nunca o tivesse encontrado antes, certamente já ouvira o nome Tezzeret. Eles lutaram em lados opostos durante a Guerra da Centelha, e ela sempre tivera uma suspeita velada de que ele tinha acesso à Ponte Planar. Tezzeret não era alguém a ser subestimado. Se ele estava aqui, então havia correntes mais profundas, de fato.
"E então?" Ele parou quando percebeu que ela não o seguia.
"Vamos deixar uma coisa clara~" Vivien escondeu suas preocupações e suspeitas sob uma máscara de determinação e cruzou o espaço entre ela e Tezzeret em alguns passos largos. Agora, ela caminhava ao lado dele. O espaço era apertado na viga. Mas ela não cedeu nenhum espaço a ele. "Você não é do tipo que me dá ordens."
Tezzeret bufou divertido. "Entendido."
"Então, quem é Urabrask?", perguntou ela. Um amigo de Tezzeret a deixaria ainda mais em guarda.
"É complicado." Os olhos de Tezzeret estavam distantes. Ele se concentrava em um ponto em algum lugar além do que Vivien podia ver. Ela conhecia aquele olhar muito bem; era o olhar de um homem que pisara entre o véu dos planos e testemunhara todos os horrores que muitas vezes eram encontrados entre eles. "Fará mais sentido quando você o conhecer. Mas por enquanto, tudo o que você precisa saber é que ele está do nosso lado."
"E que lado é esse?"
"O lado da liberdade."
PARADA DE TREM DO MEZZIO
Elspeth assustou-se com o transporte que passou zunindo por cima, chacoalhando em trilhos suspensos que pendiam um pouco baixos demais para algo tão barulhento. Ela piscou várias vezes, os olhos ainda se ajustando às luzes brilhantes de Nova Capenna em comparação com o trem escuro. A cidade estava fervilhando de pessoas de todas as formas e tamanhos, vestindo todo tipo de roupas estranhas.
Arte de: Thomas Stoop
Edifícios erguiam-se acima dela, conectados por um labirinto de trilhos e passarelas, decorados com varandas e designs ornamentados que falavam apenas de indulgência. Cada teto parecia ser o chão de outro à medida que a cidade continuava a estender-se cada vez mais alto, alcançando alturas vertiginosas antes de mergulhar na cobertura de nuvens baixas.
Ela ajeitou a mochila em seu ombro. Continha as parcas posses que conseguira pensar em trazer quando atravessara para este plano. O pouco que ainda tinha em seu nome depois de tudo o que passara.
Elspeth engoliu a sensação inicial de decepção por a cidade não ser o que ela esperava. Que expectativas ela poderia razoavelmente carregar? Nenhuma. Era injusto ter noções preconcebidas enquanto procurava um lugar que ela há muito deixara de acreditar que existia.
"Lar", murmurou Elspeth, vendo se a palavra se ajustava a Nova Capenna quando dita em voz alta. Não era melhor. "Ajani disse que era aqui."
Seu amigo nunca mentira para ela e sempre dera bons conselhos, mesmo quando ela não queria ouvi-los. Ela tinha todos os motivos para confiar nele. Se ele dissera que este era seu lar, então certamente deveria ser. Ela estivera procurando, sonhando e ansiando por este momento por anos~
Então, por que ela nunca se sentira tão deslocada?
A maioria das pessoas olha uma vez para alguém como Perrie e pensa "esmagador de cabeças", mas a ascensão de Perrie através dos Corretores deu a ele tarefas mais interessantes, e lutas mais complexas, do que apenas o básico esmagar de cabeças. É a parca imaginação delas que as impede de ver a mente naquela cabeça enorme sobre aqueles músculos de pescoço grossos como cabos.
Arte de: Joshua Raphael
Perrie levanta as pontas altas e blindadas de seu colarinho e ignora os sussurros rodopiando na luz sombria do salão de paredes de veludo ao seu redor. "Corretor~executor~cuidado~Junash: é melhor você dar o fora daqui."
Perrie acabara de se abaixar sob o batente da porta para entrar, cuidadoso para não prender seu chifre no topo de mogno envernizado da moldura. A porta estofada fecha atrás dele enquanto ele varre o salão com o olhar. Ele não está procurando por Junash — aparentemente um aven apressado com asas que caem tristemente atrás dele enquanto foge pelos fundos — Perrie está aqui por um pequeno e maníaco lutador de rua chamado Krent.
Há seguranças no canto. Dois leoninos. Seus óculos gravados em latão refletem a luz roxa, encantada na forma de uma corda líquida que está estendida de canto a canto pelo salão. As orelhas peludas dos seguranças agitam-se em direção a Perrie. Eles parecem relaxados, mas cautelosos.
Perrie faz um aceno para eles. Músculo a músculo. Ele não está aqui para ser um problema, apenas observando. Mas o da esquerda reconhece Perrie. Suas orelhas se abaixam, e ele mostra as presas.
"Oh, amigão," Perrie resmunga. "Essa é uma #emph[péééssima] ideia."
Aqui no Mezzio, os salões são território neutro. Todas as famílias precisam se soltar e relaxar em algum lugar, certo? Os Cabaretti são donos da maioria dos salões, no entanto.
Isso torna este lugar #emph[mais ou menos neutro] , supõe Perrie.
Perrie se pergunta se esses seguranças Cabaretti estão realmente prontos para enfrentar um executor dos Corretores em uma missão?
Aparentemente sim: os dois leoninos se separam e atravessam os dançarinos espalhafatosos perdidos no calor da companhia uns dos outros enquanto batem os pés ritmicamente contra os de seus parceiros e sorriem exageradamente uns para os outros.
O leonino à esquerda de Perrie puxa um violino carregado. Uma luz vermelha brilha de cima a baixo em suas cordas enquanto a luz as atinge.
Por um momento, são apenas os três. Dois leoninos, felinos e agigantando-se sobre os dançarinos que se encolhem para longe deles ao perceberem que algo está errado, e Perrie. Perrie, o executor; um rhox, cinza e corpulento, seus olhos minúsculos examinando a situação, seu grande chifre único inclinando-se enquanto ele sorri levemente.
Perrie levanta as mãos. "Vai apontar isso para mim? Tudo o que fiz foi entrar, nem tive tempo para um refresco —"
"Sabemos quem você é." O segurança à direita lambe os lábios. Nervosismo. Perrie consegue ver a mais leve crista de pelos se eriçando no pescoço do segurança.
Um homem pequeno e com feições de doninha corre ao redor do balcão envernizado do bar e abre caminho pelas portas duplas estofadas atrás de todas as bebidas.
"Lá está ele," Perrie murmura. Ele dá um passo à frente, e os dois seguranças fecham fileira diante dele.
"Você não pode vir aqui atrás dos clientes," dizem eles.
"Se vocês não estivessem me amolando, não haveria nada para incomodar seus clientes," diz Perrie lenta e calmamente. "Só estou de passagem."
"Temos uma reputação a manter aqui."
Perrie sabe tudo sobre reputações. Ele estava focado na saída, seguindo seu alvo. Mas agora ele está prestando toda a sua atenção nestes dois gatos metidos. Algumas pessoas simplesmente não conseguem deixar as coisas em paz. Estes dois têm algo a provar. E Perrie, vários passos à frente deles, sabe que se não responder ao desafio, espalhar-se-á a notícia de que Perrie amoleceu. Então as coisas ficarão mais difíceis para ele.
Dos espalhafatosos e nublados Altos do Parque equilibrados em suas vigas com vista para a cidade, ao Mezzio onde as luzes dançavam subindo e descendo as linhas arrojadas das fachadas dos edifícios, às chaminés emissoras de fumaça de Halo da Caldaia, as pessoas estavam todas apenas tentando seguir em frente. Trabalhar duro durante o dia, dançar a noite toda. Perrie não é diferente. Ele tem um trabalho a fazer. E estes gatos estão ficando no caminho.
Um feixe de luz divide o painel de madeira na parede próxima para revelar uma porta oculta por magia. Um elfo de rosto rústico em um terno elegante com bordas metálicas sai, olha para Perrie e então serpenteia pela multidão como se estivesse jogando o jogo de amarelinha mais suave que Perrie já vira.
"Ari, Leonard, está tudo bem. Deixem-no passar." O elfo escova os punhos de seu terno risca de giz e sorri para todos.
"Mas Senhor —"
Os olhos do elfo brilham. "Eu contratei vocês dois porque, em um aperto, vocês poderiam — repito, poderiam — ser capazes de enfrentar um executor. Mas não estou pagando para descobrir esta noite."
Os leoninos resmungam um pouco, mas visivelmente recuam.
Perrie acena para o elfo e abre caminho com os ombros pelos dois seguranças.
"As fofocas dizem que você está em maus lençóis com os Corretores," o segurança à direita rosna. "Rumores dizem que você foi julgado como um quebrador de contratos. Algo a ver com um garoto. Você está mole. Quanto tempo até que um executor apareça para dar o veredito sobre #emph[você] , Perrie?"
"Outras famílias têm margem de manobra, mas um Corretor quebrando contrato?" o outro segurança ri. "Não há espaço para interpretações #emph[nesses] casos. Você já era, Perrie."
Perrie para logo na porta. Este é um daqueles momentos, não é? Desde que Perrie caiu em um estranho limbo com os Corretores, ele tem sido cuidadoso. Sem confusões desnecessárias, sem lutas. Mas depois de todo esse tempo na encolha, Perrie está se sentindo tenso, como se algo estivesse crescendo dentro dele nos últimos dias e estivesse pronto para explodir.
Os leoninos fixaram o olhar nele com olhos totalmente pretos, as pupilas completamente dilatadas. As orelhas estão para trás, seus corpos quase vibrando.
Certo. Hora de estourar essa bolha, pensa Perrie.
"Bom gatinho," diz ele suavemente para o segurança à sua direita com uma piscadela.
Perrie encosta-se em uma parede lisa de calcário no beco em frente ao salão. Ele apalpa os bolsos internos do casaco para verificar se um velho relógio de bolso quebrado que carrega desde seus dias de boxe está bem. Ainda está inteiro.
Um clarão de luz o faz estremecer, e um jovem leonino em um colete risca de giz sai do brilho para ficar ao lado de Perrie enquanto faíscas caem no chão e dançam no lixo.
"Rigo," resmunga Perrie.
Rigo alisa o colete. Ele remove algumas faíscas perdidas com satisfação profissional, afasta uma mecha curta de cabelo para a direita e agita as orelhas.
"Ouvi dizer que houve uma confusão. Sabia que seria você. Os dois seguranças dormindo na calçada logo ali. Foi você?"
"É." Perrie cospe sangue na sarjeta. A pedra fria é boa contra sua cabeça. Ele sabe que terá hematomas sérios pela manhã. Pior — um dos leoninos conseguiu enfiar uma garra sob seu terno e em sua pele grossa. Ele precisará cuidar disso. Mas a notícia se espalhará de que Perrie ainda é um lutador e não alguém com quem se deve mexer.
Rigo, com seu rosto tenso, peludo e largo, coça o queixo e ri. Os caninos brilham. "Sente-se melhor depois de tirar isso do sistema?"
"Ainda vou alcançar Krent," suspira Perrie. Ele se vira para olhar para o solicitador. Rigo é esperto nas ruas, tem o ouvido atento com uma rede de pivetes de rua. He sabe como as coisas funcionam nos becos e sombras. "Precisava ser resolvido."
Rigo ri. "Não consegue se conter, não é?"
"Espalharão que ainda dou mais trabalho do que valho a pena incomodar." Perrie muda de assunto. "Sabe em que pé estou com a liderança?"
"Cansado das tarefas de trabalho pesado?" Rigo ri e ignora o pedido de Perrie para compartilhar qualquer coisa que possa saber. "Você não deveria descontar nos seguranças. Eles são apenas os ajudantes, Perrie."
"Hrmh," resmunga Perrie. Ele uma vez viu Falco jogar um homem pela janela dos Altos do Parque. Por meses depois disso, Perrie ficou nervoso ao subir até o topo do Santuário de Nido para se reportar ao chefe.
"Pode esquecer o Krent," diz Rigo. "Enviaram um garoto novo para farejá-lo."
"Krent é um peso-pesado." Perrie respirou fundo, estremecendo quando suas costelas o fisgaram.
"O garoto vai ficar bem." Rigo toca a orelha. "Os relatórios dizem que ele está fazendo a parte dele."
Perrie leva a mano à orelha esquerda. O Amplificador ainda está ajustado contra seu canal auditivo, sussurrando para ele. Mas é tudo estática e abafado. Ele mexe nele, amaldiçoando seus dedos grossos.
As palavras tornam-se distinguíveis novamente. Atualizações. Ordens. Chamadas para ação. Assim que foi designado para Krent, Perrie parou de prestar muita atenção. A luta deve tê-lo deslocado para o lado errado.
"Nunca fui retirado de uma missão antes," observa Perrie. Parece um laço se fechando sobre ele, para ser sincero.
Rigo de ombros. "Há uma primeira vez para tudo."
"Não é assim que funciona com os Corretores." Ao pé da letra da lei. Ordem. Tudo em seu lugar. De Falco para baixo, podia-se contar com a obsessão dos Corretores por procedimentos.
"Você escolhe #emph[agora] para se preocupar com o pé da letra da lei?" Uma das grossas sobrancelhas de Rigo arqueia-se com diversão. "Não te preocupou quando você hesitou com aquele garoto."
Rigo tira um pequeno frasco de Halo e o gira na frente do rosto. Hora de ir. Perrie sente um nó no estômago, e não é apenas pelos hematomas que os leoninos lhe deixaram; Rigo o está levando de volta ao Santuário de Nido. De volta para enfrentar o julgamento. Falco o deixou fritando por tempo suficiente, pelo visto.
Ele poderia fugir agora mesmo. Os Corretores poderiam enviar solicitadores atrás dele, mas Perrie é o executor esmagador de crânios mais implacável que eles têm. Eles provavelmente não conseguiriam impedir sua fuga.
Perrie dá um passo à frente. O brilho do Halo lança redemoinhos de luz salpicados pelo beco, e holofotes dançam no céu acima, sinais de que a elite dos Altos do Parque está se divertindo lá fora.
"Você não comeu nada recentemente, comeu?" Rigo verifica.
"Apenas acabe logo com isso," diz Perrie, e um clarão de luz branca os envolve enquanto Rigo os teletransporta para o quartel-general deles.
Arte de: Robin Olausson
Hora de encarar o chefe.
Falco está parado perto das portas da varanda, onde o vento bagunça levemente suas penas. Suas asas pairam sobre ele, como suplicantes que se arqueiam para segurar uma coroa sobre a cabeça de um rei. Para um aven, Falco domina a sala. Perrie tem um vislumbre de como os quebradores de contratos devem se sentir quando ele chega, causando um impacto no burburinho e na atmosfera enquanto ocupa espaço com seus músculos e casaco volumoso.
"Tenho um trabalho para você, Perrie," diz Falco, sem amabilidades, sem saudação. Não há necessidade de ele dizer que é importante. O fato de ele ter enviado Rigo para trazer Perrie aqui pessoalmente diz tudo.
Falco caminha pesadamente passando por padrões metálicos alados na parede da sala que brilham com a luz das muitas arandelas voltadas para cima.
Arte de: Kieran Yanner
"E o garoto?" Perrie pergunta após um longo momento.
Falco esmurra uma mesa próxima. Contratos voam para o chão. "Estou te dando um trabalho, e você quer perguntar sobre o seu fracasso?"
"Ele é uma criança." Perrie mantém-se firme do outro lado da sala, embora seus olhos não possam evitar desviar-se para as janelas grandes atrás da mesa de Falco. Perrie já viu pessoas serem jogadas por elas. Esta conversa poderia ser uma sentença de morte.
Mas embora um contrato seja um contrato, o que é justo é justo.
"Você já viu o que acontece com um plano onde a ordem se desfaz, Perrie?" Falco entrelaça as mãos atrás das costas e caminha para frente.
Perrie engole em seco. "Ele não sabia o que estava assinando. Ele era uma criança."
"Aquela #emph[criança] vende jornais em frente a um importante ponto de encontro da Obscura."
Perrie não recua diante da fúria de Falco. "Você sabe o que eles fazem com alguém que os espiona. Criança ou não."
"Quando os contratos falham, os pontos que unem o plano se soltam e o tecido da sociedade se esgarça. Então tudo desmorona ao nosso redor." Falco para na frente de Perrie. "Você sabe que a profecia exige que mantenhamos esta cidade unida contra o que está por vir. Você está virando as costas para isso?"
Perrie olha para suas botas. "Eu sei que precisaremos que todos esses contratos e pactos sejam cumpridos." Cada promessa assinada, cada contrato vinculativo, todos os sussurros e promessas feitos no escuro, todos têm um motivo.
Ele não entende todas as minúcias. Ele não sabe ler, não consegue distinguir as letras minúsculas com seus olhos, por isso sempre foi grato pelo Amplificador em seu ouvido e pelas fofocas ao redor das fontes. Ao longo dos anos, Perrie aprendeu que algo grande está vindo. Que os Corretores vêm se preparando há anos, construindo um exército de obrigações e promessas que a maioria dos prometedores está magicamente vinculada a respeitar, mesmo que esses mesmos feitiços escondam essa memória deles.
Legiões de pessoas, esperando para serem ativadas, e a maioria nem sequer sabe disso.
"Ainda não dei o veredito sobre o caso, ainda," diz Falco suavemente. "Mas talvez eu tenha uma maneira de você se provar útil para a causa."
"Eu sirvo à lei." Perrie bate no peito em uma saudação, depois estremece.
"Armazenamos tanto Halo que até Ziatora notou que o suprimento das ruas foi afetado. Ela trabalhou duro para farejar para onde ele está indo. Conseguiu um Arrematador sob seu controle que roubou planos do mais novo depósito em favo de Halo antes que pudéssemos apagar totalmente a memória dele. Estou enviando Kros atrás deles, mas quero alguém para acompanhá-lo, para fornecer os músculos."
"Kros?" Perrie suspira. Ele não trabalha com parceiros. E ele certamente não quer Kros no seu encalço, relatando cada pequeno erro de volta para Falco.
"Kros me informa que o Arrematador está sob uma ordem de silêncio," diz Falco. "Mas ela tem planos reais em pergaminho. Ela pode não ser capaz de falar com ninguém sobre eles, provavelmente nem se lembra por que está fugindo até olhar para os planos. Então ela entende o que tem e começa a correr novamente. Vá. Encontre esse quebrador de contratos. Recupere os planos. Deixe o Arrematador vivo. Mas faça-os desejar estarem mortos. Descarte o quebrador de contratos na frente da Treza para que Ziatora receba a mensagem. Até aquele dragão precisa saber que não se pode quebrar um contrato conosco."
Um leve ruído no ar atrás de Perrie diz a ele que Kros entrou silenciosamente na sala. Todo Corretor é um solicitador, todos iguais perante a lei. Mas Falco governa a família, e há vários outros papéis que precisam ser preenchidos. Perrie faz cumprir contratos, e Kros se autointitula um patrulheiro vindo direto da Velha Capenna, explorando os cantos e frestas da cidade. Ele encontra os restos de lugares esquecidos que a família pode usar para montar aviários que os solicitadores usam como esconderijos quando necessário. Ele começou como um intermediário, no entanto. Um contratante de defesa que gostava de roupas sob medida e recepções em varandas bem acima da cidade, onde grandes negócios podiam ser feitos com um aperto de mão e um sorriso. Kros provavelmente está parado em uma parte sombria da sala, esperando para sair no momento certo em uma névoa azul tênue para assustar Perrie. Ele adora o brilho e o drama de tudo isso.
Arte de: Katerina Ladon
Isso funciona com recrutas novos, novatos. Não com Perrie. Ele percebeu Kros pelo canto do olho. Todo sobretudo e armadura de ombro brilhante e bem polida, corte de cabelo leonino de luxo cuidadosamente estilizado para cair de forma audaciosa sobre os ombros. Mais brilho do que substância, sente Perrie. Um verdadeiro Corretor deveria ter manchas de oxidação por estar do lado de fora, trabalhando em contratos nas ruas.
Há uma decisão que Perrie precisa tomar aqui. Ficar e esperar por um veredito e descobrir o quão condenado ele está, ou apressar-se e impedir que os Arrematadores descubram o que sua família está tramando. Talvez, quando ele voltar, encontre Falco inclinado a decidir favoravelmente. Ou, pelo menos, não de forma assassina.
Perrie acena para onde Kros se esconde na sombra enquanto toma uma decisão. "Vamos encontrar um Arrematador, Kros. Parece que o tempo não está esperando por nós."
Quando ele se vira, a expressão azeda no rosto de Kros apaga a exaustão que fazia os ossos de Perrie estalarem naquele momento.
"Eu também não estou feliz com esta missão," retruca Kros enquanto atravessam o Mezzio em um carro, apenas mais um veículo quitinoso semelhante a um escaravelho desviando seu caminho pelas faixas de rua entre os andaimes vertiginosos dos arranha-céus da cidade que levavam às vigas dos Altos do Parque. O motorista é um Corretor que mantém o ouvido atento às conversas dos passageiros para a organização.
Perrie olha para uma multidão bem vestida em fila para uma produção teatral na esquina da King's Street com a Butchers.
"Beba isto." Kros entrega a Perrie um elixir enquanto atravessam uma ponte que parece flutuar no ar. O estômago de Perrie balança; ele não é chegado a alturas, mesmo que Nova Capenna seja apenas isso. Uma cidade empoleirada em vigas, pairando sobre a terra onde as pessoas outrora caminharam.
Tantos usos para o Halo. Perrie se pergunta muito sobre isso. Quão dependente a cidade se tornou dele em tão pouco tempo. "Eu não preciso —"
"Se você não estiver em plena forma, não será útil para mim. Não é qualquer Arrematador que estamos perseguindo. Jolene, ela é uma demolicionista."
Eles os chamam de tratores na rua de Perrie. Jolene poderia, sem dúvida, derrubar um prédio inteiro sobre eles se não forem cuidadosos.
"Você deve tê-la ouvido ser chamada de 'Rainha do Saque'. Aparecemos para dar a ela certa~assistência jurídica quando ela foi pega arrombando o cofre de uma joalheria. Pensamos que um contrato de construção inabalável nos cobriria, mas ela é mais astuta do que imaginávamos. Perrie, beba logo."
Perrie vira o elixir em um único gole. Ele se curva enquanto os efeitos de cura reconstituem dolorosamente os ossos quebrados.
Pelo menos sua dor de cabeça diminui. O homem já está com as mãos erguidas, e suas luvas brilham com uma luz azul. Há um sorriso leve e arrogante nos cantos de seus lábios.
"Não é da cidade", resmunga Perrie. Os perfura-joelhos não vão se conter, ele imagina. Não existem regras tácitas sobre brigas entre famílias aqui embaixo. Esse povo-guaxinim é selvagem, não como os moleques de rua tagarelas e os trabalhadores braçais da cidade acima.
E talvez seja por isso que Kros exibe aquele sorriso medonho no rosto. Talvez seja isso o que é preciso para se tornar um do círculo interno de Falco.
"Ei, amigão", diz Kros em um tom equilibrado, mas um tanto curioso. "Estamos procurando por um amigo."
Ele tem um pequeno retrato em papel. Kros segura a representação estranhamente realista no ar para que o povo-guaxinim veja.
"Nosso amigo —"
Vinte integrantes do povo-guaxinim, peludos, rosnando e claramente famintos, atacam.
Perrie quebra patelas e esmaga rostos há muito tempo. Às vezes estalando membros aqui e ali. O povo comum da cidade sempre se preocupava com as famílias jogando cidadãos pela janela. #emph[Passeios de pipa], eles chamavam.
A verdade é que isso quase nunca acontece com as pessoas comuns.
E não há #emph[tanta] briga assim. Perrie passa a maior parte do tempo rastreando, farejando novos contratos potenciais e caminhando pelas ruas para que as pessoas vejam um executor dos Corretores mantendo a ordem.
Enquanto o povo-guaxinim avança sobre eles, Perrie beija os anéis em seus dedos pela primeira vez em semanas. Ele nem sequer os havia sacado para os seguranças. A luz brinca em suas mãos na forma de socos-ingleses. Mais luz flui sobre seu punho direito para formar uma manopla, com tentáculos de luz subindo pelos braços maciços de Perrie.
"Você tem que aceitar quem o plano quer que você seja, eu acho", resmunga Perrie, e começa a golpear.
É satisfatório, de uma forma profunda e animalesca. Cada soco conecta, e ele consegue sentir o osso cedendo. A cada estalo carnudo, a cada soco esmagador, o povo-guaxinim se dispersa. Eles podem já ter visto um rhox lutar antes, mas nunca viram um radiante com o brilho de uma magia como esta.
Perrie não é apenas um brutamontes; ele se considera um mestre estrategista. Ele sabe quando evitar o nocaute para poder arrastar um corpo à sua frente como escudo. Ele consegue ver como a luta se desenrola nos paralelepípedos antigos, como se estivesse observando de cima.
O povo-guaxinim se reagrupa e fervilha para outro ataque, buscando apenas o sangue que podem tirar com facas e garras, e Perrie está pensando quatro ou cinco jogadas à frente.
Há um líder aqui.
Sempre há um líder. E se você observar o ritmo da luta, identificar onde estão as brechas e quem eles estão protegendo, poderá sentir o cerne do poder. Como uma aranha sentada no centro de uma teia.
É uma dança. E quando o líder brigão e cheio de cicatrizes dos atacantes subitamente percebe que Perrie não está vacilando nem sobrecarregado, mas tem usado os espaços abertos e momentos na luta para se aproximar dele, ele entra em pânico e foge em vez de acabar recebendo os punhos de Perrie.
Pela primeira vez em dias, Perrie sorri abertamente.
Aquilo fora uma pequena guerra, e o general menor fugira para as colinas.
"Pare de se gabar, temos trabalho a fazer", diz Kros das sombras de uma parede desmoronada. Ele limpa o sangue de uma adaga longa e a guarda sob o casaco novamente.
O sorriso de Perrie desaparece, e ele olha para Kros com tanta malícia pura que Kros mexe na borda de seu colete. "Quando estiver pronto."
Perrie estende a mão, como um mordomo indicando o caminho para uma sala de espera.
Kros começa a dar um passo à frente, e toda a parede que ele estava usando como cobertura desaba sobre ele com um gemido horroroso. Pedras caem, poeira de argamassa enche o ar, e não resta nada além de uma pilha de escombros onde o procurador estivera parado há apenas uma fração de segundo.
"Kros?" Perrie está um tanto atordoado. Kros pode irritá-lo, eles podem ter anos de uma rivalidade quase fraternal, mas por um momento ele não consegue se mover. Kros é rápido, ávido para detectar ataques e geralmente desaparece antes que seu atacante entenda o que aconteceu.
"Kros!"
Falco não vai deixar Perrie subir na estrutura de comando dos Corretores se ele deixou Kros morrer. Perrie agora está pensando nas coisas horríveis que Falco poderia fazer com ele, o que é um erro. Os paralelepípedos sob os pés de Perrie vibram.
Magia de demolição.
A estrada se abre sob Perrie.
Ninguém espera que os grandes brutamontes se movam rápido demais, mas Perrie sabe correr. E ele se move agora como se sua vida dependesse disso.
Porque depende.
Escombros atingem sua pele grossa, tirando seu fôlego. Velhas rochas rolam pela estrada. Não há nada além de caos e poeira no ar enquanto Perrie esquece táticas ou próximos passos; ele está apenas girando em direções aleatórias para evitar ser esmagado.
A presa deles sabia que eles viriam. Armou uma armadilha.
Provavelmente disse ao povo-guaxinim onde encontrar alguns estrangeiros vulneráveis, prontos para serem assaltados.
Perrie pega sua ocular enquanto tenta sair da defesa e assumir a iniciativa na luta. Onde está esse maldito Rebitador?
Caos demais. É difícil fazer uma leitura.
Mas suas orelhas estremecem. Passos?
Perrie sai em disparada da rua para as ruínas de uma antiga estrebaria e estalagem. Ainda há um leve cheiro de cavalo no ar, embora faça séculos que a cidade velha estava totalmente povoada.
Mesmo em uma batalha, pequenas coisas como esta são frequentemente a diferença entre a vitória e a derrota. Perrie puxa seu martelo de onde estava pendurado desajeitadamente sob seu casaco. Ele precisará dele para enfrentar alguém tão poderoso.
O martelo zumbe com antecipação.
Perrie aperta sua pegada, seus olhos se estreitam enquanto ele se vira, suas orelhas se agitando a cada minúsculo som. Seu terno risca-de-giz está esfarrapado e rasgado. Ele tremula enquanto ele golpeia a parede mais próxima com seu martelo. Pode não ser magia de demolição, mas o resultado é o mesmo: Perrie destrói a parede.
O Rebitador nos escombros e na poeira tem punhos de metal encrustados de joias e protegidos por manoplas que brilham. Perrie apara o primeiro soco, sente-o estilhaçar ossos em sua mão e balança o martelo para cima. Jolene se esquiva, tenta agarrar o martelo e o atinge no antebraço com um soco carregado magicamente que faz seus dentes baterem.
Arte de: Caroline Gariba
Perrie acerta uma cabeçada nela.
Ela voa para trás e atinge a parede, com as manoplas erguidas, pronta para ele.
Perrie levanta o martelo. "Se nós dois golpearmos ao mesmo tempo, podemos derrubar tudo sobre nós. Eu sei que posso sair andando, e você?"
Jolene olha ao redor para as paredes e as antigas vigas apodrecidas. Por uma fração de segundo, ela quase dá um passo à frente e começa a luta. Algo pisca por trás de seus olhos, um leve sussurro de um feitiço.
"Você tem algo que nos pertence."
Ela não diz nada. Apenas espera. Calma demais.
"Sim, ela certamente tem", diz Kros atrás de Perrie. É claro que ele não está morto. Perrie deveria estar aliviado. Falco não ordenará uma execução. As chances de Perrie sobreviver a tudo isso acabaram de subir drasticamente.
Mas ele ainda está irritado por ter feito o trabalho pesado enquanto Kros —
Perrie lança um olhar para seu velho rival e vê o sangue pingando de um corte na cabeça de Kros. O homem não está deslizando graciosamente para fora das sombras; ele está mancando até eles. Cada respiração que Kros dá é um estertor.
Parece que Kros mal saiu vivo dessa.
"Mas isso não é tudo o que ela tem", diz Kros.
O ar estala com energia e formas enquanto Kros lança energia coerente no ar. Perrie espera explosões ou dor, mas em vez disso, um véu de peso que ele não havia notado desaparece, e Jolene arqueja.
Ela parece totalmente desorientada.
"Feitiço da Obscura", Kros sibila. Ele agarra o ombro de Perrie para se estabilizar.
"Não são os Rebitadores?" A Obscura teria gasto uma tonelada de magia cara para colocar um Rebitador sob seu controle dessa maneira. Perrie estremece com simpatia, embora estivesse prestes a esmagar o crânio dela há apenas uma fração de segundo.
"Eu não estou mais com os planos", diz Jolene. "Mesmo sob a compulsão da Obscura, não sou tão burra."
"Então, tenho perguntas a lhe fazer", sussurra Kros. Ele solta o ombro de Perrie e avança vacilante. Ele mal reconhece Perrie, apenas arrasta uma perna desajeitadamente. Seus dedos brilham com magia.
Um depoimento mágico. Perrie estremece.
"Temos um problema", diz Kros mais tarde, ao soltar a testa de Jolene. Farrapos de sua magia azul dançam ao redor dos olhos dela. Kros consegue apagar memórias, uma habilidade de procurador útil para estabelecer contratos que a pessoa que assinou nem sequer lembra.
Ainda mais útil para eles agora é que ele pode usar as mesmas habilidades para garimpar memórias em depoimentos.
Kros tropeça ao recuar em direção a Perrie. Ele esteve batalhando na mente de Jolene, sem dúvida. E Kros, ferido, teve que lutar para conseguir algo.
"Planos?" Perrie pergunta.
Kros senta-se em um pedaço de escombro após afastar uma antiga viga de madeira cheia de cupins. Ele respira fundo.
Perrie lança um olhar para Jolene. Ela está amarrada e, após a magia de Kros, sem disposição para falar. Seus olhos estão vidrados e distantes. Ele está um pouco impressionado. Ela é uma Rebitadora baixa e musculosa, e quase matou os dois.
"Eles a sequestraram de seu próprio apartamento", diz Kros. "Forçaram-na a ser uma agente da Obscura, trabalhando para os Rebitadores."
"Então~" Perrie está confuso. "Ainda podemos recuperar os planos, apagar a memória dela e voltar para o Falco. Certo?"
Mesmo enquanto diz isso, he sabe que não será tão simples. Ele está apenas tentando fazer com que Kros o tranquilize de que tudo ficará bem.
"A Obscura faz questão de saber tudo o que está acontecendo. Eles têm tentado descobrir para onde o Halo está sumindo, e isso os levou aos Rebitadores que trabalham em construções para nós. Eles têm fornecido informações falsas aos Rebitadores, dizendo que os Corretores têm ferido seus trabalhadores. Se jogarmos o que parece ser apenas mais um Rebitador espancado nas ruas, com a memória apagada, começamos uma guerra." Kros recosta-se em um pilar inclinado e fecha os olhos. "Isso tudo é uma armadilha, ela é a isca."
"A Obscura sabe que Falco está acumulando Halo?" A substância é quase uma moeda neste ponto. Algumas das outras famílias tiveram que começar a bisbilhotar sobre a escassez na cidade. Mas Falco não esperava que isso acontecesse tão cedo.
"Eles descobriram que estamos fazendo isso, mas não sabem o porquê. Estão tentando nos colocar de volta em nosso lugar", diz Kros. "A Obscura acha que eles são os herdeiros da cidade só porque sabem de tudo. Estão sempre tentando garantir que tudo permaneça igual. Idiotas arrogantes."
"O que fazemos?" Perrie olha para Jolene. "Falco disse —"
"Eu sei o que Falco disse", Kros cobre o rosto com as mãos. "Mas se fizermos isso, iniciaremos uma guerra entre os Rebitadores e nós."
"Não é isso o que Falco quer?"
"Não! Ele quer mostrar que um contrato é um contrato. Ele não está pronto para uma guerra. Ainda não. É cedo demais."
Há um plano maior no ar. Algo do qual Perrie não está ciente. Nunca lhe disseram por que Falco está acumulando fanaticamente todo o Halo que os Corretores conseguem colocar as mãos. Mas ele consegue sentir as peças se movendo e vê os espaços vazios. É algo grande, seja o que for.
Talvez até histórico. Eles esconderam muito Halo.
"Uma guerra com os Rebitadores destruirá tudo pelo que temos trabalhado", diz Kros. "É com a Obscura que precisamos nos preocupar."
"Nós vamos e contamos ao Falco", Perrie assente.
"Falco nos ordenou que fizéssemos um trabalho", responde Kros.
Perrie encara por um momento. "Mesmo se —"
"Você, mais do que ninguém", grita Kros, "deveria saber o quão absolutas são as suas instruções com o Falco."
E Kros não arriscaria seu lugar no topo da organização.
Perrie ainda está chocado. "Pessoas morrerão se começarmos uma guerra. Muitas pessoas."
Ele imagina edifícios inteiros caindo. Explosões. Lutas em cavernas subterrâneas. Equipes de Rebitadores irrompendo de paredes ou dutos para matá-los. Porque não seria briga por território; os chefes jogariam para valer.
Falco precisaria de um general, então. Um mestre estrategista. Poderia ser um caminho de volta para as boas graças de Falco.
Mas muitas vidas inocentes ficariam presas no fogo cruzado.
Perrie suspira e se levanta. "Você está ferido demais para viajar. Fique aqui com a Rebitadora, enviarei alguém de volta para ajudar."
"Perrie, você não pode voltar para o Falco de mãos vazias. Ele vai —"
Perrie ri. "Quantas vidas eu salvarei se eu fizer isso?"
Kros olha para o chão. "Você está arriscando sua vida. Você entende isso, certo?"
"Eu sei", diz Perrie. "Eu sei."
Perrie ainda tem um passo vacilante e a imagem residual da magia de transporte de Rigo em seus olhos quando é empurrado para o escritório de Falco. Os corredores aqui fervilham com Corretores se preparando para uma guerra. Todos estão armados com poder mágico, e todos estão inquietos.
Arte de: Keiran Yanner
Se as ruas estiverem tão tensas quanto aqui, bastará um único olhar errado, uma palavra mal dita, e os Rebitadores e Corretores cortarão as gargantas uns dos outros.
"Não vejo planos, não vejo o Kros", rosna Falco. As portas entalhadas à mão para a varanda estão escancaradas. Os arcobotantes imponentes de outros edifícios surgem na noite lá fora, e gárgulas de alabastro olham feio para Perrie.
Ele engole em seco.
"Kros está vivo?" Falco dá as costas e olha para as alturas.
"Ele está voltando. Com a Rebitadora, Jolene." Perrie já enfrentou algumas das pessoas mais perigosas de Nova Capenna. Agora, ele tem medo de que, se respirar fundo demais, perturbe Falco, então está prendendo a respiração.
A voz de Falco cai várias oitavas. "Mas nada de planos."
"Foi uma armadilha." Perrie solta um suspiro profundo. Lentamente, estrategicamente. "Podemos recuperar os planos, mas eles não são tão importantes quanto quem realmente os roubou."
Falco ainda está de costas para ele. Ele agita suas asas, e o estalo súbito assusta Perrie.
"Obscura?" pergunta Falco.
"Como você —" Perrie já deveria saber que Falco tem seus meios.
Falco sai para a varanda, sob a luz berrante de Altos do Parque. A cidade brilha abaixo dele a partir dali. "Dê um passo lá fora no ar fresco comigo."
Perrie foi despojado de seu martelo e de seus socos-ingleses, mas ainda tem força física. E isso não é muito contra um chefe como Falco, pensa ele, enquanto seus ombros se curvam.
Perrie atravessa hesitante a soleira e para na varanda de Falco pela primeira vez em sua vida. Falco abre as asas levemente para deixar o ar arrepiar suas penas. Ele fecha os olhos.
29 de Março de 2022 | Por Elise Kova
Episódio 2: Roupa Suja
ESTAÇÃO MEZZIO
Nova Capenna era um borrão. Elspeth segurava-se em uma barra no vagão do trem enquanto ele sacolejava pelos trilhos, mas fazê-lo era desnecessário quando ela estava tão apertada entre outros passageiros que era impossível se mover. Com um solavanco e um gemido, o trem parou na estação principal do Mezzio — o coração pulsante da cidade — e exalou fumaça e pessoas.
Arte por: Muhammad Firdaus
Desta estação, elevadores dourados em formas de cascas de besouros gigantes levavam os ricos para as Alturas do Parque. Os trabalhadores subiam de Caldaia através de escadarias cheias de vapor. Ela se encaixava mais facilmente com os últimos do que com as modas reluzentes dos primeiros.
Elspeth avaliou suas roupas. Suas calças eram simples e resistentes, e ela tinha dobrado as mangas e mantido seu colete aberto para lutar contra o calor do trem. Embora a cúpula que cercava Nova Capenna mantivesse a cidade consistentemente temperada, estava sufocante entre todos aqueles corpos. Seus labores também mantinham sua temperatura alta ao longo do dia. Por mais ansiosa que estivesse para se entregar às modas mais sofisticadas de Nova Capenna, a sobrevivência era seu primeiro foco.
E sobrevivência significava roupas práticas nas quais ela pudesse trabalhar.
Ela mantinha a cabeça baixa e aceitava trabalhos esporádicos por toda a cidade conforme os encontrava. Na superfície, ela não era diferente de qualquer outro. #emph[E ainda assim] ~ Elspeth esfregou levemente o abdômen. Ainda havia uma sensação de vazio que fora esculpida nela pela lâmina de Dádofatídico quando Heliod a empalou. Ela esperava curar aquela dor em Nova Capenna, mas ainda não se sentia totalmente bem neste novo lugar.
Ela estava tão perdida em seus pensamentos que não viu o leonino correndo até que fosse tarde demais.
O homem colidiu diretamente com ela, e ambos ricochetearam no chão. Elspeth piscou, atordoada. Os passageiros fluíam ao redor deles.
"Abençoado pelos anjos! Pare de vadiar e olhe por onde anda!" ele resmungou, alisando sua pelagem marrom mosqueada e recolhendo os rolos de tecido que antes levava debaixo do braço antes que pudessem ser pisoteados irremediavelmente.
"Sinto muito por isso." Julgando por suas roupas, ele parecia não ser afiliado a uma das famílias que pareciam governar Nova Capenna e, por isso, ela estava grata. Qualquer governo que estivesse estabelecido não era muito eficaz, já que ela nem conseguia nomeá-lo, mas conseguia listar de cor os Obscura, os Cabaretti, os Maestros, os Corretores e os Arrematadores.
"#emph[Puxa] , ninguém nunca te disse para manter os olhos para frente?" O leonino levantou-se e a deixou para trás.
As palavras ecoaram em seus ouvidos, prendendo-a no lugar. Fixando-a. Os passageiros de Nova Capenna continuaram a fluir ao seu redor, alguns lançando-lhe olhares frustrados ou confusos, outros ignorando-a inteiramente.
Mas Elspeth mal estava ciente das pessoas. Em sua mente, ela não estava apenas em um lugar diferente, mas em outro tempo~
DOMINÁRIA, ANTES
"Você está viva!" Ajani correu até ela. Seu abraço protetor a esmagou.
Elspeth envolveu os braços ao redor dele, segurando seu amigo na mesma medida. Os pelos ao redor do pescoço dele fizeram cócegas em seu nariz e bochecha, trazendo um sorriso aos seus lábios. Felicidade. Alívio. #emph[Segurança] . Fazia tanto tempo que ela não sentia emoções tão agradáveis que era um milagre que ainda pudesse senti-las.
"Eu não acreditei que você caminhava no reino dos vivos até vê-la por mim mesmo." Ajani se afastou, pousando as mãos nos ombros dela. Seus olhos brilhavam de emoção.
"Eu também não acreditaria, se fosse você." Elspeth deu-lhe um sorriso cansado. "Estou tão feliz por ter encontrado você." Dominária não era um de seus refúgios habituais. Eles haviam se encontrado aqui uma vez antes, há muito tempo. Ela estava aliviada por não ter sido há tanto tempo que ela ainda não pudesse rastrear seu velho amigo nesta terra em grande parte desconhecida. "O que o traz aqui? Eu esperaria encontrá-lo em Naya."
"Depois de derrotar Bolas, vim aqui para me encontrar com Karn e as Sentinelas para discutir a ameaça phyrexiana. Mas haverá tempo para negócios mais tarde." Ajani balançou a cabeça, como se descartasse a ideia. "#emph[Como] você está aqui?"
"É uma longa história~" Elspeth contou-lhe sobre seu tempo no Mundo Inferior após sua morte pelas mãos de Heliod e como ela havia enganado o Deus do Sol para outro confronto. Ao fazê-lo, ela deu a Erebos, Deus dos Mortos, uma oportunidade de aprisionar Heliod. "Erebos ficou tão grato a mim por ajudá-lo a acertar as contas com seu antigo rival que me deixou partir."
Ajani ficou em silêncio por um longo tempo depois que ela terminou. Ele olhou intensamente para o nada, em contemplação. Ela vira aquele olhar em seu velho amigo muitas vezes e sabia que era melhor não tirá-lo de seus pensamentos quando estava assim. No entanto, geralmente, essa expressão não envolvia #emph[ela] . Por mais emocionante que fosse vê-lo novamente~ uma pequena parte dela estava com medo.
Eles estiveram separados por tanto tempo e tanta coisa aconteceu com ambos. Ela retornara dos mortos. Ele começara a trabalhar de perto com as Sentinelas e Karn investigando uma ameaça iminente. E se ele a visse sob uma luz diferente agora? Ele a julgaria pelas coisas que fizera?
Ele se mexeu no banco onde estavam sentados e, lenta e propositalmente, tomou as mãos dela nas dele. Olhando-a diretamente nos olhos, ele perguntou: "Como você está?"
"O quê?" Elspeth empertigou-se um pouco.
"Elspeth, como #emph[você] está? Você pode ser uma das pessoas mais fortes que conheço. Mas não consigo imaginar o peso em seu corpo e espírito do que você foi forçada a suportar. A reviravolta quando tudo o que você quis por tanto tempo foi estabilidade. E Daxos~ eu sei o quanto ele significava para você."
Foi a vez de ela desviar o olhar. Caso contrário, ele veria através de todas as suas defesas e dentro da dor profunda que ela ainda nutria. Elspeth queria ser forte. Queria deixar tudo isso para trás. Mas Ajani a conhecia bem demais para isso. Ele sabia o quanto ela desejara que Theros fosse seu lar, sua rocha, alguma estabilidade em um Multiverso de agitação constante. O quanto ela sacrificara por seu amor perdido, apenas para que ele retornasse como um homem que ela não reconhecia mais.
"A parte mais difícil," ela começou lentamente, "é não ter para onde ir. Calix me caça e, embora eu ache que posso despistá-lo~ para onde eu iria quando o fizesse? Não há futuro com Daxos, não como ele é agora. Nenhum plano jamais será seguro." E sem segurança não poderia haver lar. Essa era uma lição que ela aprendera desde cedo. Essa lição fora o que a motivara a buscar Theros — uma terra protegida por deuses. Mas se os deuses não significavam segurança~ o que poderia significar?
Elspeth riu, uma nota amarga infiltrando-se no som ao pensar em como tudo parecia sem esperança naquele momento. "Lutei tanto para escapar das garras de Erebos, e para quê? Alguns dias, não sei a resposta."
Ajani suspirou. "Elspeth, o lar não é um lugar; é um sentimento. São as pessoas que compartilham seus sonhos e aqueles em quem você confia."
"É fácil para você dizer."
"Você acha?" Ele pareceu levemente ofendido.
"Você está em casa onde quer que vá. Eu sempre tive que caçar e lutar pela minha."
"Estou em casa onde quer que vá porque estou, antes de tudo, em casa em minha própria pele. Você deve primeiro —"
"Não espero que você entenda," ela interrompeu e retirou as mãos dele. Ela não suportaria a conversa por mais um minuto. Era fútil até mesmo esperar que ele compreendesse a dor de ser uma criança perdida.
"Você tem razão," Ajani admitiu. "Posso não entender as profundezas da sua dor tão agudamente quanto você esperaria. Mas você ainda é minha querida amiga, e não preciso conhecer cada nuance do seu sofrimento para ver a ferida e querer ajudá-la a curá-la."
"Não há nada que você pudesse fazer."
"Posso encorajá-la a #emph[manter os olhos para frente] . Olhe para o futuro. Não deixe que os demônios do seu passado a consumam."
"Não tenho demônios." Dizer isso teria sido muito mais convincente para ambos se ela não soasse tão amarga e defensiva.
"O lar virá de dentro, quando você tiver recuperado seu propósito — olhe para dentro e confie em si mesma. Se não o fizer, nunca se tornará quem realmente deveria ser. Você nunca encontrará paz, e não há lar se você não conseguir encontrar contentamento consigo mesma."
"Não vim até você para ouvir um sermão." Ela se afastou do banco, cruzando os braços ao redor de si mesma e afastando-se. #emph[Olhe para dentro. Encontre a paz, depois encontre o lar. Não é um lugar.] As palavras ficaram com ela, desconfortáveis. Ela não conseguia escapar delas com alguns passos; talvez nunca conseguisse escapar. Ela precisava se afastar, limpar a cabeça e esperar ganhar uma nova perspectiva com a distância.
"Elspeth."
Ela ouviu-o levantar-se também sem olhar para trás. "Vou pensar no que você disse, mas não posso falar sobre isso agora. Foi bom vê-lo novamente."
Ajani continuou de qualquer forma. "Enquanto você estava —" ele claramente teve dificuldade com a palavra "morta" e disse, em vez disso, "— #emph[fora] , continuei sua busca por um lar~" Ele inspirou profundamente, como se estivesse se preparando. "Eu o encontrei."
LAVANDERIA MEZZIO, DIAS ATUAIS
Ela parou do lado de fora de seu local de trabalho atual. O cheiro de sabão pairava no ar, tão brilhante e nítido quanto as roupas finamente passadas nas vitrines. Seu reflexo estava distorcido no vidro, mal reconhecível.
"Você está atrasada," o lojista disse no momento em que a viu. "Este é um bom emprego e você não vai mantê-lo se não for pontual." Elspeth olhou para o relógio na parede, confirmando o que já sabia — ela estava aqui exatamente no horário prometido. "Não olhe para o relógio. O relógio não vai te ajudar. O único tempo que importa é o que eu digo, e eu digo que você está atrasada. Estar no horário é #emph[atraso] ."
"Peço desculpas," Elspeth murmurou. Ela nem sequer se dera ao trabalho de aprender o nome de seu chefe atual. Seu empregador mudava regularmente nesta cidade. Ninguém a queria por muito tempo quando ficava claro que ela não iria participar de seus jogos dissimulados e cruéis. Parecia inútil se apegar demais. "Isso não vai acontecer de novo."
"É bom que não aconteça. Posso usar músculos como os seus." Ele fez um movimento brusco com o polegar em direção à porta dos fundos. "Agora, tenho seis malas para você levar aos trens de carga. Mãos à obra e você ganhará o salário de hoje."
Elspeth não desperdiçou mais tempo ou palavras com o homem e fez o que lhe foi instruído. A sala dos fundos da lavanderia era separada em seis segmentos — um para cada uma das cinco famílias criminosas e um para a população em geral. Porque os anjos proibiam que até mesmo suas roupas sujas se tocassem.
Ela ergueu uma sobre o ombro e seguiu de volta para fora, carregando tudo até a estação central do Mezzio antes de retornar. Durante todo o tempo, Elspeth ouvia os cidadãos ao seu redor. Ninguém lhe dava atenção, mesmo quando ela demorava um pouco demais ou diminuía o passo quando havia uma conversa particularmente fascinante. Ela usava cada novo emprego como uma oportunidade para aprender tudo o que podia sobre Nova Capenna. Talvez, eventualmente, ouvisse exatamente o que precisava para ter certeza de que este era seu lar.
A porta da loja estava entreaberta em sua última viagem de volta, o suficiente para que ela pudesse ouvir vagamente a conversa que ocorria lá dentro.
"— certifique-se de pagar o que deve," um homem desconhecido rosnou.
"Eu prometo, vou conseguir o dinheiro para você." A voz do lojista, geralmente severa e confiante, tremeu. "Apenas me dê mais uma semana."
"Mais uma semana?" Uma mulher riu. "Você teve um mês. Fomos mais do que generosos."
"Mais um dia — dois dias — por favor, eu imploro."
Elspeth nunca ouvira o lojista soar tão assustado. Tão humilde. Uma sensação de desânimo abateu seus ombros, instalando-se em seu estômago com o leve retrogosto de desgosto no fundo da garganta. Essas pessoas estavam atacando os trabalhadores residentes da cidade.
"Dois dias? Tenho certeza de que há algum dinheiro por aí." Sons de esmagamento e quebra foram seguidos por risadas rudes.
O gemido de um homem, interrompido por um baque surdo e mais gargalhadas.
Elspeth foi um borrão ao empurrar a porta, vendo a carnificina que os estranhos haviam causado. Manequins estavam sem cabeça e quebrados no chão. As roupas anteriormente impecáveis que vestiam jaziam em pilhas. O caixa fora esmagado ao redor do corpo ensanguentado e ferido do lojista, três homens e uma mulher pairando sobre ele.
Os olhos pálidos dos quatro agressores voltaram-se para ela.
"O que temos aqui?" disse um homem de cabelos escuros. Ele fora a primeira voz que ela ouvira. O líder, Elspeth presumiu.
"Ela é~ ela é apenas uma cliente." o lojista lutou por cada palavra. Ele era a última pessoa que ela esperava que tentasse protegê-la.
Elspeth nivelou os olhos com o líder do grupo. "Saiam."
"Muito atrevida para alguém que é 'apenas' uma cliente." Sua boca se curvou em um sorriso sinistro. "O que você se importa com o velho?"
Era uma boa pergunta, uma que Elspeth não tinha dúvidas de que estaria fazendo a si mesma mais tarde enquanto cuidava de quaisquer feridas que estivesse prestes a sofrer. Mas, por enquanto, ela estava focada apenas em afastar aquelas pessoas do lojista ferido. Isso já tinha ido longe demais; eles iriam matá-lo se continuassem.
"Qualquer um que sinta prazer sádico em espancar um homem desarmado torna-se assunto meu."
"Ela acha que somos sádicos." A mulher riu e estalou os nós dos dedos. "Talvez devêssemos mostrar a ela como é o sadismo de verdade."
"Palavras ousadas para dizer sobre executores dos Maestros," disse um homem com as laterais da cabeça raspadas.
Arte por: Jodie Muir
"Estou me sentindo generoso hoje." O líder afastou-se do lojista. "Vou perdoá-la por essa má escolha de palavras e deixar que não seja o último erro que você comete nesta terra se esvaziar o conteúdo de seus bolsos."
"Engraçado, eu também estou me sentindo generosa. Estou pronta para deixar todos vocês saírem daqui com suas patelas intactas se partirem agora," Elspeth retrucou. Pessoas assim só entendiam a violência. Então, se ameaças eram o que era necessário para atraí-los, ela seria a isca.
"Ora, sua —" rosnou um homem usando luvas vermelhas.
"Chega." A mulher avançou, mas seu líder segurou seu ombro e a deteve.
Ele olhou fixamente, inclinando-se para sua subordinada, seus narizes quase se tocando. "#emph[Eu] estou no comando aqui, e não atacamos pessoas a menos que eu diga."
"Mas —"
"E eu digo que vamos pintar as ruas de vermelho com ela." Ele soltou a mulher, e Elspeth não esperou o ataque vir. Eles haviam caído em sua provocação. Ela os distraíra suficientemente do lojista, e agora era hora de salvar sua própria pele. Quatro oponentes normalmente não seriam um problema para ela, mas dado que estavam armados até os dentes, uma retirada tática era o melhor.
Elspeth disparou para a rua, com os quatro Maestros em seu encalço. Ela se abaixou e desviou pelas ruas lotadas do Mezzio. A maioria lançava-lhe olhares feios, mas continuava com seus afazeres, sendo lutas e derramamento de sangue ocorrências comuns para os cidadãos de Nova Capenna.
"Você acha que pode fugir de nós?" A mulher a alcançara, empurrando um casal no chão em sua perseguição. "Treinamos para isso, e você é apenas uma ajudante de lavanderia."
Ela sacou uma espada do quadril, golpeando-a em um arco amplo em direção a Elspeth e quase atingindo três pedestres. Elspeth esquivou-se, abaixando-se para deixar a lâmina passar sobre sua cabeça. O braço da mulher estava cruzado sobre o corpo, o impulso ainda carregando a lâmina. Elspeth deu um passo à frente e fechou a distância, desferindo o punho no estômago da Maestros.
Mas foi Elspeth quem soltou um grunhido de dor e surpresa.
Seus nós dos dedos encontraram metal. Uma placa protegia o abdômen da mulher, escondida sob os casacos finamente ajustados que ela vestia. A Maestros sorriu amplamente, exibindo suas presas. #emph[Além de tudo o mais, vampiros. Perfeito.]
"Arrependida das suas escolhas de vida?" ela desdenhou.
A resposta de Elspeth veio na forma de se desvencilhar e correr mais uma vez. Ela massageou a mão, examinando a multidão em busca de uma saída. Houve uma pequena explosão e um flash de luz. Magia riscou o ar como a cauda de um cometa furioso. Atingiu a pedra sob os pés de Elspeth com uma pequena explosão, deixando uma marca de queimadura para trás.
Olhando por cima do ombro, ela viu um dos homens baixando o dedo e praguejando. Eles estavam dispostos a disparar contra ela com magia no meio de uma rua movimentada. Essas pessoas não se importavam nem um pouco com os outros. O que significava que, se continuassem ali, havia a chance de um pedestre inocente se ferir.
O homem de luvas vermelhas levantou o dedo, apontando para ela. Elspeth se abaixou, deslizou e correu para um beco enquanto outro raio de magia passava por cima. Ela passou por alguns trabalhadores que lançaram xingamentos às suas costas. Eles foram rapidamente silenciados pelos quatro que a perseguiam.
Elspeth fez outra curva fechada, e outra. Mas não importava quantas vezes ela voltasse ou quantos muros saltasse, eles não desistiam da perseguição. Elspeth olhou por cima do ombro ao dobrar outra esquina e parou derrapando.
O vento uivava no vazio diante dela.
A estrada pela qual ela estava correndo terminava abruptamente, uma ponte inacabada estendendo-se no ar vazio. Havia mais construções do outro lado do vão entre os edifícios. Mesmo que não fosse longe demais para ela saltar, o equipamento de construção oposto não oferecia nenhum lugar onde ela pudesse pousar com confiança. Uma fumaça vermelha e furiosa subia do abismo abaixo dela, os níveis inferiores da cidade submergindo no que parecia um mar de fogo e sangue.
"Ora, ora. Encurralada, pelo que vejo." O líder apareceu. Seus lacaios estavam ao seu lado, ofegantes e parecendo ainda mais furiosos pela perseguição que ela lhes dera. "Para onde você vai fugir agora?"
Para lugar nenhum. Ela não tinha para onde ir. A única saída era atrás deles ou para baixo. Ela olhou para a fumaça e a poluição de Caldaia mais uma vez, não vendo nada que pudesse amortecer sua queda.
"Eu estava me sentindo generoso," o líder disse. "Ia apenas dar uma surra em você, quebrar alguns dentes, garantir que você não pudesse dizer mais palavras espertas. Se ao menos você tivesse ficado parada."
Ele estava mentindo, certamente. No entanto, a culpa a inundou da mesma forma. Ela colocara todas aquelas pessoas em perigo ao correr pelas ruas. Quantas pessoas se machucaram porque ela não aceitara simplesmente uma surra? Ou pior?
O líder ergueu a mão, dois dedos apontados para ela. Faíscas se acumularam ao redor de seu pulso enquanto o próprio ar se retorcia com um calor invisível. "Prepare-se para encontrar sua morte."
Ela soltou um suspiro de diversão. "Infelizmente para você, eu já a encontrei."
Ele disparou.
Elspeth esquivou-se, rolando. Ela tinha que voltar para a segurança do prédio e da estrada que entrava nele. A vampira armada com a espada golpeou. Desta vez, ela agarrou o braço armado da mulher, usando o impulso dela contra ela mesma para girá-la contra a parede. O som de metal ressoou contra o concreto enquanto a cabeça da Maestros recuava com o impacto.
"Como você ousa!" Luvas Vermelhas avançou sobre ela, levando-a ao chão. Elspeth levantou uma perna e girou para tirá-lo de cima. Mas ela mal teve chance de se levantar antes que o outro homem estivesse sobre ela. E o ar ao redor do líder já estava soltando faíscas com magia novamente.
Ela estava em desvantagem numérica e restrita. Elspeth trocou golpes com eles, esquivando-se e abaixando-se. Eventualmente, eles a cansariam e ela cometeria um erro por exaustão. Ela tinha que se desvencilhar antes disso.
Ou encontrar uma arma.
Uma pilha de longas barras de aço chamou sua atenção. Eram idênticas ao metal que sobressaía na borda da ponte inacabada. Ela saltou, outro disparo zunindo perto de sua cabeça enquanto suas mãos se fechavam em torno de uma das barras.
Elspeth ergueu sua arma improvisada. Estava longe de ser a lança divina a que se acostumara. Mas era a vantagem que ela estivera procurando.
"O quê? Você vai nos atacar com —" o homem não terminou a frase antes que o aço encontrasse o lado de sua cabeça e ele desmoronasse.
Os outros dois congelaram por um instante e apenas observaram. Erro deles. Elspeth varreu a barra pelo chão. A mulher pulou; Luvas Vermelhas teve seus tornozelos enganchados. Ela puxou e depois girou, atingindo a têmpora dele com a extremidade romba do aço.
Apenas o líder agora.
"Não sejamos precipitados." Ele levantou as mãos, mas desta vez elas tremiam levemente. "Podemos conversar como pessoas civiliz —"
Ele disparou diante do movimento repentino dela, mas telegrafou sua mira. Elspeth esquivou-se, fechou a distância e o deixou inconsciente com um #emph[baque] . A adrenalina da luta começou a desaparecer, e Elspeth relaxou sua postura, verificando cada um deles. Ela não invejava a dor que sentiriam quando a consciência retornasse~ mas pelo menos todos estavam respirando. Ela realmente não queria matar ninguém, e a última coisa de que precisava era dos Maestros buscando vingança contra ela.
Eles podiam ter treinado para serem os braços fortes de uma família. Mas Elspeth lutara com deuses. Eles não iriam levar a melhor sobre ela tão facilmente.
Justo quando ela ia devolver a barra para onde a encontrara, um aplauso lento a alertou para a presença de outro.
Elspeth girou, brandindo a barra com uma estocada. Ela parou a um fio de cabelo do queixo de um homem. Ele tinha pele clara e cabelos escuros penteados para trás, rente à cabeça e curvando-se ao redor de seu alto colarinho de aço. Uma barba por fazer cuidadosamente aparada delineava sua mandíbula e sua boca, acentuando um sorriso malicioso. Sua armadura era similar demais à das pessoas que ela acabara de derrotar para ser coincidência.
"Seus amigos estão apenas tirando uma soneca." Ela olhou diretamente em seus olhos pálidos. "Não quero mais problemas."
"Parece que os problemas a encontraram hoje." E eles a assombravam onde quer que fosse. "Eles não são meus 'amigos'. Uma responsabilidade, na melhor das hipóteses. Claramente, não estavam prontos para serem executores. Peço desculpas pela falta de elegância deles." Ela não tinha certeza se ele acabara de se desculpar por eles não a terem matado mais rápido. Seus olhos brilhavam com o que parecia ser diversão diante do ceticismo dela. "Diga-me, se você é assim tão mortal com um pedaço de metal, o que poderia fazer com a coisa real?"
"Suas '#emph[responsabilidades] ' têm sorte de eu ter tido apenas esta barra." Ela a manteve em sua garganta. Um golpe em sua traqueia e ele colapsaria. Embora Elspeth não tivesse mais interesse em matá-lo do que tivera com os outros.
"Consigo ver isso." O homem levantou os dedos, empurrando levemente a ponta da barra. "Por que não guardamos isso e conversamos?"
Elspeth manteve-se firme. "Não tenho interesse em conversar com você. Quero seguir meus afazeres em paz."
"E se eu tiver negócios para você?"
"Não estou interessada."
"Ah? Já está alinhada?" Ele a olhou de cima a baixo, o queixo batendo na arma pela qual ele claramente não se sentia ameaçado.
"Não tenho lealdade a ninguém e nenhum interesse em fazê-lo; estou apenas tentando me virar. Então, você me deixará partir?"
Ele suspirou, um tanto dramaticamente. "Tudo bem, embora seja uma pena ver seus talentos desperdiçados."
Ela manteve os olhos fixos nos dele enquanto se afastava. Mas o homem não fez nenhum movimento. Elspeth caminhou de costas em direção à pilha de barras de aço. Ainda nenhum movimento. Ela lentamente devolveu o aço ao seu lugar, muito consciente de que estava entregando sua única arma com um inimigo em potencial ainda diante dela.
Ele colocou as mãos nos bolsos de forma não ameaçadora. Elspeth olhou-o de soslaio ao passar. Ele a deixou ir.
Ela já estava de volta à sombra do prédio quando ele falou novamente.
"Sabe, se você estivesse interessada em 'se virar' um pouco mais facilmente~ há um bom dinheiro no trabalho." Elspeth olhou feio, mas ele continuou de qualquer forma. "Tudo bem, não é motivada por dinheiro. Halo, então?"
Ela parou.
"Ah, é sempre o Halo, não é?"
Elspeth ouvira a palavra Halo mencionada, mas ainda não encontrara nenhuma informação sólida sobre o que era. "O que tem ele?"
"Você poderia conseguir um trago regular, se esse for seu desejo. Podemos não ser os Cabaretti, mas isso não significa que nossos armazéns estejam secos."
"Por que você acha que #emph[eu] o quereria?" Elspeth perguntou cuidadosamente, tentando formular a pergunta para revelar o menos possível. Se o leve estreitamento de seus olhos ou seu olhar tornando-se mais curioso do que conivente ou faminto era algum indício, ela falhara.
"Você não é daqui."
"Claro que sou." Elspeth deu de ombros e continuou caminhando.
Seus passos foram apressados atrás dela. "Não, #emph[não] ~ qualquer pessoa de Nova Capenna sabe exatamente por que quereria Halo. Sempre há uma razão para cobiçá-lo." Ele a olhou com novos olhos. "Você usa as modas de Nova Capenna, mas claramente não é uma de nós."
"Tudo bem!" Ele deve ter visto a expressão dela enquanto acompanhava seu passo rápido. "Todos começamos em algum lugar. Por que não começa com os Maestros? Não temos oportunidade para novos recrutas das ruínas externas com frequência — surpreso que alguém ainda viva lá fora, francamente — e se você tiver curiosidade sobre a história de Nova Capenna, ficará entusiasmada em saber que todos os jovens membros da família começam no museu lá nas Alturas do Parque." O homem parou, estendendo a mão. "Espere, onde estão meus modos? Perdoe-me. Sou Anhelo."
Arte por: Aurore Folny
Elspeth observou a mão dele com cautela. Ela imaginou que apertá-la seria como fazer um acordo — um cujos termos ela ainda não conhecia. Em vez disso, ela a ignorou, continuando a caminhar. Mas disse: "Elspeth."
"Elspeth, #emph[hein] , você está algumas gerações desatualizada para um nome como esse." Ele riu e continuou a segui-la enquanto a rua se abria em uma praça entre edifícios. Uma fonte borbulhava em seu centro. Elspeth diminuiu o passo até parar, olhando para as figuras que coroavam as esculturas da fonte.
"Ah, curiosa sobre isso?" Anhelo riu. "Eles estão por toda a cidade, não estão?"
"Eles?" Ela instigou levemente, vendo o quão disposto ele estava a lhe dar informações. Para sua surpresa e deleite, ele continuou.
"Os anjos." Ele acenou para as duas figuras, travadas em batalha. Uma mulher alada segurava uma espada triunfante sobre um inimigo caído. Mas não fora ela quem atraíra o olhar de Elspeth. Fora a criatura curvada e espinhosa que se estendia para a mulher de pedra com seus dedos esqueléticos em forma de garra e boca aberta. Uma criatura de ângulos agudos e pesadelos. "Há esculturas de anjos por toda a cidade, como se devêssemos reverenciá-los por uma batalha antiga ou algo assim. Mas a única coisa que fizeram que ainda importa foi desaparecer e nos deixar as sobras pelas quais lutar."
Uma batalha antiga. Anjos. Elspeth olhou para a criatura com a qual o anjo estava travado em batalha. Anhelo podia não saber o que era, mas ela certamente sabia.
Um #emph[phyrexiano] .
DOMINÁRIA, ANTES
"Enquanto você estava —" Ajani claramente teve dificuldade com a palavra "morta" e disse, em vez disso, "— #emph[fora] , continuei sua busca por um lar. Eu o encontrei."
"O quê?" Elspeth girou no lugar, seu único foco nele mais uma vez. Seu coração martelava. #emph[Lar.] O lugar que ela deixara quando era criança e nunca fora capaz de encontrar novamente.
"Chama-se Nova Capenna."
"Nova Capenna," ela repetiu como se estivesse experimentando as palavras para ver se se encaixavam na imagem sombria e incerta que tinha em mente sobre o lar. "Por que você não me contou antes?"
"Eu estava mais focado em ver como você estava."
"Isso me deixa excelente. Nova Capenna? Verdadeiramente?"
"Sim, e de acordo com Karn pode haver mais em sua história do que apenas a sua própria," Ajani disse com uma nota pesada. "Há planos para atacar Nova Phyrexia, mas não queremos fazer nenhum movimento antes de estarmos prontos — antes de sabermos que podemos vencer."
"O que Nova Capenna tem a ver com os phyrexianos?" A preocupação ameaçava sufocar sua alegria. Phyrexianos semeavam destruição por onde passavam. Haveria sequer um lar para o qual retornar?
"Há rumores de uma incursão passada lá e, como Nova Capenna ainda está de pé, isso significa que eles derrotaram a ameaça anterior."
"E você quer que eu descubra como," Elspeth presumiu.
"Exatamente." Ajani agarrou o ombro dela enquanto ela se movia para partir. "Antes de ir~ prometa-me que pensará no que eu disse. Sei que esta missão será em parte pessoal, e espero que você encontre o que está procurando — o que você #emph[precisa] — em Nova Capenna. Mas, por favor, lembre-se de que lugar nenhum será verdadeiramente seu lar até que você tenha feito as pazes com seu passado. Você matou um deus, superou a morte, realizou tanto, Elspeth. Se você pode lutar contra tudo isso, então também pode lutar por si mesma e encontrar a segurança que procura dentro de você."
"Vou fazer o meu melhor." Era verdade, e o máximo que ela poderia oferecer a ele agora.
"Eu sei que fará, e tenha cuidado," Ajani puxou-a para perto para um abraço final. "Nunca me faça ver ou ouvir falar de sua morte novamente."
"Eu também gostaria de evitar isso, amigo," Elspeth disse com uma risada suave. A leveza a preenchia pela primeira vez em anos. Ela não olhou para trás ao caminhar entre os planos, rumo ao que esperava ser seu lar.
PRAÇA MEZZIO, DIAS ATUAIS
"Em todo caso. O que você me diz?" Anhelo pressionou novamente. "Bom dinheiro. Quarto e comida. E tudo o que você tem que fazer são alguns trabalhos aqui e ali."
"E o museu dos Maestros tem mais informações sobre esculturas como esta?"
"Mais informações?" Ele riu. "Melhor ainda. A família possui #emph[centenas] de esculturas como esta graças à nossa curadora."
"Tudo bem," Elspeth concordou relutantemente. Ela não queria trabalhar com uma família, mas era um meio necessário para um fim. Ao menos, eles poderiam ter as informações sobre os phyrexianos de que Ajani e as Sentinelas precisavam.
"Você não vai se arrepender." Anhelo envolveu o braço ao redor do ombro dela, guiando-a. "Nós, os Maestros, nos orgulhamos de conhecer Nova Capenna melhor do que ninguém. Se é informação que você quer, isso pode ser dado em abundância."
Sua expressão era presunçosa. Ele achava que encontrara a cenoura que ela seguiria cegamente. E ele estava certo, em parte. Mas Elspeth estava entrando nisso com os olhos bem abertos. Ela não seria usada por forças no poder.
EPÍLOGO — UM QUARTO NOS FUNDOS
O Adversário sentava-se em uma sala espelhada, sua entrada escondida atrás de uma estante de bar. Para entrar no estabelecimento, era necessário conhecer uma batida secreta e um toque mágico. Para entrar nesta sala, era preciso estar disposto a apostar a própria vida.
Arte por: Vincent Proce
Seus leais tenentes e oficiais o cercavam. Meios para um fim, todos eles. Ele os usaria enquanto tivessem fôlego e se mostrassem úteis. Uma luz roxa doentia pairava sobre eles.
"— e é isso que a Fonte verdadeiramente é," disse o de maior patente entre eles.
O Adversário considerou isso e soltou uma gargalhada. #emph[Sério.] A Fonte era #emph[aquilo] ? Patético. Tanto poder, tão maduro para ser colhido, e os Cabaretti estavam praticamente implorando para que fosse roubado.
"Você sabe o que isso significa, não sabe?" ele perguntou, desarrolhando uma garrafa de Halo. Os outros o observavam com olhos famintos enquanto ele servia os copos. "Significa que vamos fazer do Crescendo uma festa e tanto." Ob Nixilis passou os copos para cada um, depois ergueu o seu em um brinde. "Pela tomada do plano."
O sol brilhava nos edifícios de vidro e aço de Nova Capenna, e um par de pássaros verdes e vermelhos perseguia um ao outro pelo ar. Kamiz parou nas sombras enquanto sua aprendiz deu um passo para o sol e ficou boquiaberta.
Arte de: Grady Frederick
"Olhe, Kamiz!" Queza apontou. "Eles são lindos."
Kamiz suspirou. "Erithacus rubecula. São tordos."
"Eles são artistas. Até você consegue apreciar a beleza, não consegue?"
"Eu aprecio fatos, garota."
Os tordos cantavam enquanto Kamiz e Queza entravam na loja de vidente de Tivit, trancando a porta atrás delas. Bolas de cristal flutuantes iluminavam a sala, iluminando o sigilo da Obscura — mão, fechadura e adaga. Kamiz apreciou a demonstração de lealdade.
"Ah, Kamiz: a cefálida braço-direito de Raffine." Tivit caminhou sobre patas pesadas e dobrou suas asas brancas brilhantes. "And Queza! O braço direito do braço direito!"
"Como vão os negócios, Tivit?"
"Ocupados. Passando pelos fundos?"
Kamiz assentiu. "Mantenha a porta trancada." Ela afastou as tapeçarias penduradas que cobriam a entrada do poço de ventilação subterrâneo. Os túneis permitiam que Kamiz passasse por Nova Capenna secretamente — como ela preferia. Uma das vantagens de ser a mestre de espiões de Raffine: interação mínima com as pessoas. Deixe Queza ser sociável, Kamiz não tinha tempo para isso.
"Não podemos ficar para o chá, Kamiz? Eu adoraria que minhas folhas fossem lidas."
"Não."
"Tivit, olhe para o futuro. Alguma chance de Kamiz sorrir algum dia?"
"Perspectiva nada boa, desculpe."
Kamiz bateu o pé. "Queza."
"Ela está brava agora", disse Queza em sussurros teatrais. "As marcas ao redor dos olhos dela pulsam em azul-esverdeado quando ela está brava. Estou indo!"
"Vejo olhares carrancudos e desaprovação silenciosa em seu futuro, Queza", Tivit chamou. "Eu vejo~ não, eu vejo~"
Arte de: Chris Rahn
Tivit jogou a cabeça para trás e gritou. Os cristais flutuantes se estilhaçaram no ar enquanto fumaça azul se retorcia pela sala como um furacão. Kamiz sentiu cheiro de metal no ar, uma tempestade se formando nos cantos. A escuridão sufocou toda a luz, incluindo as marcas bioluminescentes de Kamiz e Queza. O silêncio desceu, pesado e tenso.
As asas abertas de Tivit estalaram com eletricidade. Luz brilhou de seus olhos e boca, derrubando as duas cefálidas para trás. Um coro rugiu da garganta de Tivit. Kamiz lançou uma lente esférica na sala, para gravar. Ela passara tempo demais com Raffine para não reconhecer uma profecia.
"O gatinho escondendo o creme~Corvidae, esvoaçando e bicando~Ouro na água~Escondendo o creme, o gatinho!"
A sala tremeu, Kamiz manteve-se firme. Halos se formaram na luz rodopiante. Ela tentou procurar por Queza, mas o ciclone de poder forçou seus olhos a se fecharem. O som subiu até um crescendo~ então parou.
Vidro quebrado e livros desfiados caíram. A luz do sol entrava pelas janelas modestas de Tivit, e a esfinge vidente desabou.
"Queza?" Kamiz piscou seus olhos lacrimejantes. Sua aprendiz jazia estirada sob uma estante, segurando a cabeça. Kamiz lançou o feitiço de visualização enquanto corria. Hematomas e arranhões brilharam pelo corpo de Queza — nenhum grave.
"Estou bem. Kamiz~ aquilo foi~"
Kamiz chamou a lente esférica de volta à sua mão. "Estou enviando a gravação para Raffine agora."
Queza esfregou a cabeça, encheu uma jarra de água para Tivit e os empurrou para se reidratarem. "Kamiz, eu li todos os relatos das visões de Raffine, desde a fundação. Isso foi exatamente como elas. Isso é grande. Diferente."
Kamiz manteve o rosto inexpressivo. Havia uma explicação. Não havia nada que ela não soubesse, apenas coisas que ela ainda não sabia.
O amuleto de relatório contra sua garganta vibrou: outro vidente relatando uma visão. O amuleto sacudiu novamente. Ele zumbiu e chacoalhou contra sua pele, aquecendo com a fricção, como se a pedra dentro dele fosse rachar. Kamiz atrapalhou-se com o amuleto em sua palma e o pressionou para exibir os relatórios.
Janelas mágicas brilharam em azul diante dela, revelando videntes, adivinhos e áugures dos Altos do Parque. Do Mezzio, da Caldaia. Todos relatando a mesma coisa.
"Halos~Halos~Gatinho escondendo o creme."
"O gatinho escondendo o creme. Ouro~"
"Na água, ouro. Corvidae~Halos, halos~"
"Halos por toda parte~"
"A mesma visão?" Queza sussurrou. Ela segurou um talismã branco-leitoso com um halo dentro. Uma lembrança dos supersticiosos fiéis aos anjos?
"Guarde isso", Kamiz murmurou.
Queza olhou para os relatórios. "O que isso significa?"
O amuleto de convocação no pulso de Kamiz apertou.
"Saberemos em breve." Kamiz endireitou os punhos e caminhou até as tapeçarias do fundo. Raffine a estava chamando para o Pináculo das Nuvens.
Arte de: Chris Rallis
O elevador subiu das profundezas da cidade, através de ruas de vigas, passando por edifícios deslumbrantes e para dentro das nuvens. Kamiz enviou Queza para a sala de mapas do Interfatório para começar a análise. Queza era uma sonhadora, mas também a melhor Exatora na Obscura. Uma ou duas vezes, ela captara detalhes que Kamiz havia deixado passar — nenhum feito pequeno.
As portas do elevador abriram-se como asas de besouro.
Sussurros rodopiavam pelo santuário de Raffine; segredos e esquemas de Nova Capenna. As paredes de vidro permitiam que a poderosa esfinge demônio vigiasse sua cidade, os vitrais acima retratavam sua ascensão ao poder, como ela se juntou aos arcdemônios enquanto os anjos caíam, e como eles aprimoraram suas capacidades visionárias.
Imagens fantasmagóricas de relatórios, crimes e movimentos flutuavam pela sala. A esfinge demônio andava de um lado para o outro, espalhando os sussurros e relatórios em névoa. Toda vez, a presença de Raffine era um golpe nas guelras. Ela era mais velha que a memória, poderosa e misteriosa. Com suas visões infernais, Raffine sabia de tudo.
Kamiz caiu de joelhos.
Como uma tempestade, Raffine abriu suas asas, banindo os relatórios e imagens rodopiantes para os cantos. Sua voz encheu a sala como um trovão.
"Relate."
Kamiz fazia questão de nunca dizer nada a Raffine a menos que tivesse certeza. "Você viu a visão de Tivit. Outros videntes em Nova Capenna a viram ao mesmo tempo. Estamos mapeando-os para identificar um padrão. Os elementos comuns incluem —"
"Não repita o conteúdo de uma visão para uma vidente. Gatinhos espirrando leite, ouro na água, halos, halos, eu vi. Não estou interessada nos detalhes do seu ofício. Eu quero saber quem enviou esta visão!"
Kamiz cerrou a mandíbula para evitar estremecer. Ela disse enviou? As visões de Raffine vinham dos arcdemônios. Quem mais poderia ter enviado uma visão desta magnitude?
"Alguém atacou os visionários de Nova Capenna. Inaceitável."
As implicações atingiram Kamiz em seus estômagos. Ela mesma havia protegido o Pináculo das Nuvens. Se um conjurador conseguira alcançar cada vidente, incluindo Raffine~ significava que suas proteções haviam falhado. Alguém chegou até Raffine, e a culpa era dela.
Kamiz levantou-se. "Eu encontrarei sua resposta."
"Rapidamente." Raffine retirou-se para seus sussurros e sombras. "Faça isso pessoalmente, Kamiz. Pés no pavimento. Minha confiança está em você, apenas. Por enquanto."
Kamiz engoliu o nó na garganta. "Entendido."
Arte de: Johannes Voss
As paredes do Interfatório brilhavam mais do que uma festa Cabaretti. Queza reuniu orbes de informação em suas palmas e os lançou para o mapa. Duas buscas secundárias reuniam dados em um canto, e ela traçava linhas de luz entre áreas desconectadas. Se Queza achava que elas estavam conectadas, valia a pena investigar.
"Cada ponto é um vidente que experimentou uma daquelas visões." Queza apontou para o mapa. "Todos em nossa folha de pagamento, e um bom número que não sabe que está. Mesma visão, mesmo momento. Sem exceções."
"Adicione um ponto ao Pináculo das Nuvens." Kamiz fez uma careta e manteve seu casaco. Ela iria para a cidade investigar em breve. Pés no pavimento. "Raffine me deu o relatório dela. Mesma visão, mesmo momento."
Queza encaixou o relatório no lugar. "Estou pesquisando as imagens da visão: gatinho escondendo o creme, ouro na água. Corvidae, que eu pensei referir-se a corvos, poderia ser qualquer número de pássaros: gralhas, pegas, gralhas-de-nuca-cinzenta, corvos~"
"Corte essa busca", disse Kamiz. "Estamos investigando quem enviou a visão, não o conteúdo da visão."
"~Enviou?"
"Estamos tratando isso como um ataque. Alguém lançou um feitiço ou envenenou as águas visionárias proverbiais."
Queza franziu os lábios e esfregou seu talismã. "Kamiz, estou lhe dizendo, isso é exatamente como as visões de Raffine na fundação. As grandes! Não é —"
"Por que você tem isso?"
Queza olhou para seu talismã. "Você não acredita nos anjos?"
"O que há para acreditar ou desacreditar? Anjos são um fato histórico. Eles existiram. Eles ajudaram a construir Nova Capenna. Eles partiram."
Queza deu de ombros. "Alguns têm fé que eles retornarão. Você não suspeita que há mais nas coisas do que podemos ver, algum poder superior?"
"Nós somos as mestres de espiões da Obscura, Queza. Questionamos tudo e não acreditamos em nada sem provas. Dê isso para mim."
Queza entregou o talismã.
"Raffine diz que é um ataque. Eu sei que você estudou a fundação de Nova Capenna, mas Raffine estava lá. Os pessoas que não a ouviram estão mortas. Esta é a direção que estamos tomando."
As marcas ao longo do pescoço de Queza pulsaram em um violeta profundo. Ela assentiu e virou-se para o mapa. "Entendido."
Kamiz prosseguiu. "Ocorreu algo significativo logo antes da visão atingir?" Ela chamou os relatórios de vigilância aven da pilha no canto e limitou a busca à hora anterior. Ali. Uma explosão no Mezzio.
Queza deu zoom no mapa. "Um armazém abandonado." Ela espalhou um arco de relatórios sobre sua cabeça, escolheu um e lançou os outros para o lado. "Uma pessoa esteve na área esta semana." A imagem aprimorada revelou uma mulher leonina, pelo de pelagem malhada laranja com olhos amarelos pálidos. Ela usava um sobretudo, um fedora elegante e uma expressão suspeita, como se estivesse farejando uma história. Lacey Lanine: repórter.
"Ela trabalha para Denry Klin, no Heraldo de Capenna."
"Parece o gatinho escondendo o creme, chefe", disse Queza. "Lacey e Denry têm um furo secreto sobre algo. Ou criaram seu próprio furo, para superar os outros jornais."
Hmm. Kamiz conhecia repórteres, ela costumava ser uma, antes de encontrar um emprego onde não precisasse falar com as pessoas. Repórteres fariam qualquer coisa para vender jornais. "Teoria plausível, mas —"
"Uma teoria não serve para nada sem evidências. Eu sei."
Boa garota. "Investigue o armazém abandonado."
Queza minimizou os mapas e limpou a sala de segredos. "Chamar Oskar?"
Boa escolha. Kamiz gostava de Oskar — suas caças ao tesouro em latas de lixo e resgates no esgoto revelavam muito sobre as pessoas. Além disso, ele andava com ratos para evitar pessoas. Eles eram almas afins. Ela lançou o feitiço de convocação e trouxe Oskar para a vista, então puxou sua imagem para dentro da sala. Ele piscou para as paredes nuas.
"Como você faz isso, chefe? Parece que estou aqui."
"Parece que você está, também!" Queza passou a mão pelo ombro de Oskar.
"Ilusão básica. Eu sugiro alguns detalhes, sua mente preenche o resto. As pessoas veem o que esperam ver."
Queza e Oskar passaram as mãos um pelo outro novamente e sorriram. "Chapéu novo, Queza?"
"É sim! Estou tentando um novo estilo antes do Crescendo. Você vai?"
"Ao Crescendo? Eu?" Ele se remexeu. "Ei, encontrei mais dois halos de vitral para você. Vou enviar as localizações."
"Ótimo!"
Kamiz limpou a garganta.
"O que houve, chefe?" Oskar limpou o nariz nas costas da mão.
"Um prédio abandonado explodiu esta manhã. O que você sabe?" Ela abriu o mapa.
"Aquele prédio não está abandonado, chefe. Com base no lixo, pessoas estiveram lá dentro por uma semana. E não explodiu. Implodiu."
Ela olhou para Queza. Pés no pavimento. Kamiz recolocou seu chapéu.
"Estou enviando uma equipe de Leitores de Eco para ver o local da implosão. Queza and I will head there soon." She closed the illusion, then handed Queza her coat. "Por que o Oskar está encontrando sinais de halo para você?"
Queza estremeceu. "Eu sou uma Exatora, Kamiz, você me paga para notar as coisas."
Kamiz inclinou a cabeça. "Prossiga."
"Imagens de halos têm surgido na arquitetura. Sem evidência de construção. Estou esperando para ver se um padrão surge. Oskar é meu vigia."
Kamiz grunhiu. Isso é de fato o que ela pagava Queza para fazer. "Muito bem. Questione tudo, siga seus pressentimentos —"
"E verifique com evidências. Eu sei, Kamiz."
"Bom. Vamos encontrar uma repórter."
Arte de: Josh Hass
Denry Klin tentou não pular quando duas agentes da Obscura apareceram em seu escritório.
"Sim, eu falo, não tenho nada a esconder." Denry passou as garras por uma juba bem cuidada. "Lacey Lanine? Não, ela não tinha trabalho por lá. Lacey faz matérias leves para as colunas sociais. Nada importante."
As pontas dos tentáculos de Kamiz formigaram. Se era assim que Denry falava de Lacey, a repórter estaria procurando se provar com algum grande furo. Motivo para atacar os videntes?
"Vou te mostrar, aqui está o último artigo dela. Uma prévia do menu e entretenimentos do Crescendo. Uma linha ou duas de Jinnie Myra e Kitt Kanto, vê? Inofensivo. De qualquer forma, ela não apareceu hoje. Provavelmente saiu com a namorada a noite toda."
"Namorada?" Queza perguntou.
"Uma daquelas Mediadoras certinhas. Lagrita ou algo assim."
"Lagrella?"
"Sim, Lagrella!"
Kamiz e Queza reviraram os olhos juntas. Lagrella, a Pega, era uma tenente dos Mediadores. Se ela andava perto de Lacey Lanine, era porque a estava manipulando. Um empurrão sutil para controlar o Heraldo de Capenna, muito provavelmente.
"Entre em contato conosco quando vir a Lacey", disse Kamiz. "Se não o fizer, nós saberemos."
Denry engoliu em seco. Kamiz e Queza saíram do prédio.
Os Leitores de Eco pararam nos escombros do armazém com os olhos fechados, lendo as pós-imagens espectrais. Kamiz apertou os olhos em meio à poeira suspensa no ar.
"Há uma equipe de quatro pessoas trabalhando na escuridão", os Leitores entoaram em uníssono. "Seus rostos estão sombreados."
"Sombreados?" Queza perguntou.
"Eles estão sob um feitiço", explicou Kamiz.
"Eles lançaram dezenas de feitiços, direcionados a uma garrafa no centro do armazém", continuaram os Leitores. "Cada feitiço falhou, até esta manhã. Algo funcionou, e devorou a sala." Os Leitores de Eco ergueram as cabeças, olhos ainda fechados. "Tudo. O prédio implodiu e então —" Os Leitores protegeram seus olhos espectrais. "Sombra irrompeu da explosão."
Kamiz colocou as mãos nos bolsos. "Vocês veem Lacey Lanine?"
Os Leitores de Eco apontaram para uma rua lateral ao norte. "Ali. Na primeira noite, ela entrou no armazém vinda daquela direção, entregou a eles uma garrafa de Halo e saiu."
"Do Vantoleone", sussurrou Queza. "Onde ela estava escrevendo um artigo sobre o Crescendo. Não saiu com a namorada, hein?"
Kamiz assentiu. Uma pista falsa. "Denry a subestimou. Ela é ambiciosa. Tentou criar sua própria história. Roubou Halo dos Cabaretti e organizou a experimentação. Agora ela vai publicar sua denúncia sobre como todos os videntes em Nova Capenna foram comprometidos."
"Conserto fácil", disse Queza. "Dê o nome dela a um Arruinador. Pela manhã, nenhum jornal tocará em nada escrito por Lacey Lanine."
Kamiz franziu a testa. Isso responderia à pergunta de Raffine. Ela tinha o "quem", mas não o suficiente do "como" e do "porquê". O Halo de fato aprimorava feitiços. Mas o suficiente para cobrir a cidade inteira, até mesmo o Pináculo das Nuvens? Algo não estava batendo.
Ela acessou a rede da Obscura e convocou uma mentalista. "Encontrem Lacey Lanine. Preciso sondar a mente dela."
Seu talismã de relatório sacudiu. O rosto de Oskar apareceu. Ele se afastou para mostrar a figura cambaleando ao lado dele. Lacey.
"Alguém se antecipou a você, chefe. Encontrei-a sentada em uma lata de lixo em estado de estupor. Mente apagada."
A mentalista limpou as palmas das mãos. "Não consigo obter nada. A mente dela está em branco. Quem quer que tenha feito isso foi minucioso."
Kamiz grunhiu. "Leve-a para a enfermaria."
"É pra já, chefe." Ela guiou Lacey para um carro.
Queza e Oskar vasculharam o lixo que Lacey deixou para trás. Ratos corriam da lata de lixo, trazendo oferendas. O beco era familiar, eles estavam logo adiante da loja de Tivit. Kamiz e Queza podem ter passado por ali ainda esta manhã. Significava algo que Lacey estivesse tão perto de Tivit? Improvável. Significava mais que ela estivesse tão longe do local da explosão.
"Estes estão ligados a Lacey." Oskar entregou a Kamiz um bloco de notas, um cartão de visitas e um pergaminho apertado. Todos os três estavam em branco.
Arte de: Leonardo Santanna
"Até as notas dela foram apagadas", disse Queza.
Kamiz suspirou. "Lacey pode ser uma vítima de seu próprio plano. O feitiço infundido com Halo colocou imagens nas mentes dos videntes e apagou a memória dela. Ela sobreviveu à implosão, mas a magia atingiu o cérebro dela à queima-roupa."
Boa teoria, ajustava-se às evidências. Os Leitores de Eco mencionaram que Lacey estava por perto durante a implosão?
A cabeça de Kamiz ergueu-se bruscamente. Vidro estilhaçou-se nas proximidades. Metal chocou-se contra madeira. A loja de Tivit. Kamiz enfiou os retalhos em branco no bolso e disparou. Queza alcançou-a em poucos passos, a franja em forma de adaga de seu casaco tilintando enquanto ela se movia.
Elas abriram caminho entre pedestres gritando em pânico para ver chamas irromperem da loja de Tivit. A varanda acima da entrada da loja cedeu de um lado, a um sopro de desabar no chão. O vitral da fachada choveu na calçada. Uma multidão de curiosos se amontoou para assistir à destruição, retardando o avanço de Kamiz e Queza para a frente. Tivit tremia na entrada, aterrorizado e atordoado. A varanda acima rangeu e soltou faíscas.
"Tivit!" Queza saltou à frente quando a varanda se soltou da parede. Ambos seriam esmagados! Kamiz projetou sua magia à frente, agarrando o pelo espesso de Tivit e o casaco longo de Queza, arrancando-os de baixo da varanda. Ela colidiu com o pavimento. O fogo se espalhou, atraindo mais voyeurs.
Kamiz esforçou-se para ver onde tinha lançado os dois. Tivit levantou a cabeça, mas o casaco de Queza jazia plano e vazio. Ela agarrara o casaco e perdera Queza. Kamiz encarou a varanda em chamas. Nenhum movimento. A multidão obstruía a rua, bloqueando suas tentativas de se aproximar. Clarões de luz sinalizaram a chegada dos Corretores, prontos para oferecer proteção por um preço.
As marcações de Kamiz brilharam em azul-esverdeado. Queza.
Magia reuniu-se em uma tempestade azul ao redor de suas mãos. "Oskar!" ela gritou, mas ele já estava em movimento, retransmitindo ordens para seus ratos. Os roedores surgiram, alimentando-se de seu medo e fúria. O feitiço de Kamiz os ergueu, aprimorou-os, lançou-os sobre a multidão.
Ilusão. A multidão viu ratos voadores gigantes e suas mentes preencheram o resto. Todos se dispersaram, incluindo os magos de contrato dos Corretores. Tivit, sacudindo o choque, invocou água para extinguir as chamas. Kamiz correu para a varanda caída e virou a madeira carbonizada para encontrar sua aprendiz. Oskar vasculhou as cinzas, cortando os dedos em vidro quebrado. "Não, não, não~" ele murmurou.
Nada. Sem Queza. Os três corações de Kamiz pararam dentro de seu peito. Ela falhara com Raffine, e agora com sua aprendiz, sua mão direita, sua—
"Ouf, ai."
Kamiz segurou o fôlego. Uma mão fina emergiu da fresta entre dois prédios. Uma mão com marcações bioluminescentes.
"Queza!" Oskar saltou de pé. Centímetro a centímetro, Queza se derramou para fora da pequena fresta. Ela se sacudiu e deixou seu corpo estalar de volta à forma.
"Sem ossos," Queza abriu um sorriso. "Cefálidas são excelentes em entrar e sair de lugares apertados. Oh!"
Kamiz puxou a jovem para um abraço apertado. Um momento se passou. Queza retribuiu. "Achei que você estivesse morta, garota," Kamiz murmurou.
"Morta não, chefe. Só espremida."
Kamiz limpou a garganta e a soltou. Ela endireitou o colarinho de Queza e a examinou. Ela estava bem. Garota esperta. Manteve a compostura. Ela nunca deveria ter se preocupado.
Oskar balançava de um pé para o outro, desacostumado a falar com não roedores. Queza ajeitou um tentáculo ondulado "Tudo certo, Oskar?"
"Suas membranas interdigitais estão chamuscadas," disse ele.
"As suas estão sangrando," ela respondeu.
Ele deu de ombros. "Vidro."
"É."
Kamiz revirou os olhos. Do outro lado da rua, o exausto Tivit conversava com um homem em um terno risca-de-giz blindado e bem cortado. Ele agitava um pergaminho no rosto de Tivit. Um contrato.
Corretor.
Kamiz abriu seus dedos espalmados e observou o homem através de uma janela de magia. Magia de contrato circulava o pergaminho como correntes. Kamiz colheu vidro espelhado dos escombros e o projetou entre o agente e Tivit. A magia vinculativa refletiu para o agente e falhou. Ele franziu a testa para Kamiz e afastou-se apressado.
Queza arquejou. "Raciocínio rápido, chefe."
"Espelhos expõem as brechas na magia de contrato. Então você pode explorá-las. O agente sabia que estava derrotado. Sempre mantenha um espelho à mão. Tivit? Nunca assine um contrato com um Corretor. Eles são abutres. Veem danos menores à propriedade e te prendem em um esquema de extorsão por proteção."
Tivit eriçou suas penas, indignado. "Fiquei confuso por um momento."
"Quem fez isso?"
"Rebitadores," disse Tivit. "Após a visão desta manhã, tomei uma poção de dormir para acalmar meus nervos. Quando acordei, o novo vitral estava acima da minha porta. Disseram que era trabalho de fura-greve e o destruíram. Ah, minha loja!"
Queza correu para o lado de Tivit. "O vitral apareceu? Como ele era?"
Tivit acenou com a pata, invocando uma imagem. Queza arquejou.
O vitral era um halo.
"Queza," Kamiz começou.
Queza enviou pedidos de relatório para todos os agentes. "Imagens dos edifícios onde ocorreram as visões esta manhã."
Seus talismãs vibraram. Imagens flutuaram ao redor deles como bolhas. Um halo. Outro. Halos, halos.
"Halos, em todo lugar," Queza sussurrou. "É a visão, Kamiz."
"Não vamos investigar~"
Sua empolgação cresceu. "Raffine estava certa," disse ela. "Alguém enviou essas visões. Não foi Lacey Lanine, nem Denry Klin. É uma mensagem dos anjos!"
Kamiz esperou pela piada.
Ela não veio.
"Chega, Queza."
"Mas!"
"Chega!"
Oskar e Tivit congelaram. Queza cerrou o queixo.
"Eu não te ensinei nada?" Seus olhos se estreitaram. "Você não parou um momento para perguntar como ou quando esses halos foram fabricados? Ou considerou entrevistar os vidreiros na Caldaia? Seu primeiro pensamento são contos populares? Sua obsessão por anjos a torna desleixada."
"E quanto a você?" Queza soltou. "Você nem segue suas próprias regras!"
"O quê?"
"Você questionou todo mundo, Kamiz? Sua objetividade desaparece em certas altitudes. Eu tenho coletado evidências. Você está examinando suas suposições? Você está questionando Raffine?"
Nenhum som exceto seus corações batendo forte.
Kamiz endireitou o casaco. "Você está fora deste caso."
Queza expirou como se tivesse levado um soco. "O quê?"
"Entregue-me seus sigilos e talismãs. Você não está pronta para isso. Apresente-se de volta à Biblioteca Kallock para deveres de Exatora."
Queza fulminou-a com o olhar, suas marcações brilharam em roxo e violeta. "Certo." Ela puxou o talismã do pescoço, tirou os braceletes de sigilo dos pulsos e os bateu na palma aberta de Kamiz. Kamiz virou-se para deixá-la saber que fora esquecida.
"Tivit, enviaremos uma equipe para limpar tudo. Oskar, bom trabalho hoje."
"Claro, chefe," Oskar murmurou.
Kamiz fingiu não ver Queza em sua visão periférica, com os punhos cerrados e o queixo travado. Ela estivera errada sobre a garota, como estivera errada sobre as salvaguardas da Pináculo das Nuvens. Queza não era mais problema dela.
Hora de reportar a Raffine.
Kamiz levantou a testa da parede de vidro do elevador e suspirou. Melros voaram passando em um "V" apertado. Ela falou em seu bracelete antes que as portas do elevador se abrissem. "Verifique e reporte para mim."
"Entendido," respondeu o chefe de vigilância aven. Ela encerrou o link e respirou fundo para se acalmar. As portas se abriram. Raffine andava de um lado para o outro como antes. Por um momento ela pareceu~ menor. Diminuída. Enquanto se ajoelhava, Kamiz inspecionou a magnífica arquitetura do santuário. As paredes, as esculturas. O vitral.
Arte por: Sam White
"Levante-se e reporte."
"Nós—eu encontrei o catalisador da visão. Conjuradores usando Halo. Isso os matou e destruiu um edifício." Apagou a mente de uma repórter, ela quase disse, mas fazia questão de nunca dizer nada a Raffine a menos que tivesse certeza. Ela tateou o bloco de notas e o pergaminho em seu bolso. "O Halo foi roubado dos Cabaretti."
"Os conjuradores?"
"Mortos, evaporados. A única testemunha foi uma repórter, Lacey Lanine. A mente dela foi apagada."
Kamiz esperou que Raffine criticasse sua voz passiva, mas a esfinge demônio a ignorou. Ela parecia mais aliviada por haver qualquer explicação.
Kamiz ajoelhou-se novamente, com os braços abertos. "Cometi um erro, chefe. Eu protegi a Pináculo das Nuvens, mas este feitiço passou de alguma forma."
O relatório soou na runa junto ao seu ouvido. "Kamiz? Dei três voltas na Pináculo e comparei com fotogramas anteriores. Tudo está igual. Verificando sua segunda pergunta agora."
Kamiz sentou-se sobre os calcanhares. Raffine parou de andar.
"O quê?"
"Vim aqui para dizer que cometi um erro, chefe. E cometi."
Raffine sacudiu as asas. "Você está perdoada. Reestabeleça as salvaguardas, verifique-as novamente. Isso será tudo."
"Esse não foi o meu erro." As pistas entraram em foco. "Meu erro foi assumir que todo vidente viu a mesma visão. Eles não viram. Todos viram um gatinho escondendo uma tigela de creme. Você disse que eram gatinhos chapinhando no leite."
Raffine interrompeu seu passo. "Escondendo, chapinhando, são a mesma coisa."
"Você não viu a mesma visão." Kamiz levantou-se. "Porque você não viu visão nenhuma."
Raffine empertigou-se como uma tempestade. "Você ousa?"
"Sem halos, chefe." Kamiz apontou para o vitral ao redor da sala. "Nem um único halo aqui na Pináculo das Nuvens. Halos, halos em todo lugar, mas nenhum aqui. É por isso que você está com medo. Pela primeira vez alguém enviou uma visão, e não a enviaram para você."
As asas de Raffine murcharam.
"Chefe?" O segundo relatório chegou ao seu ouvido. "Você estava certa. Ela esteve na lixeira a noite toda. Longe da implosão."
Kamiz olhou Raffine nos olhos. "Temos que lidar com essa visão. Algo grande está vindo, e precisamos proteger a família. Não posso fazer isso se você esconder a verdade de mim." Ela se virou para o elevador.
"Onde você vai?" Raffine exigiu.
"Fazer justiça para uma repórter inocente. Lacey Lanine não estava no prédio quando ele implodiu. O feitiço não apagou a memória dela."
"Onde ela estava?"
Kamiz puxou o pergaminho do bolso. "Fora com sua namorada."
A Fonte Mergino era um oásis calmo no coração da cidade caótica. Lagrella estava entre fileiras ordenadas de arbustos com folhas de palmeira, admirando a arquitetura alada. Ela bateu a ponta do pé na névoa azul-branca que transbordava da fonte. Kamiz saiu das sombras, sozinha, mas pronta.
"Parabéns, Mestra de Espiões," disse ela. "Você me encontrou."
A névoa girava sob os pés. Lagrella, a Pega. Corvidae, esvoaçando e bicando. "Os Corretores são sempre tão desleixados?"
"Perdão?" disse Lagrella.
"Uma janela é riscada, e aparece um Corretor recrutando pessoas para proteção. Um prédio inteiro implode no coração do Mezzio, e nem um único Corretor vem farejar? Você bem que poderia ter assinado seu nome. Assim que encontrei sua namorada, foi basicamente uma confissão."
"Você quer dizer Lacey?" Lagrella girou os anéis pesados em seus dedos. "Não é minha namorada. Se eu pudesse ter roubado os Cabaretti eu mesma, eu o teria feito, mas os Cabaretti não deixam ninguém entrar na cozinha. Exceto repórteres inofensivos para as páginas sociais."
Kamiz sentiu as peças do quebra-cabeça se encaixarem. O gatinho escondendo o creme não era Lacey nem Denry Klin. Eram os Cabaretti. A magia de Lagrella se acumulava ao redor dos tornozelos de Kamiz, escondida na névoa. Ela permaneceu imóvel.
"Infelizmente," continuou Lagrella. "Eu só amo duas coisas. Meu aquário e a Profecia."
Kamiz sabia que ela decorava o aquário com quebradores de contrato, banhados em ouro e prata. Ouro na água. "Profecia?" A magia da Pega dançava ao longo dos pulsos de Kamiz, picando seus tentáculos. Ela manteve o rosto inexpressivo.
Lagrella puxou um pergaminho e uma caneta-tinteiro de seu casaco. "A Profecia está trancada em um cofre abaixo do Santuário Nido. Um demônio previu a destruição de Nova Capenna. Quando o suprimento de Halo da cidade acabar, nós morreremos. Não me importo em te dizer, logo você não se lembrará."
Arte por: Donato Giancola
"Você acredita nisso?"
"A mão direita de Raffine questiona a profecia de um demônio? Descobri algo recentemente. Os Cabaretti descobriram como fabricar Halo. Imagine. Enviei Lacey para me conseguir uma amostra. Você sabe o resto."
A magia apertou-se ao redor dos pulsos de Kamiz. "Eles não concordaram em morrer por você."
"Você se surpreenderia com o que as pessoas concordam quando estão desesperadas." O sorriso de Lagrella desapareceu. "Por exemplo, você vai me contar a visão que abalou os Obscura. Ela veio no momento em que o prédio desabou. Eu sei que você sabe o que eles viram, Kamiz. Diga-me!"
Hmm. Lagrella não conhecia o conteúdo da visão. As imagens eram reais, não fabricadas. Kamiz piscou. Um clarão de luz chamou sua atenção.
Luz de um espelho.
Lagrella não via o que Kamiz via, mas é claro que não. As pessoas veem o que esperam ver.
"Por que se importar que os Cabaretti podem fabricar Halo?"
Lagrella boquiabriu-se. "Como você não entende? Há um anjo em algum lugar de Nova Capenna! Somente anjos podem criar Halo! Estou tentando salvar esta cidade! Abri uma porta e, antes que aqueles magos inúteis falhassem, uma mensagem passou. Você vai me dizer o que seus videntes viram! Assine aqui."
Kamiz arquejou. A magia de Lagrella puxou suas mãos para frente. Uma caneta materializou-se em seus dedos, suspensa acima do contrato de Lagrella. Tinta ameaçava derramar da ponta. Os laços de magia empurravam sua mão em direção ao papel. "Você está me forçando a assinar um contrato? Achei que os Corretores fossem vinculados pela justiça e ética."
"Farei qualquer coisa para salvar Nova Capenna."
"Não~"
"Sim. Vou adicionar você à minha coleção, Kamiz. Prata, eu acho. Assine."
Suor escorria sob seu colarinho. Lagrella intensificou o feitiço, forçando sua mão para o papel. Kamiz puxou a mão de volta, grunhindo, lutando para não entregar sua mente. Ela lutou contra isso, puxou de volta~!
Sua mão atravessou o papel.
"Você pegou tudo isso, Queza?"
Uma voz alegre soou atrás dela. "Peguei, chefe. Profecia do Juízo Final, Halo fresco, anjos. Tudo gravado e enviado para a Pináculo das Nuvens."
Lagrella girou sobre si mesma, procurando pela cefálida escondida. "Kamiz está vinculada! Ela assinou meu contrato!"
"Este contrato?" Kamiz ergueu o pergaminho e a caneta. Eles se dissolveram em névoa.
Lagrella recuou um passo. "O quê?"
"Isto não é real, Corretora. Nem o papel, nem a caneta. Isto nem sequer é a Fonte Mergino. Olhe, os arbustos são idênticos, não é meu melhor trabalho. Você viu o que queria ver. Exatamente como uma pega, distraída por objetos brilhantes."
"Minha magia circula seu pescoço, cefálida."
"Parece que sim, não parece?" Queza entrou na ilusão. "Minha chefe me mostrou um truque mais cedo. Se você consegue ver a brecha, pode explorá-la." Ela ergueu o espelho que trouxera. "Forçar magicamente alguém a assinar um contrato deixa algumas grandes brechas."
A magia que prendia Kamiz desapareceu, uma ilusão de ótica. Lagrella olhou de suas mãos para Kamiz.
"Mude sua perspectiva," disse Kamiz. "Você é quem está na armadilha."
A ilusão de Kamiz caiu de uma vez. A fonte, as plantas e a arquitetura desapareceram. Elas estavam em uma sala vazia e sem janelas. Queza estava diante de Lagrella, usando seu espelho para refletir a magia de volta para ela, prendendo-a como uma teia de aranha. Ela gritou ao ver sua mão, segurando a caneta-tinteiro, suspensa acima de seu próprio contrato mortal.
"Apague sua própria mente com sua assinatura ou anule o contrato de Lacey." Ela puxou o pergaminho do bolso. "Sua escolha."
"Anular um contrato? Nunca!"
Kamiz empurrou a mão de Lagrella em direção ao papel. "É incrível o que as pessoas concordam quando estão desesperadas."
Lagrella mostrou os dentes, sibilou e chutou contra suas restrições mágicas. Um grito furioso rasgou sua garganta, então ela se entregou à derrota. "Certo," ela ferveu. Kamiz substituiu o pergaminho pelo contrato de Lacey, e a assinatura de Lagrella partiu o papel em dois.
"Foi um prazer fazer negócios." Kamiz fingiu uma saudação e sinalizou para Queza em direção à porta.
"Kamiz, você não pode me deixar aqui!" gritou Lagrella. "Eu não consigo me mexer!"
"Sinta-se grata por não ser banhada em ouro, Pega. É a sua magia. Desembarace-a você mesma."
Queza fechou a porta atrás delas.
"Lacey está acordando." Kamiz tocou a runa em seu ouvido. "Memória restaurada."
"Por que você ajudou Lacey?"
Kamiz deu de ombros. "Tenho um ponto fraco por repórteres desafortunados. Já fui uma." Ela pausou. "Eu não esperava que você me desse cobertura."
Queza esfregou o braço. "Oskar percebeu que o pergaminho de Lacey era um contrato de Corretor. Eu liguei os pontos. Segui você até aqui."
Kamiz limpou a garganta. "Você estava certa."
Queza segurou o fôlego.
"Eu verifiquei. Sem halos na Pináculo das Nuvens. Raffine não viu a visão."
"Você verificou?"
"Questionar e verificar. Você estava certa." Ela caminhou em direção às lojas, onde encontrariam uma entrada para o duto de ventilação subterrâneo. "Vamos, garota. Hora de reportar à nossa chefe."
Queza inclinou a cabeça. "Você me demitiu."
"Porque eu não estava ouvindo." Ela encontrou os olhos de Queza. "Você estava olhando para os fatos. Eu deveria ter confiado em sua análise. Você estava certa. E se alguém em Nova Capenna está fabricando seu próprio Halo, e os anjos estão retornando—Raffine precisará que você explique tudo para ela."
Ela tirou o talismã e os sigilos de Queza dos bolsos. Queza os pegou reverentemente.
"Isto também é seu." Kamiz ergueu o talismã de anjo. Ele girava no crepúsculo, o halo rodopiando em seu interior.
Queza deu um sorriso irônico. "Isso significa que você acredita que os anjos retornarão?"
Kamiz riu. "Ridículo. Mas talvez~ talvez eu não saiba de tudo."
Queza sorriu. "Eu aceito isso."
Um par de pássaros de penas azuis perseguia-se em espiral ao redor das colunas de aço. Seu canto ecoava nos vitrais, perfurando até as sombras de Nova Capenna.
"Kamiz?"
"Apenas apreciando a beleza," disse ela. "Vamos lá."
30 de Março de 2022 | Por Elise Kova
O Lado da Liberdade
Profundezas da Caldaia
Isso poderia significar muitas coisas, especialmente vindo de um homem como Tezzeret. Eles haviam lutado em lados opostos durante a Guerra da Centelha e, embora ela nunca o tivesse conhecido pessoalmente, ouvira histórias suficientes para ter uma noção geral do homem.
Tezzeret era conhecido por cuidar de si mesmo acima de tudo, o que significava que havia riscos inatos em segui-lo quando acabavam de se conhecer.
Vivien ajustou o punho em seu arco, segurando-o para manter o equilíbrio enquanto desciam para uma viga inferior suspensa sobre o abismo aparentemente infinito de fumaça vermelha e indústria que era o submundo de Nova Capenna. Tezzeret olhou para trás quando ela pousou levemente atrás dele, silenciosa em comparação com o forte clangor metálico toda vez que ele caía em um degrau inferior. Seu casaco longo escondia a maior parte de seu corpo, mas, dados os ruídos, Vivien suspeitava que uma boa parte dele estava envolta em metal de algum tipo. Ela já estava tentando descobrir o melhor lugar para atirar nele, se chegasse a esse ponto.
Arte de: Jake Murray
"Você quer me dizer para onde está me levando?" À medida que se retiravam até dos confins mais distantes da cidade, mais curiosa Vivien ficava — e mais aguçadamente consciente de quão longe estavam agora de qualquer outra alma. #emph[Poderia ser uma armadilha?]
"Você verá em breve." Ele continuou descendo por uma longa viga, seu cabelo grisalho trançado balançando atrás dele.
"Você é sempre assim tão tagarela?"
"Eu pareço o tipo de pessoa que joga conversa fora?" Não, ele não parecia. "E eu não achei que você fosse também."
"O que você sabe sobre mim?" Ela nem se deu ao trabalho de tentar parecer casual.
"É meu trabalho saber coisas sobre as pessoas, especialmente sobre outros planeswalkers. Por que não dizemos que eu sei o #emph[suficiente]?" E isso era demais.
Ela ainda estava cautelosa, mas não em alerta: apesar de sua brevidade, ela não sentia animosidade ou perigo vindo dele. Seus sentidos foram conquistados com esforço e aprimorados pelo tempo e pela experiência — Vivien confiava em seu instinto e o seguiu mais profundamente no submundo deste estranho e novo plano.
Uma teia de aço de vigas titânicas se fechou ao redor deles, diminuindo o passo. Vergalhões, facilmente quatro vezes mais grossos que sua coxa, cruzavam-se entre eles, cobertos de sujeira e fuligem que se acumularam em montanhas ao longo do que devem ter sido séculos. A luz filtrada tornou-se fraca e enferrujada, lançando tudo em um matiz sinistro.
Arte de: Christian Dimitrov
Eventualmente, os edifícios de metal e seus suportes deram lugar à rocha. A cidade de Nova Capenna tinha um fundo, e parecia que eles finalmente, depois de muito tempo, o haviam alcançado. Tão fundo, havia apenas o sussurro da luz zumbindo através de lâmpadas há muito esquecidas que piscavam como os fantasmas determinados dos antepassados da cidade. As vigas que sustentavam Nova Capenna haviam sido mergulhadas em ruínas e presas por rebites e parafusos ao topo rochoso do que parecia ser algum platô gigante.
Essas ruínas deviam ser a primeira Capenna. Seus dias humildes e iniciais foram enterrados pelo "progresso" que empurrou seu povo em direção aos céus. A maneira como uma parede desmoronara, marcas de garras ainda cavadas na pedra, chamou a atenção de Vivien. Talvez nem tudo tivesse sido progresso. Talvez tivesse sido a recuperação após alguma outra devastação.
Vivien parou na borda de uma viga onde ela encontrava uma pilha de escombros. Ajoelhando-se, ela tocou a terra. Estava compactada, seca e morta.
Fazia muito tempo que as pessoas desta cidade não se conectavam com a terra que ainda se esforçava para sustentá-las.
Tezzeret nada disse e a guiou ainda mais fundo. Por um caminho sinuoso que cortava o próprio platô, ele a conduziu através de despenhadeiros e cavernas. Justo quando toda a luz desapareceu, Tezzeret tirou o casaco e um carmesim floresceu contra as paredes ásperas que os cercavam. O brilho vinha de diante dele — de dentro dele — delineando sua forma em um vermelho sinistro. Deixava sua pele pálida quase do mesmo tom. Vivien tirou uma flecha de sua aljava. Sua névoa verde misturou-se com o vermelhão de Tezzeret quando ele se virou.
"O que é isso?", ela exigiu.
"Uma demonstração de confiança e boa-fé." Ele gesticulou para a fonte da luz em seu peito. Ela escorria entre as fendas nas placas de metal que cobriam seu corpo como bandagens improvisadas, substituindo a carne inteiramente em alguns lugares. O plasma que ocupava o lugar do osso e do tendão era mal contido pelas tiras de metal. "A Ponte Planar."
"É verdade; não foi destruída." Ela apenas ouvira rumores.
Tezzeret sorriu com escárnio. "Vejo que minha reputação me precede."
"Mais do que você imagina." Ela manteve sua flecha engatilhada.
"É inofensiva para você." Tezzeret deu de ombros. "Mas parece bem sinistra, não é, a maneira como brilha?" Ele inspecionou o próprio braço como se fosse de outra pessoa, costurado ao seu corpo. "Ela mudou depois de transportar #emph[eles] através dos planos. Corrompida, talvez... O processo tornou-se bastante desagradável para qualquer um que não seja eu mesmo", ele ponderou.
"Eles?"
Tezzeret voltou ao presente. "Os pretores."
"Quem?" Ela não tinha ouvido o título antes.
"Os líderes da Nova Phyrexia."
Os pequenos pelos na nuca de Vivien se arrepiaram. "Você está trabalhando para a Nova Phyrexia?" Kaya lutara contra um deles em Kaldheim, e a notícia de sua presença em Kamigawa chegara a Vivien. Eles eram um vírus, uma ameaça, e Tezzeret era seu vetor principal.
"Eu estava", disse Tezzeret. "Eu estou. Estou sobrecarregado com o arquiteto da destruição do Multiverso, o único ser que veria toda a vida se curvar e se tornar Phyrexia pela força — Elesh Norn."
A corda do arco estava em sua bochecha em um som metálico, seu braço oposto estendido. Tezzeret teve a audácia de sorrir diante da ponta de sua flecha.
"Tanta hostilidade repentina. Como você fará amigos, Vivien?"
"Não tenho certeza se quero ser amiga de meus inimigos." As palavras foram ásperas. Não havia crime maior contra todo o Multiverso do que ajudar os horrores que Phyrexia estava desencadeando.
"É uma necessidade lamentável."
Ela mordeu a isca. "De que maneira trabalhar com Elesh Norn poderia ser uma 'necessidade'?"
"Eu ainda não tenho o que me foi prometido."
"Nada do que Elesh Norn prometeu a você justifica ou perdoa ocupar, violar ou destruir a vida." O aperto de Vivien apertou ainda mais.
"Concordo plenamente." Essa foi a única coisa que ele poderia ter dito para impedi-la de soltar sua flecha e todo um zoológico de feras com ela. Como se para parecer ainda mais inofensivo, Tezzeret entrelaçou as mãos atrás das costas. Ele estava jogando dos dois lados. A tensão em seus ombros relaxou um pouco. Ele poderia não ser um aliado declarado, mas também não era puramente um inimigo. Ela poderia trabalhar com isso, esperava. "Eu não posso usar devidamente o que Norn me prometeu se a vida como a conhecemos deixar de existir, ou se eu for transformado. Mas eu ainda preciso disso da mesma forma."
"Meu cúmplice não está longe agora; Urabrask poderá lhe dizer mais." Tezzeret deu meio passo para trás. "Receio não ter tempo para explicar tudo. Não posso me dar ao luxo de demorar. Norn vai se perguntar onde estou se eu ficar fora por muito tempo."
Vivien deu um passo completo à frente e exigiu: "Diga-me mais sobre Urabrask?"
"Vou lhe dizer o que você precisa saber: ele não representa uma ameaça para você. Em seu estado atual, você provavelmente poderia matá-lo com suas próprias mãos." Os olhos de Tezzeret brilharam com o mesmo tom da magia que girava dentro dele. "Você vai me matar ou vai prosseguir, Vivien Reid?"
Seu nome na língua dele causou um calafrio em sua espinha. Seus olhos estavam cheios de poder — cheios de conhecimento. Nada nele era digno de confiança. Vivien sabia disso, e ainda assim...
"Continue guiando." Ela chegara até ali. Iria até o fim.
Eles continuaram sua descida pelos túneis. De repente, o espaço abriu-se para uma caverna enorme. Na extremidade oposta estava uma fera ferida, grande mesmo estando encolhida e lutando por cada fôlego que extraía através de seu bico reluzente. Na luz carmesim da Ponte Planar de Tezzeret, o corpo da fera parecia ainda mais brutalizado. Sua carne havia sido queimada de seus componentes inorgânicos com uma precisão horripilante. Vivien podia imaginar que a fera fora imponente, mortal, um dia. Um predador de topo. Uma pontada de piedade percorreu-a por sua magnificência perdida.
"Vivien, conheça Urabrask", disse Tezzeret. "Pretor da Fornalha Silenciosa."
Arte de: Simon Dominic
Apesar do estado de Urabrask, Vivien manteve distância. Em parte para possibilitar uma fuga rápida. Mas também porque seus músculos haviam travado pelo choque. A fera ferida diante dela era um phyrexiano#emph[.]
"Você me traiu", sibilou Urabrask para Tezzeret. Parecia que Vivien não era a única que não confiava em Tezzeret.
"Acalme-se, Urabrask", suspirou Tezzeret. A visão de um homem quase todo de metal balançando a cabeça para um phyrexiano mal vivo, como se este fosse uma criança pequena a ser repreendida, deixou Vivien atordoada com a estranheza absoluta de tudo aquilo. Ela vira muitas coisas maravilhosas e horríveis em suas viagens, mas esta poderia ser a mais estranha. "Muito pelo contrário. Trouxe-nos um novo aliado."
"Eu não prometi nada do tipo." Vivien olhou entre Tezzeret e Urabrask, passando a ponta dos dedos pelas penas de suas flechas. Se tivesse que atirar, atiraria entre eles, enviando lobos espectrais para ambos.
"Você considera a Nova Phyrexia sua inimiga, não é?", disse Tezzeret.
Isso era dizer o mínimo. "Você não é o único que acha que os phyrexianos tomando o controle do Multiverso é uma má ideia, Tezzeret. Na verdade, bem-vindo à opinião majoritária."
"Então estamos todos do mesmo lado. O inimigo do meu inimigo é meu amigo."
"Por que #emph[você] estaria trabalhando contra a Nova Phyrexia?" Vivien focou em Urabrask. Ela podia entender por que Tezzeret, um subordinado, um auxiliar não phyrexiano, poderia trabalhar contra Elesh Norn. Mas um pretor phyrexiano?
Urabrask lutou para se sentar mais ereto, como se tentasse recuperar algo da altura e ferocidade perdidas por qualquer crueldade que tivesse sofrido tão claramente. O que acontecera para ferir um phyrexiano tão gravemente?
"Elesh Norn dominou toda a Nova Phyrexia. Jin-Gitaxias, Vorinclex e muitos dos Thanes Negros prometeram a si mesmos e a suas esferas à sua grande visão. Mas eu não sirvo a ninguém, e aqueles que lidero desejam ser deixados em paz. Não compartilhamos a visão de Norn." As garras de Urabrask arranharam suavemente o chão pedregoso em um movimento que Vivien presumiu ser frustração. "Norn quer que o Multiverso seja uma única singularidade, para que toda a vida seja phyrexiana e todos os phyrexianos estejam sob o comando de Norn. Não consideramos isso progresso. Não entregarei a ela a Fornalha Silenciosa."
Vivien lentamente devolveu sua flecha à aljava enquanto Urabrask falava. Seu bom senso a faria disparar contra eles. #emph[Mate os dois enquanto pode.] Phyrexia era a antítese de tudo o que ela defendia — uma paródia distorcida da fusão de natureza e artifício de seu arco-arca.
Mas... outro instinto dizia o contrário. Ou, talvez, fosse uma curiosidade perigosa florescendo.
Urabrask poderia ser um pretor e estar agindo em benefício próprio, assim como Tezzeret. Mas se Urabrask estivesse dizendo a verdade, então este pretor também era o inimigo de seu inimigo. E, talvez, houvesse uma oportunidade para algo bom aqui. Nunca era demais ter aliados do lado de dentro. Melhor ainda que Urabrask não estivesse interessado em buscar expansão a todo custo.
"Você realmente acha que pode parar Norn?", perguntou Vivien.
"Sim. Liderarei um desafio necessário ao controle de Norn." #emph[Uma revolução, em poucas palavras], pensou Vivien. Ela achou interessante que o phyrexiano não tivesse usado essa expressão.
"Como você vencerá?"
"Talvez eu lhe diga quando souber que se pode confiar em você." Urabrask deslizou lentamente de volta para uma posição curvada, como se sentar-se ereto tivesse se tornado um esforço excessivo.
A ironia de #emph[ela] ser a única dos três considerada não confiável não passou despercebida por Vivien. "Muito bem. Como posso me provar?"
"Você nos fará um favor, é claro", disse Tezzeret. "Estou limitado em onde posso ir e no que posso fazer sem despertar suspeitas. Além disso, Norn ainda exige que eu transporte tropas e pretores phyrexianos; não posso arriscar ficar fora por muito tempo. Assim, não posso ficar com Urabrask durante a recuperação dos danos da jornada até aqui."
"Do que você precisa?", ela perguntou diretamente a Urabrask.
"Tempo para curar e Halo. Este último é uma substância mágica deste plano que preciso estudar. Traga-me Halo, seja paciente, e eu lhe direi como derrubaremos Norn do trono", respondeu Urabrask.
Um acordo simples. Vivien poderia ir embora a qualquer momento com o que já sabia e transmitir as revelações de Urabrask aos outros. Mas se Urabrask não estivesse mentindo, se houvesse mais a saber em troca de um frasco ou dois de Halo...
"Negócio fechado." Vivien virou-se, pronta para começar a longa subida de volta à cidade propriamente dita.
"Mais uma coisa", disse Urabrask, parando-a em seu caminho. "Enquanto você caça o Halo, há outra pessoa de quem preciso. Mesmo que eu tivesse forças para procurá-la, não posso me mover livremente neste plano sem suspeitas."
"Quem?"
"Elspeth, uma da sua espécie. Uma planeswalker. Tezzeret avistou-a na superfície, mas não arriscou se aproximar dela devido ao passado deles."
"Elspeth", repetiu Vivien, guardando o nome na memória. "O que você quer com ela?"
"Norn a teme. Isso é tudo o que sei." E um inimigo de Elesh Norn era alguém que Vivien queria conhecer.
AS RUAS DE NOVA CAPENNA
Dos três níveis de Nova Capenna, o Mezzio era o que Vivien menos gostava.
As profundezas da Caldaia estavam carregadas com a fumaça e o coro da indústria, mas o zumbido constante fazia a cidade parecer viva. Havia um batimento cardíaco. Aqueles eram os ruídos gemidos, angustiantes e exaustos do crescimento — mesmo que fosse do tipo industrial. E, é claro, lá embaixo estava a própria terra, a conexão mais próxima que Nova Capenna tinha com o natural.
Altos do Parque era todo feito de crescimento forçado e natureza cuidadosamente cuidada. Mas havia parques contendo árvores reais dignas de um passeio sempre que ela se sentia ansiosa por algo verde e vivo.
Espremido entre eles, ela poderia ter pensado que o Mezzio encontraria o equilíbrio entre os dois mundos. Mas não tinha nenhum deles. Tinha toda a agitação da Caldaia, mas nada da alma. A indulgência e o consumo excessivo do trabalho alheio reinavam supremos. E todos se moviam rápido demais para parar e apreciar um dente-de-leão brotando, tão determinado quanto a esperança, de uma rachadura na calçada.
Arte de: Sam Burley
No entanto, um benefício de todo esse movimento era que ninguém jamais lhe dava atenção. Ela podia usar suas habilidades de rastreamento e caça para ouvir e ver coisas. Em um momento ela estava presente, e no seguinte havia desaparecido, sem que mais ninguém percebesse. Essa habilidade fora como ela acabara se tornando informante de uma espiã da Obscura.
Vivien encostou-se em uma vitrine fechada em uma seção mais tranquila do Mezzio. Estava movimentado o suficiente para que vadiar não parecesse suspeito. Silencioso o suficiente para que dois pudessem conversar sem levantar a voz.
Passos se aproximaram.
"Flecha", murmurou suavemente uma mulher baixa com pele avermelhada e um chapéu coco azul-marinho assentado sobre madeixas pretas, sedosas e curtas.
"Marinha", respondeu Vivien sem olhar.
Os nomes que usavam uma para a outra eram intencionalmente pouco originais e inspirados em suas roupas, para que não pudessem ser rastreados. Vivien encontrara um casaco marcante em tons de ouro e verde-caçador que contrastava bem com sua pele marrom escura. Ele se abria para revelar uma camisa branca engomada e uma gravata que lembrava a ponta de uma flecha.
"Diga-me algo bom." Marinha encostou-se na grade oposta a Vivien e tirou um pequeno caderno do bolso do peito. Vivien já o vira muitas vezes — um livro de segredos, ela presumira.
"Ouvi muita conversa sobre os Cabaretti movendo a Fonte regularmente." Vivien se interessara inicialmente pela Fonte como uma possível fonte de Halo para Urabrask. Mas os Cabaretti a mantimham vigiada demais para que valesse a pena tentar roubá-la e, além disso, #emph[todos] em Nova Capenna estavam caçando informações sobre a Fonte. O que mantinha o foco deles em outro lugar e tornava mais fácil para Vivien desviar um pouco de Halo aqui e ali, sem ser notada. Felizmente, Urabrask não queria grandes quantidades da substância.
"Com que regularidade?"
"Diariamente."
A mulher cantarolou pensativa. "Mais alguma coisa?"
"Fala-se de um salão administrado pelo Adversário. Ele o usa como sua base de operações." Esse Adversário também chamara a atenção de Vivien logo cedo. A Obscura dizia que governava as sombras, controlando os segredos da cidade. Mas, pelo que Vivien podia notar, era o Adversário quem detinha o controle real.
"Você sabe onde?"
"Ainda não, mas vou descobrir", mentiu Vivien. Ela descobrira absolutamente onde ficava o salão do Adversário. Mas não ia compartilhar #emph[tudo] o que encontrara, apenas o suficiente para obter a informação de que precisava em troca. Envolver-se demais com a família Obscura — ou com #emph[qualquer] família aqui em Nova Capenna — era onde Vivien traçava o limite. Ela era uma visitante e uma espectadora neste plano. Não tinha interesse em mais intromissões.
"Deixe-me saber se descobrir."
"Claro." Vivien afastou-se da vitrine. "Você tem algo para mim?"
"Nenhum caminho sólido para qualquer quantidade substancial de Halo. Eu seria uma mulher rica e poderosa se tivesse esse tipo de informação. Ouvi dizer que um pequeno lugar chamado Sopro do Anjo, no lado oeste baixo da cidade, receberia um reabastecimento dos Cabaretti hoje mais tarde; talvez consiga furtar uma garrafa, se for cuidadosa." Marinha ainda escrevia furiosamente em seu caderno enquanto Vivien se preparava para sair.
"Ah, mas eu consegui uma pista sobre a sua personagem Elspeth." Vivien parou. "Ouvi dizer que tem havido uma mulher aceitando trabalhos estranhos por todo o Mezzio, principalmente na rua principal perto da estação. Parece preferir construção, limpeza ou cozinhas — trabalho manual simples, bicos — nada fixo, e ela se mantém reservada. Difícil de localizar. Eu diria que ela provavelmente é quem você está procurando. Não há muitas pessoas com esse nome por aí. Boa sor—"
Vivien não ouviu o resto. Ela já partira, correndo pelos agora familiares becos e passagens da floresta industrial. Parou em todos os canteiros de obras que conhecia, empresas de limpeza e cozinhas. Justo quando pensou ter perdido a única pista possível que tinha, por mais escassa que fosse, a magia explodiu, seguida por gritos e clamores.
Ela irrompeu em uma artéria principal da cidade. As pessoas se chocavam contra ela, amontoando-se nas bordas da rua enquanto uma mulher corria para um beco lateral, com alguns capangas dos Maestros em seu encalço. Brigas não eram incomuns no Mezzio. Mas a maneira como a mulher se movia... girando, esquivando-se de seus golpes, mantendo-os à distância, mesmo desarmada e em menor número, tudo isso enquanto evitava os cidadãos. A mulher era melhor do que qualquer lutador de rua que Vivien já vira.
Vivien perseguiu. Escalou a lateral de um edifício com a facilidade de quem sobe em uma árvore e empoleirou-se em um telhado mais baixo. Quando teve um ângulo de visão para ver que uma luta começara, a mulher já havia tornado seus atacantes inofensivos.
Ela agora falava com um vampiro de aparência ansiosa. Mas Vivien não conseguia ouvir a conversa do telhado. Virando-se de lado, Vivien sacou uma flecha e atirou em direção ao lado oposto do telhado, onde eles não podiam ver. Um esquilo espectral saltou e prontamente saiu correndo pelas calhas, espreitando fora de vista dos dois. Através da criatura mágica, Vivien podia ouvir as palavras deles como se estivesse bem ao lado.
"— Você ficará animada em saber que todos os jovens membros da família começam no museu lá nos Altos do Parque." O vampiro parou, estendendo a mão. "Espere, onde estão meus modos? Perdoe-me. Sou Anhelo." Vivien ouvira o nome sussurrado e vira o museu — ele fazia parte dos Maestros.
A mulher ignorou o gesto, continuando a caminhar antes de dizer: "Elspeth."
Vivien a encontrara; tinha certeza disso. Mas agora ela tinha uma escolha. Correria direto de volta para Urabrask? Ou primeiro aprenderia mais sobre quem era essa planeswalker?
Urabrask ainda não estava nem perto de estar curado o suficiente para ser transportado por meio da Ponte Planar novamente. O que significava que Vivien ainda estaria esperando e coletando Halo para ele por pelo menos mais algumas semanas. Ela tinha tempo para fazer sua própria avaliação dessa tal Elspeth antes de levá-la ao pretor.
Vivien queria descobrir por si mesma o que tornava Elspeth tão especial.
UM SALÃO SUSPEITO
Vivien ainda não conseguira encontrar um momento com Elspeth. Anhelo a levara direto para o museu dos Maestros depois que Elspeth concordara em se juntar à família — o que Vivien considerou uma decisão curiosa para uma planeswalker. Vivien espreitara o museu, ocultando-se como podia e aproveitando as informações de Marinha para tentar encontrar uma entrada. Mas os Maestros eram bons em manter seus novos recrutas sob vigilância total até serem considerados "prontos" para assumir os negócios da família.
Mas, com sorte, Elspeth finalmente estava pronta, permitindo que Vivien finalmente a pegasse sozinha para uma conversa.
A informação mais recente de Marinha dizia que o Adversário realizaria uma reunião esta noite e um Maestro estaria presente. Ela também insinuara que a Obscura vira recentemente Elspeth em ação para os Maestros. Vivien esperava contra toda esperança que o Maestro desta noite fosse Elspeth — parecia uma missão boa o suficiente para um novo Maestro mostrar a que veio — e ela não conseguia pensar em local melhor para o Adversário se encontrar do que o salão que Vivien descobrira como uma das bases de operações dele.
E se Elspeth não viesse, Vivien poderia pelo menos encontrar algum Halo adicional para Urabrask para estudar. O pretor começara a parecer melhor com o passar das semanas. Mas ainda estava longe de estar bem.
Vivien sentou-se ao balcão, um brilho roxo enjoativo tornando tudo cor de ameixa, inclusive sua bebida. Eles lhe ofereceram Halo — uma demonstração ostensiva de poder tê-lo tão casualmente no cardápio — mas Vivien recusara. Ela experimentara Halo uma vez por curiosidade e para coletar informações e, depois que ele subiu direto à sua cabeça com uma onda de magia selvagem, não precisou de mais. Era uma falsa força que arriscava torná-la excessivamente confiante. Um excesso de confiança levava a erros, e Vivien precisava de seus sentidos aguçados.
Arte de: Scott Murphy
A substância era potente e poderosa, de fato. Ela conseguia ver por que Nova Capenna estava sob seu domínio. Mas ainda não sabia por que Urabrask a queria. Apenas segurá-la parecia fazê-lo estremecer. Ou, bem, ela presumiu que a mudança de expressão fosse um estremecimento. Nem sempre era fácil avaliar suas emoções, dados o bico e os olhos ocos.
Então, Vivien tomava um copo de algo muito menos... empolgante. O homem atrás do balcão olhara-a de soslaio quando ela pedira água. Mas água era uma bebida muito boa, na opinião de Vivien, essencial até.
A porta do salão se abriu e uma jovem entrou. Não Elspeth. Mas a mulher era uma Maestro, sem dúvida — ela tinha os olhos de aço de um vampiro.
Vivien pousou a bebida, praguejando baixinho. Bem, Elspeth não era o Maestro vindo esta noite. Hora de Vivien acionar o plano B.
"Mudei de ideia, mas preciso correr. Poderia me dar um pouco desse Halo para o caminho?", Vivien perguntou ao homem que servia os clientes.
Ele bufou diante da audácia da pergunta. "Todas as bebidas ficam na casa, regras do patrão. Ele gosta de estar onde a festa está."
"Não posso culpá-lo por isso." Ela exibiu um sorriso tímido. O homem riu; não parecia estar muito desconfiado do pedido pouco convencional dela. "Vou aceitar um aqui, então." Ele pegou uma garrafa de Halo e um copo. "O patrão está aqui esta noite?"
"Se você não sabe a resposta, então não é da sua conta." A leveza desapareceu.
Vivien afastou-se do balcão, erguendo as mãos. "Só ouço coisas, é tudo."
"Esta é uma cidade de ouvidos abertos e línguas soltas, se me perguntar. Ocupe a sua com Halo antes que eu tenha que lhe pedir para sair." Ele entregou a ela um copo que girava com um arco-íris vivo.
"Saúde", murmurou Vivien, observando-o atravessar para a extremidade oposta do balcão para falar com outros clientes. Ela se posicionou de modo que suas costas ficassem voltadas para eles, puxando um pequeno frasco da bolsa de couro em seu quadril. Com mão firme e um despejo cuidadoso, Vivien conseguiu contrabandear um pouco do Halo para fora do salão e de volta para Urabrask sem despertar suspeitas. Ela já fizera esse movimento vezes suficientes para que fosse natural.
Foi por causa de seu ângulo que ela viu a Maestro sair pelos fundos. Na fresta rápida da porta, viu um chapéu coco familiar. O que Marinha estava fazendo ali?
Vivien afastou-se do balcão, deixando o restante do Halo para trás. Não podia pegar mais sem parecer suspeita, e seus alarmes internos já soavam altos e claros. Marinha fizera parecer que não tinha ideia sobre este lugar quando Vivien o mencionara. Olhando ao redor e tentando parecer o mais discreta possível, Vivien esgueirou-se pelas sombras e aproximou-se da porta dos fundos, ainda entreaberta.
"— tudo pronto então?", sussurrou Marinha.
"Sim, os Maestros leais ao patrão estarão prontos no Crescendo."
"Bom, ele irá recompensá-lo generosamente por sua assistência. Vou passar adiante o que você me disse." Marinha era uma agente dupla. Vivien se perguntava a quem pertencia sua verdadeira lealdade — à Obscura? Ao Adversário? Ou ela era como Tezzeret e leal apenas a si mesma?
Um movimento à esquerda de Vivien a distraiu. Uma parede dos fundos se abriu, revelando uma porta oculta. Homens e mulheres saíram da sala. Ela ouviu uma risada profunda ecoar de algum lugar nos fundos. O som era vagamente familiar. Ameaçador. Angustiante.
Sua curiosidade teria que esperar. O salão estava enchendo. Olhos demais para notar que ela não se encaixava muito bem ali.
Vivien tomou uma decisão rápida e saiu pela porta dos fundos.
Um ruído agudo de #emph[zunido] fez com que ela se agachasse. Um clarão de prata acompanhou o movimento de uma pessoa avançando contra ela. Então, a reverberação de um #emph[baque] quando o punhal se enterrou na porta onde seu pescoço estivera um instante antes.
Marinha pairava sobre ela, ofegando suavemente, a mão ainda no punhal. Os olhos da mulher estavam arregalados de raiva por ter sido descoberta. Vivien quase podia sentir o cheiro do Halo nela — sem dúvida estava fazendo Marinha se sentir poderosa o suficiente para atacar uma lutadora claramente treinada como Vivien.
"Eu sabia que você viria se eu esperasse o suficiente. Você é tão curiosa sobre o Adversário e os Maestros. Assim que você mencionou este lugar, eu soube que tudo o que eu precisava fazer era esperar."
Vivien alcançou lentamente os cintos presos em sua cintura. Não trousera seu arco e aljava — eles eram conspícuos demais — mas não viera completamente desarmada.
"Por que você está atrás de mim?" Elas certamente não eram amigas, mas Vivien não achava que houvesse qualquer animosidade crescendo entre elas.
"Você está ficando um pouco boa demais no seu trabalho", Marinha soltou o punhal. "E o patrão não gosta de pessoas farejando tão perto de sua porta." Ela desceu o punhal em direção à cabeça de Vivien.
Vivien saltou; com uma das mãos, agarrou Marinha pelo antebraço. Com a outra, sacou seu próprio punhal e, em um movimento fluido, enterrou-o no estômago da mulher. Foi horrivelmente fácil. Marinha não era uma lutadora.
Um barulho metálico ecoou quando a faca de Marinha atingiu o chão; ela amoleceu nos braços de Vivien. Vivien a acomodou no chão e contra a parede do beco.
"Se você tirar esta faca, vai sangrar até morrer", disse Vivien suavemente. "Deixe-a aí e você tem cerca de dez minutos para encontrar ajuda." Ela encontrou os olhos de Marinha e sustentou o olhar. A mulher era mais jovem do que Vivien pensara. Jovem o suficiente para Vivien ver a própria mortalidade despontar nela pela primeira vez. "Vá para a sua Obscura. Diga a eles que os capangas do Adversário fizeram isso; o Adversário #emph[não] é sua família e ele #emph[deixará] você morrer. A escolha é sua."
O corpo de Marinha tremia de dor e choque. Mas ela conseguiu assentir.
Quando Vivien soltou o punhal, notou o caderno que vira ser rabiscado tantas vezes guardado no bolso de Marinha. Sem pensar duas vezes, ela o pegou. O que quer que um membro da Obscura considerasse importante o suficiente para anotar devia ser muito importante para valer o risco.
"O preço da sua vida." Vivien ergueu o caderno. Tudo tinha um equilíbrio. Tudo tinha um custo.
O barulho crescente vindo de dentro do salão fez com que Vivien se pusesse de pé, retirando-se para a noite.
ALTOS DO PARQUE
Ficou mais difícil mover-se livremente após o incidente no salão. As raízes do Adversário penetravam fundo nos corações e mentes do povo de Nova Capenna.
Nenhum de seus refúgios anteriores era tão seguro quanto fora um dia. Ela não conseguia nem aproveitar as árvores de Altos do Parque. Não quando havia inimigos espreitando nas sombras. Mantendo a cabeça baixa, Vivien consultou a nota que tirara do bolso de Marinha.
Arte de: Muhammad Firdaus
Este era o ponto de entrega do Halo, e a bolsa estava esperando exatamente como dizia o memorando. Agora, tudo o que ela precisava fazer era esperar. Ou o Maestro que viria seria Elspeth, ou não seria ninguém, e Vivien poderia tomar a substância à força e desaparecer na noite.
Uma figura emergiu da escuridão, entrando na luz do poste. Vivien reconheceu instantaneamente seu cabelo escuro, pele cáqui, olhos castanhos brilhantes e queixo firme com determinação. Não havia dúvida.
Elspeth.
A noite estava correndo melhor do que Vivien poderia esperar. Ela moveu-se ao mesmo tempo que Elspeth em direção à bolsa, saindo de seu esconderijo em alguns passos longos para agarrar o pulso de Elspeth.
"Eu estava me perguntando quem viria coletar." Vivien manteve a voz baixa. Havia outros no parque, aproximando-se. Não seria bom alertá-los rápido demais.
"Eu esqueci isso mais cedo", disse Elspeth. Ela era uma péssima mentirosa.
"Não minta. Você não parece levar jeito para isso", disse Vivien com um leve sorriso enquanto olhava para a mulher pela primeira vez, de perto, tentando determinar o que havia de tão especial nela apenas pela visão e saindo de mãos vazias. "Você também não parece levar jeito para trabalhar para uma dessas famílias."
Elspeth riu suavemente. "Eu tenho meus motivos."
"Estou tentando aprender mais sobre a história deste plano", admitiu Elspeth.
"Por quê?"
"Pode ser o meu lar." Uma pontada de surpresa — e perda — percorreu Vivien diante do sentimento suave de Elspeth. Um lar perdido. Ela sabia muito bem como era aquela sensação. Elspeth continuou. "Mas, mais importante, acho que uma ameaça está surgindo e estou tentando obter informações sobre ela."
"Com certeza está", disse Vivien. "E compartilhamos motivações." Ela ficou surpresa ao notar que Elspeth não parecia ter a menor pista da presença de Urabrask. Mas, sem encontrar Tezzeret, Vivien também não teria. E Urabrask dissera que Tezzeret evitara se aproximar de Elspeth devido a algum tipo de "história" entre eles. "A propósito, eu sou Vivien."
"Elspeth."
Vivien conteve-se de dizer que já havia guardado o nome de Elspeth na memória há muito tempo. Isso não parecia uma boa maneira de conquistar sua simpatia. "Para quem você está coletando informações?"
Elspeth hesitou.
Vivien estava confiante de que a mulher, como planeswalker, tinha um propósito maior do que ser um peão para uma das famílias em guerra de Nova Capenna. Mas ela claramente também não estava trabalhando para Urabrask. Isso deixava... "Deixe-me adivinhar, as Sentinelas?"
"Ajani me enviou. Você está aqui em nome deles também?"
"Originalmente não. Mas você sabe como essas coisas acontecem. Nós poderíamos ser capazes de —" Vivien virou a cabeça para a direita. Seus olhos se estreitaram levemente. O tempo delas estava acabando. "Os capangas que a seguem estão se aproximando. Devo ir antes que façam perguntas sobre mim." Vivien soltou o pulso de Elspeth. "Mas posso ter algumas informações pertinentes para você sobre essa ameaça."
"Você tem?" Elspeth deu um passo à frente, a voz caindo para um sussurro.
"Tenho uma pista que pode ser interessante. Você poderia vir comigo e —"
"Não posso", disse Elspeth apressadamente. "Tenho a chance de aprender como os capennianos derrotaram a ameaça anteriormente." #emph[Anteriormente?] Que ameaça anterior? As ruínas lá embaixo com as marcas de garras passaram pela mente de Vivien. Havia mais em Nova Capenna do que o que estava na superfície, e segredos raramente permaneciam enterrados por toda a eternidade. "Não posso sair até ter essa informação."
"Muito bem." Elas estavam de fato alinhadas. Além disso, Vivien estava satisfeita por Elspeth parecer uma pessoa genuína digna de confiança. "Vou investigar mais esses assuntos também e entrarei em contato quando tiver mais informações."
"Por que você está me ajudando?", perguntou Elspeth antes que Vivien pudesse partir.
"Antes de se envolver demais nos assuntos deste plano, você deve conhecer todos os detalhes sobre eles", disse ela com um tom grave. Precisava encontrar mais informações por conta própria antes de falar demais. "Até nos encontrarmos novamente."
"Quando?"
"Quando eu tiver algo que valha a pena." Vivien deu um leve aceno. Não ia levar Elspeth para Urabrask ainda. Tinha que ganhar a confiança da mulher primeiro e obter mais informações por conta própria. "Foi um prazer conhecê-la."
Vivien retirou-se para a vegetação rasteira. Ela olhou uma vez para trás, para a mulher, e depois para a mão que usara para agarrar o pulso de Elspeth. Alfinetadas fantasmas picavam a carne de sua palma. Aquela mulher... Ela olhou de volta para o banco e encontrou Elspeth desaparecida.
Havia algo de especial nela, de fato.
AS CAVERNAS SUBTERRÂNEAS DA CALDAIA
"Encontrei Elspeth", anunciou Vivien no momento em que entrou na caverna de Urabrask, nas profundezas abaixo da cidade.
"Encontrou?" Urabrask ficou imóvel. "Por que ela não está com você?"
"Ela ainda não está pronta para partir...", disse Vivien, relatando sua interação com Elspeth para ele.
"Não podemos torná-la 'pronta'?"
"Duvido", disse Vivien claramente. Elspeth não parecia o tipo que se deixava influenciar facilmente quando estava decidida.
"Então esperaremos", disse Urabrask. "Ela é a chave para o nosso sucesso. Não partirei sem ela — sua centelha incendiará tanto o meu povo quanto os mirrianos."
"Esta cidade está quase em seu ponto de ruptura." Vivien sentia o equilíbrio mudando há algum tempo, e os movimentos do Adversário estavam apenas acelerando o processo. "Suspeito que, quando isso acontecer, Elspeth saberá se encontrou o que procurava ou não."
"Então quebre-a mais rápido."
Vivien conteve um riso anasalado. O phyrexiano claramente não pretendia ser cômico. Urabrask falava apenas de uma maneira objetiva que não continha sarcasmo ou leveza.
"Estarei pronta quando Elspeth estiver. Não vamos nos atrasar", disse Vivien com um tom que enfatizava que tudo aquilo ainda era escolha dela. Ela não estava aceitando ordens cegamente de um pretor. "Além disso, sei exatamente onde encontrá-la quando chegar a hora."
O Maestro dissera a Marinha que haveria aqueles que infiltraram o próximo Crescendo, e o caderno de Marinha tinha notas que corroboravam ainda mais a revelação. Ou Elspeth estaria entre eles, o que Vivien duvidava, considerando que ela não parecia o tipo que se aliaria ao Adversário. Ou ela estaria lutando contra eles. Não importa o que acontecesse, Vivien apostaria que Elspeth estaria no Crescendo e que aquele seria o começo do fim de Nova Capenna como ela era.
"O Adversário não será o único a armar armadilhas no próximo Crescendo", prometeu Vivien.
"Aconselho cautela em relação a ele", disse Urabrask. "Tezzeret mencionou que ele também é um planeswalker."
Vivien tinha uma suspeita crescente. "Ele disse quem?"
"O demônio", disse ele de forma pouco útil.
"Demônio? Adorável." Ela pegou seu arco e aljava, já quebrando a cabeça para descobrir quem poderia ser. Aquela risada ainda a assombrava. "Vou precisar disso, então. Quando eu terminar e retornar com Elspeth, finalizaremos exatamente como você ajudará as Sentinelas e como nós ajudaremos você com essa sua revolução."
Urabrask baixou sua cabeça longa. "A Ponte Planar destruirá meu corpo quando eu retornar à Nova Phyrexia. Levei semanas para me recuperar aqui e suspeito que levará o mesmo tempo em meu retorno. Mas o momento está quase certo para eu fazer a jornada."
"Bom." Vivien começou a sair das cavernas, passando as pontas dos dedos pelas penas de suas flechas pensativamente. #emph[Pode realmente haver um caminho para conter a expansão implacável da Nova Phyrexia], parecia quase impossível de imaginar.
Mas, primeiro o mais importante, ela precisava chegar até Elspeth, e o Crescendo seria sua melhor chance... e Vivien nunca errava o alvo.
Arte de: Remi Jacquot
30 de Março de 2022 | Por Elise Kova
Episódio 3: Testes
MUSEU
Inicialmente, o museu tinha sido tudo o que ela esperava. Estava empoleirado no topo de um dos edifícios imponentes de Nova Capenna em Park Heights. Anhelo a tinha levado ao seu "quarto". Um alojamento, mais propriamente, para novos recrutas. Mas ela mal se importou.
Elspeth mantinha-se maioritariamente reservada. Não tinha interesse em privar com os Maestros. Anhelo podia ter dito que ela agora era "parte da família", mas Elspeth nunca se sentiria como tal. As lutas deles eram mesquinhas para ela e os métodos duvidosos. Estes não eram o tipo de pessoas com quem Elspeth queria associar-se.
Mas tudo podia ser tolerado até que ela encontrasse uma forma de deter Phirexia.
A escultura do Phirexiano permanecia no primeiro plano da sua mente enquanto ela realizava as suas tarefas servis no museu. Ela via as suas formas monstruosas em todo o lado. Por vezes, Elspeth não conseguia ter a certeza de que não estava apenas a inventar os seus contornos sombrios surgindo nos planos de fundo de retratos rachados de anjos guerreiros. Mas, precisamente quando a sua dúvida se tornava forte, ela deparava-se com uma pintura como a que segurava agora, de uma figura alada, rezando enquanto mãos com garras se estendiam da umbra.
Elspeth virou a obra de arte e fez algumas anotações no livro de registos ao seu lado com um suspiro. Outro dia de catalogação de arte obtida de forma questionável. Outro dia sentindo que não estava mais perto das respostas de que precisava. Elspeth passou os polegares pelos sulcos da moldura ornamentada. Havia segredos ali, presos nestas relíquias dos dias passados de Nova Capenna. Mas os Capennos que vieram antes esconderam bem os seus rastos, e ela ainda não tinha acesso a informações suficientes para começar a montar este mistério de séculos.
Mas ela tinha quase a certeza de que conhecia alguém que tinha: o curador. O líder dos Maestros não estava a colecionar todas estas relíquias por acaso. Ele sabia algo, e essa teoria era no que Elspeth continuava a apostar o seu tempo com os Maestros.
A porta da sala de catalogação abriu-se. Entrou um vampiro com chifres — Xander, líder dos Maestros. Um homem e uma mulher flanqueavam-no, ouvindo atentamente as suas palavras sussurradas.
Ela tinha conhecido o curador e chefe dos Maestros brevemente quando chegou. Após a introdução via Anhelo, ela apenas o vira de longe. Embora as suas interações tivessem sido limitadas, Elspeth tinha a certeza de que ele sabia algo sobre as verdades de Nova Capenna e os Phirexianos. Por que outra razão ele acumularia tal conhecimento e relíquias?
A atenção de Xander virou-se na direção dela, sem dúvida motivada pelo seu olhar atento. Elspeth não desviou o olhar. Ela tinha mantido a cabeça baixa há semanas, trabalhando arduamente e fazendo o que lhe era dito. Mas ela não ia permitir-se ser esquecida em alguma sala dos fundos, relegada a guarda-livros do museu para sempre.
"Vão," disse Xander ao homem e à mulher ao seu lado, suficientemente alto agora para Elspeth ouvir. "Têm as vossas ordens." Ele então fez-lhe um sinal.
Elspeth teceu caminho através dos caixotes empoeirados, esculturas envoltas em serapilheira e retratos cobertos de musselina para se colocar diante dele. Ela fez uma pequena vénia com a cabeça. O suficiente para ser educada e dar-lhe o devido valor. Mas não o suficiente para ser submissa. Os Maestros valorizavam soldados leais, não lambe-botas.
"Caminhe comigo." Xander bateu com a sua bengala no chão para dar ênfase, os punhos de pele das suas mangas largas cobrindo quase completamente as suas mãos. Ele conduziu-a para fora da sala e para o museu propriamente dito. "Como tem achado a família?"
"Bem o suficiente."
"Não ouço queixas sobre si. O seu trabalho é zeloso, habilidoso e cumpre as expectativas. No entanto, também não há menção de que procure fazer mais."
"Estou aqui para aprender, não para sujar as mãos de sangue," respondeu ela honestamente.
"Mas o preço do conhecimento é muitas vezes encontrado nas veias de outros." Os olhos de Xander brilhavam como o ouro que cobria um dos chifres que emolduravam a sua testa como uma coroa de marfim. Os outros vampiros dos Maestros não tinham essa característica, por isso não era uma peculiaridade da variedade local em Nova Capenna.
Arte de: Dominik Mayer
"Está a dizer que devo matar para obter a informação que procuro?"
"Ainda não." Ele cantarolou para si mesmo. "Enviar alguém para tirar uma vida que não esteja inclinado a isso costuma acabar desastrosamente. Mas eu não sou uma instituição de caridade. Se quer mais do que tem agora, deve trabalhar para isso."
A sua bengala batia contra o mármore, ecoando pelo salão principal do museu. Pilares erguiam-se na forma de anjos que seguravam o teto de vidro nas suas costas. Elspeth imaginou que os próprios alicerces da cidade apareciam assim: Fundadores esquecidos esforçando-se para sustentar um templo ao excesso.
"O que preciso de fazer?"
"Alguns trabalhos." Xander parou. "Mas saiba que escolher isto irá colocá-la no caminho para se tornar um verdadeiro membro da família. Estará nos Maestros para a vida toda. Portanto, pense cuidadosamente se é realmente isso que deseja. Pois, se não for~" ele apontou para a entrada principal do museu. "É bem-vinda a partir agora. Nenhum rancor da nossa parte a perseguirá."
Elspeth olhou entre ele e as portas pesadas do museu. Ela não tinha chegado tão longe para recuar agora. Além disso, se a morte não a conseguira segurar, Xander certamente também não conseguiria. Não importa o que ele dissesse, ela não estava prestes a ser presa em lugar algum.
Ela encontrou os seus olhos. "Estou pronta."
RUAS DO MEZZIO
O pequeno pacote que Elspeth carregava numa bolsa ao seu lado chocalhava suavemente. Ela estava grata por Xander ter dado instruções claras para não o abrir. Ela realmente não queria saber o que estava lá dentro. Tudo o que tinha de fazer era levá-lo do Museu até uma porta específica no Mezzio.
Simples o suficiente.
Elspeth desceu num dos elevadores da cidade a partir da plataforma em frente ao Museu até outro terminal. De lá, continuou a sua descida. Durante todo o tempo, agarrou firmemente a bolsa que continha a encomenda. Mas ninguém lhe prestou atenção.
Ela esperava que houvesse alguma resistência. Mas moveu-se sem esforço pela cidade. #emph[Fora de uma estrada principal, por uma rua lateral, uma curva acentuada à esquerda na bifurcação, através de um beco, entre dois edifícios. . .] Elspeth repetia as instruções de Xander, seguindo-as à risca.
Isso levou-a a uma porta despretensiosa, pintada de um azul marinho profundo, tão escuro que era quase preto na luz suja do beco. No lugar de uma aldrava ou maçaneta estava um pequeno sigilo que parecia uma palma da mão, levemente delineado a carvão, que era apenas um tom mais escuro do que a própria porta. O símbolo era tão subtil que provavelmente passaria despercebido todas as vezes se não se soubesse o que se procurava.
Arte de: Muhammad Firdaus
Elspeth bateu três vezes, e a porta abriu-se para revelar uma jovem mulher. Ela usava um gorro de metal inclinado, cuja aba caída cobria a ponta do seu nariz. Elspeth apenas conseguia distinguir vagamente os seus olhos através da fenda na frente. O cheiro de sândalo e laranja flutuava em fios de fumo pálido que se encaracolavam nos seus ombros.
Sem dizer uma palavra, a mulher estendeu a mão. Elspeth colocou o pacote na sua palma e partiu prontamente.
ESCRITÓRIO DE XANDER
"Ouvi dizer que o pacote foi entregue como prometido. Algum problema pelo caminho?" perguntou Xander no momento em que ela entrou no seu escritório.
Todo o museu era luxuoso, mas empalidecia em comparação com os aposentos privados de Xander. Lustres brilhavam por cima. A sanca era ornamentada com retratos de anjos chorando e demónios rindo. Tudo o que brilhava era ouro.
"Nenhum problema." Elspeth absteve-se de perguntar como ele já sabia que tinha sido entregue. Ela tinha voltado diretamente. Por outro lado, ele tinha os seus meios. E essa informação não era a razão pela qual ela tinha entrado neste acordo. "Agora, sobre a história de Nova Capenna?"
"Suponho que se deva começar pelo início ao discutir estas coisas." Xander levantou-se lentamente, favorecendo ligeiramente o seu joelho esquerdo. Mas não pegou na sua bengala. Ela só o vira usar o auxílio fora dos seus aposentos pessoais. "A nossa querida cidade foi fundada por um acordo improvável, mediado entre arcanjos e lordes demónios."
"Trabalhando juntos?" Elspeth seguiu-o até um retrato pendurado sob um projetor. Com efeito, retratava um anjo alado e um demónio com chifres apertando as mãos.
"O inimigo de um inimigo é um amigo, e isso nunca foi tão verdade como durante a construção de Nova Capenna."
"Quem era o inimigo deles?" Elspeth tinha um palpite.
"Um mistério para o qual ainda procuro respostas." Ele esfregou as têmporas como se estivesse a tentar lembrar-se de algo há muito esquecido, a frustração puxando os seus lábios numa linha. "Mas era uma ameaça grave o suficiente para que os anjos ficassem consumidos com a defesa do plano. Embora os detalhes desse tempo muitas vezes difiram, dependendo de a quem se pergunta." Os olhos de Xander brilhavam. "O conto mais comum é que se tornou claro que os demónios precisavam de se juntar à briga também. Quando o fizeram, os demónios nomearam cinco famílias para assumirem a cidade em seu nome, redigindo um pacto com o chefe de cada família."
Os olhos dela saltaram para os chifres dele. Xander não perdeu o olhar e riu sombriamente.
"Sim, eu sou, de facto, um desses signatários originais e tornei-me voluntariamente parte demónio, para além dos meus outros dons sanguíneos."
"Então o senhor estava lá antes da fundação?" Perguntou ela. "Mas não sabe contra quem estavam a lutar?"
"Foi há tanto tempo que assinei o contrato, o tempo e a magia do pacto distorceram as minhas memórias. Eu também não estive presente nas grandes batalhas que ocorreram~" Xander parou, perdido em pensamentos por um longo minuto. "É parte da razão pela qual procuro a informação agora — para preencher as lacunas escancaradas das minhas memórias que ameaçam engolir-me por inteiro."
Elspeth sentiu pena do vampiro e não insistiu mais no assunto. Em vez disso, adotou uma abordagem diferente, lembrando-se dos sentimentos amargos de Anhelo sobre a partida dos anjos. "Depois de os anjos e demónios desaparecerem, a ameaça desapareceu também? Eles venceram?"
"Ainda estamos aqui, não estamos?"
Isso era obviamente verdade. Mas Elspeth esperava algo mais concreto para levar de volta a Ajani. Xander falou antes que ela pudesse formular outra pergunta.
"Acho que por hoje chega de história." Xander voltou para a sua secretária, ainda esfregando a cabeça com uma mão. "Aguarde as minhas próximas ordens, e falaremos novamente."
ARMAZÉM DO MEZZIO
Elspeth mexeu-se, agitando os dedos dos pés para tentar recuperar a sensibilidade. Eles tinham adormecido nos primeiros trinta minutos, e ela parecia não conseguir recuperar a sensação sem se levantar. Mas fazê-lo revelaria a sua posição, a menos que recuasse da borda. E isso impediria que ela visse os movimentos na rua abaixo, por isso não era uma opção.
Passavam agora alguns minutos da hora marcada, e ainda não havia sinal de quaisquer vampiros Cabaretti —
A porta lacada a verde do cabaré abriu-se, e de lá saiu uma jovem mulher, com a saia balançando ao nível dos joelhos. Ela riu, acenando para as pessoas que ainda estavam lá dentro. Mas no momento em que a porta se fechou, o seu sorriso desapareceu e a sua expressão intensificou-se. Ela caminhou pela rua com determinação.
Esta era a informadora por quem Elspeth estivera à espera.
Elspeth agarrou-se às sombras enquanto seguia a mulher; saltando com pés leves ao longo da decoração ornamentada dos edifícios, mantinha em mente as luzes por cima e como elas poderiam revelar a sua sombra. A informadora parou subitamente, deixando Elspeth agarrada às costas de uma estátua.
A vampira fez uma curva acentuada. Elspeth contraiu os lábios. #emph[Problemas?] Talvez a mulher tivesse visto algo — ou alguém — que precisava de evitar.
Elspeth seguiu-a até um pequeno túnel que atravessava os edifícios e ligava a um grande armazém. "Onde vais?" murmurou Elspeth entre dentes, saltando da estátua para um arco que ligava os dois edifícios. Ela correu rapidamente, agachando-se e mantendo-se perto do telhado. Qualquer pessoa nos edifícios que circundavam este armazém seria capaz de vê-la, e ela não tinha dúvidas de que parecia #emph[muito] suspeita. Precisava de chegar à rua rapidamente para evitar atenções.
Correndo para uma claraboia, Elspeth espreitou para baixo, vislumbrando a sua informadora a passar por um armazém vazio. Sem problemas até agora. Parecia que a mulher se dirigia para uma porta oposta àquela por onde entrara. Elspeth correu para a borda oposta do telhado; uma faixa de beco serpenteava entre dois edifícios com fachadas maioritariamente lisas — nenhum lugar para ela seguir de cima.
No entanto, ao lado havia outro beco~
Elspeth correu para o lado direito do armazém, pisando com cuidado para não alertar a mulher abaixo da sua presença. Com efeito, havia outra rua estreita que corria paralela àquela para onde a informadora se dirigia. Se o que viu estava correto, então ela poderia passar por uma pequena fresta nos edifícios para alcançar a informadora fazendo um desvio à frente.
Ela enfiou-se por frestas na alvenaria. Com um pé e uma mão em cada parede para se apoiar, Elspeth moveu-se com cuidado e rapidez até ao chão, deslizando um lado de cada vez. Estava tão focada em não cair que não ouviu os guinchos e o corrido até que uma sombra violenta se lançou sobre ela da escuridão de uma alcova próxima.
"O que temos aqui?" rosnou a besta, com o focinho peludo perto do nariz dela. "Carne fresca?"
"Larga-me, rato!" Elspeth grunhiu e empurrou a criatura para longe. Na verdade, parecia mais um guaxinim do que um rato. Mas Elspeth não estava disposta a corrigir-se enquanto ele rosnava.
"Não somos ratos, vamos mostrar-lhe, rapazes!" O povo-guaxinim puxou uma adaga do seu lado. O beco era frustrantemente estreito, tornando o combate difícil. Um feito que se tornou ainda mais difícil quando outros três, como o seu primeiro atacante, se lançaram sobre ela.
Arte de: Aaron Miller
Elspeth esquivou-se da lâmina e agarrou a criatura pelo pescoço. "Não tenho tempo para vocês!" ela girou e usou-o como um aríete para derrubar os outros. Para sua surpresa, funcionou. Enquanto eles estavam atordoados, ela aproveitou a oportunidade para se desvencilhar, correndo pelo beco e içando-se por cima de um muro baixo para a fresta nos edifícios que vira anteriormente.
Ela ouviu enquanto vigiava e esperava pela informadora. O povo-guaxinim começava a recompor-se, mas parecia que não tinham visto para onde ela tinha ido. Soltando um suspiro de alívio, Elspeth continuou a afastar-se furtivamente, parando quando a informadora passou, e depois prosseguindo.
Não houve mais incidentes. Elspeth permaneceu fora de vista até à alcova sombreada onde a informadora parou. A vampira bateu à porta e esperou. Houve um clarão de magia, e a porta abriu-se, revelando uma luz púrpura misteriosa.
Elspeth não conseguiu distinguir as palavras que foram trocadas, mas não pareciam hostis, e a mulher foi convidada a entrar.
ESCRITÓRIO DE XANDER
"Preciso de uma arma." Elspeth não mediu as palavras quando entrou no escritório de Xander.
"Porquê, diga-me lá?" Xander estava sentado atrás da sua secretária, como de costume, debruçado sobre tomos empoeirados que Elspeth não vira antes. Ela tinha passado tempo suficiente a catalogar tudo o que entrava e saía do museu dos Maestros para conseguir identificar à vista algo diferente. #emph[Especial.] Era mais uma confirmação de que os seus propalados arquivos estavam nalgum lugar perto do seu escritório. Provavelmente ligados. Esse era o verdadeiro tesouro que ela procurava.
"Já não sabe?" Ela arqueou as sobrancelhas.
"Ao contrário da crença popular, eu não sei tudo o que acontece nesta cidade." Xander ainda nem sequer olhara para ela.
"Poderia ter-me enganado."
"Bom. Isso significa que estou a fazer o meu trabalho corretamente." Ele fechou o livro, finalmente olhando-a nos olhos. "A informadora?"
"Chegou ao seu destino sem problemas. Embora o mesmo não se possa dizer de mim."
"Oh?"
"Fui atacada por povo-guaxinim."
"Nada com que não pudesse lidar, presumo?" Ele arqueou as sobrancelhas.
"Estou bem." Elspeth serviu-se de uma das duas cadeiras em frente à secretária dele. Xander parecia mais divertido do que perturbado pela audácia dela. "Mas posso não ter tanta sorte da próxima vez que algo se lançar sobre mim das sombras. Preciso de algo melhor do que os meus punhos para me proteger."
Ele juntou as pontas dos dedos e observou-a pensativamente. "Receberá uma arma quando tiver ganho uma e for uma oficial entre nós. Até lá, terá de se arranjar." Um sorriso astuto desenhou-se na sua boca. "Talvez possa encontrar mais algum vergalhão e usar isso?"
Elspeth não tinha a certeza se achava o comentário dele divertido ou insultuoso. Escolheu ignorá-lo e, em vez disso, seguiu em frente, dizendo: "Eu cumpri a minha parte do acordo, agora cumpra a sua."
Ele riu, deslizando um pendente ao longo da corrente no seu pescoço. "Isto tem de ser sempre negócios? E eu que estava prestes a oferecer-lhe um digestivo."
Xander levantou uma pequena garrafa e duas taças minúsculas de uma das gavetas da sua secretária. Dentro da garrafa estava uma substância levemente brilhante. No topo, cintilava como a luz do sol. Dourada. Brilhante. Depois descia num redemoinho através de um laranja profundo até um púrpura tão escuro como a meia-noite. A solução parecia como se o cosmos tivesse sido destilado e passado por um crivo, deixando apenas os elementos base da existência para trás numa solução que não era líquida, sólida, nem gasosa — mais como magia pura condensada.
Arte de: Aleksi Briclot
"Isso é~" A voz dela baixara para um sussurro, como se estivesse perante o néctar dos deuses.
"Halo," afirmou Xander. Ele retirou a tampa de cristal, e a garrafa soltou um suspiro cintilante que formou anéis no ar acima dela antes de desaparecer. "Parece uma pena você estar na cidade há tanto tempo sem ter provado."
Ele encheu os dois copos até à borda. Mesmo cheio, era pouco mais do que um gole. Elspeth levou o copo aos lábios, estudando a estranha mistura. Um momento de hesitação. Depois bebeu.
Ela não esperava que fosse quente. Tinha o sabor de tardes longas, preguiçosas e contentes com Daxos. Tinha o sabor de sentimentalismo e de lares que existiam apenas nas suas memórias e imaginação. Consumi-lo não era tanto beber, mas sim #emph[absorver] . O Halo encheu-a de força, de propósito. Os seus músculos já não estavam exaustos e os seus sentidos estavam mais aguçados. Mas o mais impressionante era a onda de magia que corria por ela, exigindo libertação.
"Consigo perceber o seu apelo," admitiu ela, voltando a pousar o copo.
"É o suficiente para os homens lutarem por ele. E lutado temos." Era um facto amargo e trouxe o fantasma de uma carranca ao rosto de Xander. "O Halo foi o último presente dos anjos."
"Por que conceder tal presente?" Uma possível ligação começava a formar-se no fundo da sua mente. Mas ela precisava de mais informações para confirmar.
"Quem sabe? Talvez para que Nova Capenna fosse para sempre uma grande festa." Xander riu e abanou a cabeça, como se ele próprio não conseguisse acreditar nessa explicação.
Elspeth não acreditou nem um pouco. Algo tão poderoso e raro como o Halo não era uma diversão barata. Tinha de ter um propósito. E ela começava a suspeitar que esse propósito poderia ter sido apenas para ajudar a derrotar os Phirexianos.
CENTRAL DE PARK HEIGHTS
O trabalho de hoje era bastante fácil. O frasco de Halo estava quente no bolso do seu peito. Elspeth não sabia dizer se estava quente ou se apenas segurá-lo trazia de volta as sensações de o ter bebido. Ela apenas tinha de o levar a uma das áreas arborizadas de encontro de Park Heights, deixá-lo e partir. Sem perguntas. Sem demoras. Entrar e sair.
Comparado com as outras tarefas que Xander lhe dera, isto era — literalmente — um passeio no parque.
Arte de: Olga Tereshenko
Ainda assim, ela manteve-se atenta a quaisquer potenciais ameaças. Havia alguns caminhantes noturnos, mas nenhum que parecesse particularmente alarmante. Elspeth deu espaço aos outros, escolhendo caminhos mais escuros e isolados que contornavam até ao ponto de entrega.
Com efeito, havia um saco de papel castanho deixado ao pé de um banco de parque como o almoço esquecido de alguém. Ela fez uma varredura rápida nos arbustos e árvores próximos e depois dirigiu-se diretamente para ele.
Uma mão fechou-se em torno do seu pulso quando Elspeth estendeu a mão para o saco.
Os seus olhos subiram pelo braço infrator e encontraram o olhar esmeralda de uma mulher humana. Metade do seu cabelo era preto, a outra metade branca e firmemente entrançada contra o lado da cabeça. Estava tão bem vestida como Xander, embora talvez um pouco mais utilitária na sua moda. Elspeth não perdeu os motivos de ponta de seta nas suas roupas, provavelmente devido ao aljava nas suas costas e ao que parecia ser um arco guardado ao seu lado.
"Estava a perguntar-me quem viria recolher." A sua voz era um contralto frio.
"Esqueci-me disto mais cedo," disse Elspeth. Esta mulher não parecia ser quem deveria recolher o Halo que Elspeth estava a entregar. Algo nela parecia #emph[diferente] dos outros de Nova Capenna. Ela vibrava com uma vivacidade natural ao contrário da maioria.
"Não minta," disse a mulher com um sorriso. "Você não parece feita para isso." Os seus olhos percorreram Elspeth, sem dúvida avaliando as cores dos Maestro. "Também não parece feita para trabalhar para uma destas famílias." As palavras eram mais curiosas do que de julgamento.
Elspeth riu suavemente. "Tenho as minhas razões."
"Tenho a certeza de que sim."
"Estou a tentar aprender mais sobre a história deste plano," admitiu Elspeth, decidindo que tinha mais a ganhar do que a perder ao revelar essa informação. Talvez uma companheira planeswalker pudesse ajudar a sua causa. Ou talvez esta mulher já soubesse algo sobre a história de Nova Capenna.
"Porquê?"
"Pode ser o meu lar," disse ela suavemente. #emph[Pode ser.] Mas provavelmente não era. O lugar que ela construíra como lar na sua mente desde o seu tempo nas masmorras quando era menina provavelmente não existia. Ela estaria para sempre à deriva. "Mas, mais importante, acho que uma ameaça paira e estou a tentar obter informações sobre ela."
"Certamente que sim, e partilhamos motivações. Eu sou Vivien, já agora."
"Elspeth." Ela não viu razão para engano. Elspeth considerava-se sempre uma boa juíza de caráter, e Vivien parecia digna de confiança.
"Para quem estás a recolher informações?" Elspeth debateu a sua resposta durante tempo suficiente para que Vivien dissesse: "Deixa-me adivinhar, as Sentinelas?" Vivien já tinha o interesse de Elspeth, mas agora tinha a sua atenção total.
"Estás aqui em nome deles também?"
"Originalmente, não. Mas sabes como estas coisas acontecem. Poderíamos ser capazes de —" Vivien inclinou a cabeça para a direita. Os seus olhos estreitaram-se ligeiramente. "Os capangas que te seguem estão a aproximar-se."
Não era de admirar que Xander parecesse sempre saber onde ela estava e como as coisas estavam a correr. Ele #emph[iria] enviar pessoas para a seguirem.
"Devo ir antes que façam perguntas sobre mim." Vivien soltou-a. "Mas posso ter algumas informações pertinentes para ti sobre esta ameaça."
"Tens?" Elspeth deu um passo em frente, a voz baixando para um sussurro. Não se atreveu a dizer muito abertamente.
"Tenho uma pista que pode revelar-se interessante. Poderias vir comigo e —"
"Não posso," disse Elspeth apressadamente. "Tenho uma oportunidade de aprender como os Capennos derrotaram —" não se atreveu a dizer "Phirexianos" abertamente "— #emph[a ameaça] anteriormente. Não posso partir até ter essa informação."
"Muito bem." Vivien não insistiu no assunto, pelo que Elspeth ficou grata. Ela precisava de um pouco mais de tempo, não apenas para a missão que Ajani lhe dera, mas também para si mesma. "Vou investigar mais estes assuntos também e contactar-te-ei quando tiver mais informações."
"Por que me estás a ajudar?" Elspeth estivera em Nova Capenna há demasiado tempo. A ideia de um estranho fazer algo por ela por puro altruísmo tornara-se estranha.
"Antes de te envolveres demasiado nos assuntos deste plano, deves ter todos os detalhes sobre eles," disse ela com um tom grave. "Até nos voltarmos a encontrar."
"Quando?" perguntou Elspeth à mulher, sem se atrever a elevar a voz.
"Quando tiver algo que valha a pena." Vivien fez uma pequena vénia com a cabeça. "Foi um prazer conhecer-te."
A folhagem parecia mover-se em torno de Vivien, #emph[por] #emph[ela] , criando um caminho claro através do mato onde antes não existia nenhum. Magia? Ou um truque de como ela se movia — confiante e sem hesitação.
Ela conseguia ouvir agora os movimentos dos homens de Xander no caminho também. Elspeth agachou-se e colocou o frasco de Halo no saco. Mantendo a cabeça baixa, fez o seu caminho de volta para o museu.
ESCRITÓRIO DE XANDER
"Peço desculpa pelo atraso," Elspeth não se deu ao trabalho de fingir ignorá-lo. Especialmente porque ele enviara homens para a seguirem.
"Não há problema." Ele estava diante da janela alta atrás da sua secretária. Elspeth começara a imaginá-lo como uma grande ave de rapina. Tão estoico como uma estátua, mas capaz de fazer chover a morte de cima, caso presas fáceis cruzassem o seu caminho.
"Obrigada por esperar." Ela parou ao seu lado.
"Tenho assuntos importantes para discutir consigo." Ele olhou na direção dela, com um sorriso nos lábios. "E, como já disse, não há problema."
Ela riu suavemente, abanando a cabeça. Talvez nunca compreendesse totalmente este lugar ou as suas pessoas. E certamente duvidava que alguma vez estivesse de acordo com Xander na maioria das coisas. Mas ele nunca fora indelicado e, na melhor das hipóteses, ela via-se a forjar um parentesco improvável com o velho filósofo-assassino. Não, parentesco talvez fosse demasiado generoso~um entendimento, talvez?
"Que assuntos importantes são esses?" perguntou Elspeth, grata por ele não parecer interessado em bisbilhotar a origem do seu atraso.
"O que sabe sobre o Adversário?"
"O nome tem sido mencionado." Ela ouvira sussurrar sobre o indivíduo sombrio no alojamento algumas vezes. Sempre em voz baixa. Como se apenas dizer o seu nome demasiado alto o fosse invocar.
"Ele é uma ameaça à própria estrutura desta cidade." Xander gesticulou para a janela, através do panorama recortado da linha do horizonte, tornado pálido pelo luar. "Há paz em Nova Capenna porque há um equilíbrio — um entendimento — entre as cinco famílias. Temos respeito, confiança e competição cooperativa."
"Cooperativa?" Elspeth arqueou as sobrancelhas.
"Toda a gente opera dentro dos orçamentos de todos os outros, por assim dizer."
Arte de: Dominik Mayer
"Que forma de criar ordem e estrutura."
"Pode não ser a #emph[sua] forma, mas funciona." As mãos de Xander pousaram no topo da sua bengala. "Criámos ordem a partir do caos. Uma estrutura em que as pessoas podem depender e prosperar~e divertirem-se um pouco enquanto o fazem."
"Divertirem-se," mofou Elspeth entre dentes.
Xander ouviu-a. "Sim, #emph[divertirem-se] . Devia tentar desfrutar um pouco desta vida. É emocionante — desde que se esteja no topo."
"Não esperaria sentado," disse Elspeth, impassível.
"Não se preocupe, não estava." Ele sorriu, brevemente, mas a sua expressão tornou-se rapidamente grave mais uma vez. "O Adversário é uma ameaça a tudo. Ele está a estrangular o comércio de Halo e a desestabilizar o equilíbrio que conseguimos manter durante séculos, tornando as pessoas desesperadas. Se o Adversário controlar a maioria do Halo, o resto de nós estará a lutar por migalhas. Isso significará guerra."
"O que quer que eu faça em relação a isso?" Ela foi direta ao assunto.
"Parece-me competente, engenhosa, inteligente e diligente. E, talvez o mais importante, ainda é desconhecida nesta cidade. Não se preocupe, não lhe vou pedir para enfrentar o Adversário. Quero que se infiltre nos Cabaretti."
"O que têm os Cabaretti a ver com isto?"
"Os Cabaretti afirmam ter uma forma de contornar o Adversário — a Fonte, uma forma de eles produzirem Halo ilimitado."
"E quer que eu a roube?"
"Não, claro que não. Quero que descubra se os rumores são verdadeiros e, se forem, diga-me onde a Fonte é guardada e deixe uma porta aberta. Eu encarregar-me-ei de tudo o resto."
"Tem a certeza disto?" perguntou Elspeth, estudando os seus olhos leitosos. "Isso não é uma afronta ao equilíbrio entre as famílias?"
"Se fizer o seu trabalho corretamente e mantiver a sua lealdade aos Maestros em segredo, os Cabaretti não saberão de nada deste desaire. Mas a perceção deles do meu engano é um risco que devo correr. Os tempos mudam, e estes são tempos desesperados. Se eu jogasse apenas pelas velhas regras, morreria com elas. Se a guerra está a chegar, serei eu a atacar primeiro," jurou ele, calmo e mortal. "O que, falando nisso~" Xander pegou numa faca na secretária. Não era bem como as outras que vira os Maestros usar — o seu punho era normal, em vez de um cabo horizontal perpendicular à lâmina. Mas era uma arma fina e funcional. "Isto é seu."
"Uma faca?" Ela aceitou-a.
"Você queria uma, e ganhou-a, como oficial dos meus Maestros."
Embora não estivesse à procura de um lugar nesta família, Elspeth não conseguiu conter uma pequena onda de orgulho com a ideia de um trabalho bem feito. "Obrigada."
"Agradeça-me provando que é digna. Se tiver sucesso, posso presenteá-la com uma lâmina melhor do que essa quando regressar."
"Terei, mas quando eu regressar~"
"Sim?" A determinação dela parecia sempre diverti-lo.
"Não quero outra lâmina; quero acesso aos seus arquivos. Faço este último trabalho para o senhor, e nada mais de dar informações a conta-gotas. Preciso de #emph[tudo] . Há uma ameaça maior lá fora do que o Adversário. Sei que serei capaz de identificar essa ameaça se me der a informação que procuro."
Xander estava tão imóvel como uma estátua. Mas ela conseguia sentir todo o peso da sua avaliação nos seus ombros. Ela perguntou-se se os seus batedores teriam ouvido a conversa dela com Vivien. Se ele sabia que ela levaria a informação a outros.
"Muito bem," disse ele, finalmente. "Faça isto por mim, e todo o conhecimento nos meus arquivos será seu."
"Bom." Elspeth ia sair, mas ele parou-a.
"Oh, ainda não terminámos."
"Perdão?"
O rosto de Xander alargou-se num sorriso divertido. "Não vai entrar em nenhum cabaré Cabaretti vestida #emph[assim] ."
EPÍLOGO – CABARÉ
Elspeth ajustou a capa lateral emplumada no seu ombro direito. Tinha estado a perguntar-se durante todo o caminho para o cabaré quando é que Xander tinha começado a trabalhar naquela roupa. Era impecavelmente cortada, e a placa ajustava-se ao seu peito, ombros e ancas imaculadamente, enquanto complementava as camadas de seda branca por baixo. Mas talvez o elemento mais impressionante fosse a cota de malha de escamas que abraçava as suas pernas, feita para parecer meias de rede. O diadema na sua testa fazia-a sentir-se como uma rainha e dava-lhe a confiança de que precisava para entrar no cabaré que Xander lhe indicara, um local para novos recrutas Cabaretti.
Arte de: Anna Steinbauer
Após uma varredura rápida na sala cheia, Elspeth dirigiu-se diretamente ao bar.
"Halo?" perguntou o elfo atrás do bar, colocando um pequeno guardanapo com o selo Cabaretti à sua frente.
"Não estou aqui para isso. Estou aqui por um emprego," tentou dizer ela casualmente.
"Não posso dizer que tenha empregos em stock aqui, apenas Halo." Eles riram.
Elspeth já estava a estragar a sua tentativa; conseguia senti-lo. Limpou a garganta e tentou uma abordagem diferente. "Sei que o Crescendo está a aproximar-se rapidamente e os Cabaretti devem estar à procura de mãos extras para ajudar. Gostaria muito de trabalhar para a família."
"Acha que #emph[eu] posso tomar essas decisões?" perguntaram eles incrédulos.
"Acho que conhece as pessoas que podem."
"Por que haveria eu de me arriscar por uma estranha qualquer?" O barman virou-se prontamente para uma leonina que chegara à esquerda de Elspeth. "O de costume, pássaro canoro?"
"Conheces-me demasiado bem, Rocco," disse ela sem levantar os olhos da partitura que segurava. Era um prodígio que conseguisse ver as pautas para além dos punhos e gola de penas grossas do seu vestido. "Apenas o suficiente para me acalmar antes de o meu espetáculo começar, não muito, por favor."
"É para já." Passaram um dedal de Halo à música e viraram-se para sair.
"Sobre um emprego —" começou Elspeth, tentando chamar a atenção deles novamente.
Rocco lançou-lhe um olhar que dizia, #emph[Quem pensas que és? ] e afastou-se prontamente.
Elspeth mordeu o lábio, mexendo levemente nas costuras das suas luvas. Tinha sido demasiado direta, não tinha? Demasiado atrevida. Era por isso que ela —
A leonina riu, e demorou um momento para Elspeth perceber que era à custa dela. "Queres assim tanto trabalhar, #emph[hmm] ?" A sua voz era lírica, quase como uma canção.
"Quem pergunta?" Elspeth tentou controlar o nervosismo. Não funcionou.
"Surpreende-me que não me conheças." Ela passou as mãos pelas lantejoulas do seu vestido. "Certamente já deves ter ouvido falar da grande cantora, Kitt Kanto?"
"Peço desculpa, não posso dizer que tenha ouvido." Elspeth perguntou-se imediatamente se deveria ter mentido por causa do ego de Kitt.
Felizmente, Kitt não pareceu muito perturbada. "Então tens uma verdadeira surpresa à espera. Entro em menos de uma hora, por isso não te esqueças de ouvir, menina~?"
"Elspeth."
"Elspeth? A sério?"
"Sim." Elspeth não percebia porque é que o seu nome fazia as orelhas de Kitt estremecerem.
"Agora tens #emph[absolutamente de] vir comigo. Conheço alguém que vai ficar encantado com um nome desses." Kitt tomou a dianteira, e Elspeth seguiu-a relutantemente até uma alcova em forma de concha que revestia as paredes do cabaré, onde outras duas mulheres estavam sentadas.
"Kitt, quem é esta?" A mais velha das duas mulheres arqueou uma única sobrancelha. Um cão enroscado em frente à mesa levantou a cabeça em simultâneo.
"Diz-lhe tu." Kitt deu um empurrãozinho brincalhão a Elspeth antes de se sentar no banco.
"Elspeth."
"Elspeth," repetiu a mulher sentada com diversão. "Nunca conheci uma Elspeth que não estivesse gravada numa lápide. Bem-vinda aos tempos modernos, boneca. Adoro o vestido, ainda bem que não deixaste os fantasmas fazerem uma costura que combine com o nome. Eu sou Jinnie."
Jinnie. O braço direito de Jetmir, o chefe dos Cabaretti. O destino sorrira para Elspeth, ao que parecia.
"Um prazer." O olhar de Elspeth derivou para a jovem mulher à mesa. Parecia mal vestida em comparação com as outras. As suas roupas eram um tamanho acima do seu corpo, como se estivesse a tentar esconder-se dentro delas.
"Esta é a Giada," Jinnie falou pela adolescente enquanto acariciava lentamente o gato que ronronava no seu colo.
"Prazer em conhecer-te, Giada," Elspeth fez questão de falar diretamente com ela. Giada apenas assentiu.
"A Elspeth estava à procura de trabalho, especificamente para ajudar com o Crescendo," disse Kitt. "Ela pareceu-me alguém de quem gostarias. Com um nome como o dela e um sentido de moda assim, poderia ser uma adição valiosa para a equipa de sala."
"Costumas ter melhor faro para estas coisas do que eu própria," admitiu Jinnie. Olhou para Elspeth. "É verdade?" Elspeth assentiu. "Então acho que tenho alguns pequenos trabalhos para ti. Quem sabe, se jogares bem as tuas cartas, poderás estar com os Cabaretti a tempo do Crescendo. Acredita no que te digo, será uma festa que não vais querer perder."
Estes salões familiares, polidos e cuidadosamente curados, eram tão sagrados quanto uma igreja para Xander. Esta noite, na véspera do Crescendo, ele estava determinado a percorrê-los todos uma última vez e saborear seu esplendor. Momentos de paz eram passageiros e, se seus informantes e suposições estivessem corretos, haveria sangue antes da chegada do ano novo.
"Esta é uma das minhas favoritas." Xander fez uma pausa diante de uma estátua de um anjo embalando um bebê. "Toda vez que olho para ela, penso em minha própria mãe." Se ao menos ele conseguisse se lembrar de algo sobre ela.
"É linda." Anhelo o mimou. Xander podia sentir a confusão de seu general enquanto ele o seguia pelo museu. Anhelo verificou seu relógio de bolso. "Meu senhor, se vamos chegar ao Crescendo a tempo, devemos começar a nos preparar para nossa partida."
Xander não se moveu. Em vez disso, continuou a encarar o rosto pacífico da mulher. Teria havido algum tempo em Nova Capenna em que tal paz e tranquilidade realmente existissem? Teria havido algum tempo em #emph[sua] vida?
Ele riu suavemente para si mesmo e murmurou: "Estou ficando amolecido na minha velhice."
"O que foi isso?"
"Nada." Xander cruzou as duas mãos no topo de sua bengala. As garras douradas com que ele adornara seus dedos esta noite tilintaram contra o metal. "Você deve ir ao Crescendo e verificar Elspeth em meu lugar."
De acordo com a última atualização que Xander recebeu dela, ela tinha se saído bem infiltrando-se nos Cabaretti. Mas ainda não havia notícias sobre a Fonte. Ainda assim, ele tinha toda a fé nela. Havia algo único sobre Elspeth. Ele rapidamente percebeu que ela nunca seria #emph[realmente] um membro da família. Havia um ar sobre ela de um propósito maior. Talvez tenha sido por isso que ele finalmente decidiu abrir seus arquivos para ela.
"O senhor não vai comparecer?"
"Este ano não."
"Mas a Fonte—"
"Eu gostaria de ficar aqui", interveio Xander.
"Xander, o que o perturba?" Anhelo descansou a mão levemente no cotovelo de Xander. O toque traía sua profunda preocupação. "O senhor não parece o mesmo esta noite."
"Você se preocupa demais." Xander deu um tapinha na mão de Anhelo. "Você me servirá melhor indo em meu lugar ao Crescendo. Não queremos que os Cabaretti confundam minha ausência com uma desfeita dos Maestros."
"Eles farão isso de qualquer maneira, já que não sou o líder dos Maestros."
"Mas logo algum dia, você será."
"Perdão?"
"Vá. Discutiremos mais sobre esses assuntos após o ano novo", incentivou Xander. Ele nunca havia planejado abertamente a sucessão com Anhelo. Sempre fora assumida, mas de uma maneira distante e remota. Mas não havia mais tempo para se preparar, e Xander só podia esperar que Anhelo estivesse pronto. "Esta noite, você deve ir e se divertir no Crescendo e relatar qualquer acontecimento estranho, isso é uma ordem."
"Tem certeza?"
Xander olhou de volta para a estátua, usando o movimento para olhar pelos cantos dos olhos sem que Anhelo percebesse. #emph[Eles estão perto.] "Tenho muita certeza. Agora, #emph[vá] , Anhelo. Use a porta de recepção para sair." #emph[A porta dos fundos que a maioria não pensa ou conhece.]
"Como desejar." Anhelo inclinou a cabeça e partiu. Xander o observou partir com um suspiro de alívio que não se deu ao trabalho de esconder.
Ele olhou de volta para a estátua enquanto esperava. Encontraria sua mãe novamente quando partisse deste receptáculo mortal há muito ocupado e dolorido? Restaria alma suficiente neste velho vampiro-demônio para que pudesse haver um "depois" para ele?
O movimento encerrou suas reflexões.
Xander virou-se para encarar as sombras vivas na extremidade oposta do salão. Para aquela escuridão, ele perguntou: "Você finalmente veio para me matar, Adversário?"
Art by: Matt Stewart
CRESCENDO
Elspeth estava na pista de dança do Vantoleone com uma bandeja na mão. Jinnie cumprira sua palavra. Após algumas tarefas servis — não muito diferentes dos testes que Xander a fizera passar — ela dera a Elspeth um cargo ajudando no Crescendo.
Como parte da equipe de salão, Elspeth estava bem posicionada para ver e ouvir tudo. Além disso, podia se mover sem ser incomodada. Ninguém prestava atenção em nenhum dos funcionários uniformizados. Eles eram tão sem importância quanto as flâmulas penduradas nos pilares ou os vasos de flores crescidos demais na base de cada um.
Art by: Kasia 'Kafis' Zelińska
Bem, ela não passou #emph[inteiramente] despercebida.
"Elspeth", Jinnie aproximou-se, com sua comitiva habitual de Kitt e Giada flanqueando-a. "Estou feliz por termos nos encontrado. Espero que esteja achando o Crescendo digno do seu esforço?"
"E muito mais." Elspeth forçou um sorriso.
"Espere só, a verdadeira diversão ainda nem começou." Jinnie serviu-se de dois dos pastéis recheados de queijo na bandeja de Elspeth e entregou um a Giada. Como de costume, a adolescente permaneceu em silêncio, seus olhos famintos por algo que sua boca não conseguia preencher.
"Eu já assisti à apresentação de Kitt", disse Elspeth.
"E então? Qual é a sua crítica? Não me poupe detalhes!", Kitt animou-se.
"Foi adorável."
"Isso mal é uma crítica", Kitt resmungou.
"Receio não ser muito versada em música, então não posso dar muito mais do que isso." Elspeth ofereceu um sorriso encorajador para acalmá-la.
"Falando em apresentações, preciso verificar algo para a nossa", disse Jinnie a Giada, depois voltou-se para Kitt. "Poderia usar suas mãos, se não se importar?"
"Para você? Nunca."
"Você se importa de ficar de olho na Giada por um momento?", Jinnie perguntou a Elspeth.
Giada não era #emph[tão] jovem para precisar de um acompanhante constante. Mas Elspeth vira nas últimas semanas como Jinnie mimava e paparicava Giada. Era um relacionamento que Elspeth ainda não conseguira entender completamente. Ela acharia doce e fraternal, se não fosse pelo desconforto perpétuo que emanava da jovem.
"Não é problema nenhum", disse Elspeth.
"Obrigada, você é um amor." Jinnie apertou seu ombro e partiu com Kitt.
"Gostaria de outro?", Elspeth perguntou, estendendo a bandeja para Giada.
"Não, obrigada." #emph[Então, ela ] conseguia#emph[ falar.] "Receio que se comer mais alguma coisa, ficarei enjoada."
"Você não está se sentindo bem?" Elspeth afastou a bandeja.
"Nervosa", admitiu Giada. "Esta apresentação significa muito para Jinnie, para os Cabaretti, para #emph[todos] ."
"Que tipo de apresentação é?" Elspeth tentou parecer casual. Uma pergunta inofensiva, nada mais.
Giada olhou de soslaio. "Você verá em breve."
"Desculpe por isso!" Jinnie retornou prontamente e pegou a mão de Giada. "Você está pronta para mudar o plano?" Giada não teve a chance de responder antes de Jinnie puxá-la para longe.
A apreensão revirou o estômago de Elspeth.#emph[ Algo estava errado.] Cada fibra do seu ser lhe dizia isso. A sensação foi agravada quando ela viu Maestros começarem a se mover atrás de Jinnie e Giada. Ela conhecia o olhar nos olhos pálidos dos vampiros. Eles estavam em busca de sangue.
Elspeth rapidamente se afastou do salão principal e entrou em uma sala nos fundos, onde pousou a bandeja. Alguns dos outros funcionários do salão lançaram-lhe olhares inquisitivos, mas nenhum a impediu enquanto ela corria de volta para o salão principal do Vantoleone.
Giada já estava no palco, Jinnie atrás dela. Quatro homens dos Cabaretti carregavam uma grande garrafa vazia para o palco, trazendo-a diante de Giada. O recipiente era quase tão grande quanto a própria Giada.
"Este ano, os Cabaretti prometeram um Crescendo diferente de qualquer outro. Agora, cumpriremos essa promessa", anunciou Jinnie.
Elspeth buscou a faca que Xander lhe dera, escondida em seu casaco. Era a única arma que possuía e a única coisa que podia esconder no traje que todos os garçons eram obrigados a usar. Elspeth esperava não precisar dela.
Jinnie disse algo para Giada, e a adolescente caminhou em direção à enorme garrafa. Ela respirou fundo, uma expressão de pura determinação dominando-a. Giada tocou-a com as duas mãos.
A luz explodiu.
O salão soltou um suspiro coletivo de surpresa. Como os demais, Elspeth ficou piscando para afastar a névoa azul que a luz cegante deixara para trás. À medida que o palco voltava ao foco, murmúrios percorreram a multidão. Ninguém podia acreditar no que via, inclusive Elspeth.
A garrafa vazia agora estava cheia de Halo. Bolhas douradas minúsculas subiam de um fundo cerúleo até o topo rosado. Correntes mais escuras rodopiavam em seu interior, como o crepúsculo filtrado pela água, e uma névoa distinta nublava o ar ao seu redor, como se o poder condensado ali mal pudesse ser contido por seu invólucro de vidro.
A terrível verdade do que acabara de presenciar começou a despontar para Elspeth. Não havia como a garrafa ter sido trocada. Era massiva demais para isso. Levaria muito mais tempo do que um flash de luz para enchê-la.
"Seus olhos não os enganam." Jinnie respondeu ao ceticismo coletivo do salão assim que conseguiu estabilizar Giada sobre os pés, embora a jovem ainda estivesse cambaleando ligeiramente, visivelmente exausta. "Diante de todos vocês, sem truques ou jogos, criamos Halo do #emph[nada] . Vocês são as primeiras testemunhas de uma nova ordem — uma ordem que não conhece mais limitações e não é mais detida por um suprimento minguante." Ela fez uma pausa para dar ênfase; o salão estava extasiado. Jinnie apontou de volta para Giada. "Eis aqui, a Fonte!"
A multidão explodiu em vivas. Aquelas pessoas viam um recurso, uma ferramenta, uma solução para um problema que as assolava. Tudo o que Elspeth via era uma jovem exausta e prisioneira.
Sua "nova era" viria à custa da vida de Giada.
MUSEU
Sombras agarravam-se ao homem que se aproximava de Xander. Elas pendiam de cada dobra de seu impecável terno risca de giz, de cada adorno martelado da placa blindada que emoldurava seus ombros e peito. Antigos assistentes e aliados que Xander outrora poderia ter considerado como sua própria família corriam ao redor das asas de morcego do Adversário, com armas em punho.
A primeira coisa que ele ofereceu aos vira-casacas em retribuição foi um sorriso amargo. Em seguida, ele lhes ofereceria seus próprios corações.
Os últimos poucos oficiais leais em seu serviço já haviam sido derrubados, sem dúvida. Que se danem as velhas feridas e os ossos doloridos, ele retribuiria o favor na mesma moeda, mesmo que fosse a última coisa que fizesse. Ele se preparara esta noite. Acontecesse o que acontecesse, ele não cairia sem lutar.
O primeiro de seus antigos assassinos atacou.
Xander transferiu todo o seu peso para sua perna boa, jogou uma mão para trás, lançou sua bengala para cima com a outra e a pegou pela extremidade. O aço ressoou contra o aço enquanto ele desviava a adaga do assassino. Os olhos do outro vampiro arregalaram-se de choque.
"#emph[Eu] lhe dei essa adaga", rosnou Xander. "Não pense que lhe dei uma ferramenta que eu não soubesse como superar." Com um giro do pulso, ele se soltou da lâmina e atingiu o pescoço do homem com o cabo de sua bengala, produzindo um estalo satisfatório.
Outro vinha em sua direção. Xander deslizou sua mão para frente na bengala. Ele acionou o polegar e soltou um mecanismo de travamento secreto. O punho da lâmina oculta soltou-se de sua bainha. Xander a agarrou, golpeando o ar e enviando uma nuvem de cinzas pelo salão.
Ele usou a morte como distração, recuando estrategicamente para dentro de seu museu. Outros já o perseguiam. Mas Xander conhecia as passagens melhor do que qualquer um de seu povo. Fora ele quem construíra este lugar. Seu pai. Seu curador.
Nos corredores de acesso estreitos entre as galerias, ele podia evitar ser flanqueado, eliminando-os um a um à medida que vinham até ele. Ele poderia vencê-los em habilidade, mas ainda era um homem velho. Podia tolerar a dor, mas não tinha fôlego para enfrentá-los todos de uma vez.
Xander atravessou o salão principal do museu. Tiros ressoaram e raios de magia perseguiram seus calcanhares, deixando marcas em seus pisos de mármore. A pedreira para esta pedra não estava mais em operação; seu refúgio imaculado nunca mais seria o mesmo depois desta noite.
Ele chegou a uma escada, rangendo os dentes e subindo o mais rápido que podia. Assassinos corriam atrás dele, mas o conhecimento de Xander sobre o museu continuava a render frutos e ele conseguiu manter-se à frente. Ele irrompeu por uma porta, o vento açoitou seu rosto no momento em que ele sentiu o ar puro de Altos do Parque. Sem fôlego, Xander girou e bloqueou a porta para o deque de observação.
Não havia muito espaço na varanda. Destinava-se a ser um pequeno jardim de esculturas, um refúgio para apreciar o esplendor da linha do horizonte entre algumas peças da coleção do museu. Xander caminhou até a borda, recuperando o fôlego.
Asas poderosas bateram atrás dele. Com um estrondo, o Adversário pousou.
"Você realmente achou que poderia escapar de mim?" Sua voz era como cascalho chacoalhando contra o puro ódio. "Para uma varanda!" Ele uivou de rir, puxando o ar para os pulmões para estufar o peito e expandir as asas para dar ênfase.
"Dificilmente." Xander virou-se para encará-lo. "Achei que sem sua ajuda contratada poderíamos ter uma luta justa."
"Eu não jogo limpo."
Xander também não. Ele avançou sem aviso. O Adversário tentou desviar a espada com a mão nua, a boca fixa em um sorriso rosnado de deleite. Xander fingiu, desvencilhou-se por baixo do pulso do Adversário e girou para cravar a ponta bem no ponto macio sob a mandíbula do Adversário — a única carne vulnerável exposta em seu corpo blindado.
But the Adversary was faster. Talvez aprimorado por Halo. Talvez por um mal que era maior do que Xander jamais poderia imaginar.
Xander nunca viu o Adversário levantar a outra mão para apontar para ele.
O #emph[estouro] de magia reverberou por Altos do Parque. Mas a última coisa que Xander ouviu enquanto cambaleava para longe foi o tilintar de sua fiel espada, a ferramenta de sua infâmia, escapando de seus dedos pela última vez. Seu pé encontrou o vazio e ele despencou nas nuvens abaixo.
Art by: Yongjae Choi
CRESCENDO
Os vivas das massas transformaram-se em gritos. Ao redor deles, foliões descartavam as cores e os emblemas de suas famílias e buscavam suas armas. Nenhuma família estava isenta da infiltração do Adversário.
Elspeth sacou a faca que Xander lhe dera e começou a abrir caminho pela multidão. Os Cabaretti no palco deixaram cair a grande garrafa de Halo, a substância preciosa derramando uma cascata de arco-íris ao redor dos pés de Jinnie. O Halo borbulhava como se estivesse fervendo, evaporando em explosões estelares e anéis.
"Jetmir!" gritou Jinnie para a multidão. Giada, esquecida, recuou em direção ao fundo do palco, com as mãos enluvadas cobrindo a boca em estado de choque.
"Jetmir!" Os olhos de Jinnie pousaram em um ponto distante, no meio do salão. Elspeth seguiu seu olhar, vendo o leonin chifrudo que governava os Cabaretti, encurralado e em desvantagem numérica. Jinnie saltou para a briga, com as armas em punho, deixando Giada para trás.
Choque e raiva percorreram Elspeth, e ela canalizou as emoções em um golpe rápido em um suposto atacante, tornando-o inofensivo em um instante. Giada era sua #emph[preciosa] #emph[Fonte] . Ela estava dando sua vida pelos Cabaretti e seu Halo. E para quê? Para ser abandonada. Claro, Jinnie deixara agentes Cabaretti com ela. Mas eles não eram suficientes para lidar com os outros sete que subiam no palco.
Empurrando com os cotovelos, espremendo-se entre as pessoas, saltando sobre corpos, Elspeth abriu caminho pelo sangue e caos até o palco. Ela saltou para a plataforma quando o último dos guardas Cabaretti caiu, transformado em um porta-alfinetes pelos legalistas do Adversário que agora avançavam sobre Giada. Elspeth não perdeu um segundo. Ela atingiu a nuca de um à sua direita com o cabo de sua faca. O homem à sua esquerda tentou golpeá-la, mas Elspeth estava preparada para o movimento e o agarrou pelo pulso, apertando de tal forma que seus dedos ficaram inertes. Ela girou quando o terceiro avançou sobre ela, lançando o homem contra o novo atacante.
"Giada", disse Elspeth calmamente, apesar do caos crescente. Ela ajoelhou-se diante de Giada, olhando em seus olhos escuros, não muito diferentes dos seus. "Você gostaria que eu a tirasse daqui?"
Giada inspirou lentamente, a respiração tremendo no final. "Sim." Ela falou pela primeira vez de uma maneira que soava esperançosa. "Conheço uma porta nos fundos."
Elspeth assentiu e levantou-se, olhando por cima do ombro para seus agressores, que se recuperavam com gemidos. Mais pessoas os notaram no palco e começaram a avançar.
"Por aqui." Giada puxou sua mão e Elspeth a seguiu para a direita do palco. Elas correram por entre os painéis de cortinas verde-floresta e entraram nos bastidores. O veludo pesado abafava seus passos. Mas também escondia aqueles que as perseguiam.
Elspeth aguçou os ouvidos para escutar seus perseguidores. "Abaixe-se!" Elspeth firmou os calcanhares, segurando a mão de Giada.
Ela girou a adolescente em sua direção, envolvendo seus ombros com um braço e levando Giada ao chão com ela enquanto uma lâmina rasgava a cortina à sua direita. Elspeth soltou Giada, levantando-se. A julgar pelo corte, ela podia fazer uma avaliação confiante do porte físico de seu atacante. E quando seu punhal afundou no abdômen de um homem com um gorgolejo, ela soube que estava certa.
Recuando, Elspeth deu um empurrãozinho em Giada. "Continue."
Se Giada estava abalada, não demonstrou. Ela correu para a escuridão com Elspeth logo atrás. Ela imaginou que Giada tivesse visto coisas muito piores durante seu tempo com os Cabaretti. O pensamento encheu-a de uma profunda tristeza.
Giada era apenas uma criança. Como fora sua vida até agora? Elspeth duvidava que tivesse sido algo minimamente bom. Ela reconhecia uma prisão quando via uma, mesmo que não houvesse grades e os carcereiros estivessem vestidos com lantejoulas e ouro.
"Ali", sussurrou Giada, apontando para la esquerda enquanto emergiam das cortinas que pendiam ao longo das coxias. Elspeth a seguiu por entre adereços empilhados e caixas de instrumentos. Mais dois homens as alcançaram, mas Elspeth lidou rapidamente com ambos. Se tivesse tempo, esconderia os corpos para cobrir seu rastro, mas era melhor que continuassem se movendo. Uma vez que estivessem fora, poderiam deslizar para a cidade propriamente dita e se perder entre a população.
Giada resmungou enquanto empurrava uma pesada porta dos bastidores. Elspeth usou o ombro para ajudar. A porta não era usada há algum tempo e rangeu alto ao permitir-lhes acesso a um beco.
Os capangas na outra extremidade avistaram-nas antes que tivessem dado mais de dois passos, sem dúvida alertados de sua presença pelo ruído das dobradiças. Elspeth amaldiçoou a sorte. Se eles ainda estivessem virados para o outro lado, ela poderia ter conseguido pegá-los de surpresa.
Art by: Bud Cook
"Vem vindo mais gente lá de dentro", disse Giada, olhando de volta para o teatro.
"Eu sei, fique perto." Elspeth empunhou sua faca. O que ela não daria por uma lança ou uma espada.
"Parece que temos duas fugitivas", disse um dos guardas.
"O Adversário nos disse que ninguém sairia de lá vivo — sinto muito, moças." O outro estalou os nós dos dedos.
"Devemos chamar reforços?"
"Não, acho que podemos dar conta dessas duas sozinhos."
Elspeth percebeu pelos sorrisos de escárnio que aqueles guardas a subestimavam. "Gostaria de ver vocês tentarem."
Sem aviso, um clarão verde brilhou no ar vindo de algum lugar atrás delas. Carregada de magia e chamas verdes frias, a flecha explodiu com um uivo em um lobo viridiano fantasmagórico. Ele aterrissou nas costas de um de seus primeiros supostos atacantes, derrubando-o no chão. O homem gritou uma obscenidade, tentando se esquivar, mas o lobo espectral enterrou suas garras.
Art by: Olena Richards
"O que—!" Seu companheiro não teve tempo de terminar. Mais dois disparos foram feitos, invocando mais dois lobos.
As feras de tom esverdeado acabaram rapidamente com os dois capangas, seus dentes afiados sendo mais eficazes do que a faca de Elspeth jamais poderia ser. Giada agarrou-se ao lado de Elspeth, meio escondida enquanto as criaturas se voltavam para as duas. Emergindo de sua névoa espectral estava Vivien.
"Eu disse que a encontraria novamente."
"Vivien." Elspeth soltou um suspiro de alívio e depois olhou para Giada. "Vivien é uma aliada; pode-se confiar nela." Elspeth esperava.
A expressão de Vivien tocou brevemente a surpresa, mas ela não contestou as afirmações de Elspeth. "Tenho novidades para você sobre o assunto que discutimos pela última vez. Mas primeiro, vamos para algum lugar seguro."
Elspeth e Giada estavam na metade do beco, quase chegando a Vivien, quando a porta do teatro explodiu atrás delas, lançada de suas dobradiças. O metal ecoou ruidosamente ao parar. Jinnie, Jetmir e um grupo de Cabaretti saíram pela porta enfumaçada.
"Oh, graças aos céus, Elspeth", Jinnie soltou um suspiro de alívio. "Obrigada por manter Giada segura."
Elspeth assentiu cautelosamente, continuando a recuar centímetro a centímetro. Giada seguiu seu exemplo, movendo-se em conjunto com Elspeth. Ela olhou para a adolescente, que lhe devolveu um olhar preocupado.
O mesmo pavor que preenchera Elspeth quando Giada subira ao palco retornou com força.
"Venham, temos uma passagem secreta para sair pelo teatro. Tragam a Giada aqui."
Mas não era escolha de Elspeth.
Elspeth cruzou o olhar com o de Giada, tentando se comunicar sem palavras. #emph[Farei o que você desejar] , pensou ela, mas não disse abertamente. Ela não iria opor-se audaciosamente aos Cabaretti antes de conhecer os desejos de Giada. #emph[O que você quer?]
A mão de Giada deslizou na sua e ela deu um leve puxão, muito parecido com o que fizera quando começaram a fuga.
"Estamos indo para algum lugar seguro. Voltaremos quando as coisas estiverem calmas", gritou Elspeth de volta.
"#emph[Nós ] somos 'algum lugar seguro'." A natureza habitualmente jovial de Jinnie começou a desaparecer. Por baixo estava a mulher que conquistara seu lugar como filha adotiva de Jetmir e seu braço direito. Ninguém subia tão alto em Nova Capenna sem deixar um rastro de sangue para trás.
"É melhor nos separarmos, por enquanto."
"Traga a Giada para mim." Jinnie começou a avançar.
Elspeth apertou com mais força o cabo de sua faca. Ela não queria lutar com Jinnie. A mulher não fora indelicada com ela, mas era também quem transformaria Giada em uma ferramenta. Antes que Elspeth pudesse se decidir — lutar ou fugir — uma flecha verde cruzou o ar sobre suas cabeças.
Ela explodiu em uma fera muito maior do que um lobo. Saindo do fogo viridiano, os anéis de um dragão escamoso preencheram o beco. Duas asas poderosas estendiam-se até o topo dos prédios próximos. Elspeth só conseguia ver as costas do dragão espectral, mas se sua frente fosse metade tão imponente quanto as costas, não haveria como Jinnie chegar até elas.
Elspeth olhou por cima do ombro para Vivien, que baixou seu arco. Flechas de penas verdes fumegavam em sua aljava, iluminando as tranças na lateral de sua cabeça.
"Vamos?" Vivien deu um leve sorriso.
As três correram para a noite.
MUSEU
"Não está tão convencido agora, está?" Ob Nixilis limpou as cinzas das mãos. O poderoso chefe dos Maestros, o infame Xander, #emph[mestre assassino] . Não era mestre de nada agora. Ob Nixilis bufou e cuspiu no corpo mutilado que jazia a seus pés. O vampiro estava irreconhecível após a queda, especialmente depois que Ob Nixilis descarregou algumas de suas frustrações na persistência irritante do vampiro.
"Chefe." Um jovem saiu correndo do prédio, parando bruscamente ao ver a carnificina. Ele era um Maestro. Ob Nixilis desejou poder ouvir o que passava pela cabeça do homem ao ver o corpo mutilado do assassino que ele outrora tanto reverenciava.
"O quê?" exigiu Ob Nixilis.
"Eu~" O jovem engoliu em seco e desviou os olhos dos restos de Xander. "Tenho notícias do Crescendo."
Ob Nixilis percebeu pelo olhar inquieto e pela postura incerta do homem que as notícias não seriam boas. E se ele ia receber más notícias, então iria adoçá-las com um pouco de tormento primeiro, fazendo o garoto suar. "Bom. Conte-me sobre o meu triunfo."
"Todos estavam em seus lugares, como o senhor ordenou. Assumimos rapidamente o controle da situação no Vantoleone."
"Mas?" incentivou Ob Nixilis, permitindo que sua voz fosse perigosamente baixa.
"Mas~" Ele lutou pelas palavras, desmoronando sob o peso do olhar de Ob Nixilis. "A Fonte escapou."
Ob Nixilis agarrou o homem pela garganta e içou-o no ar. Ele balançou como uma boneca de pano, chutando impotente, arranhando instintivamente os protetores de braço que Ob Nixilis usava. "Diga-me, como a Fonte escapou se todos estavam 'onde deveriam estar'?"
"Nós... nós não... havia outra pessoa... não contabilizada", o homem chiou.
Ob Nixilis apertou ligeiramente o aperto e fantasiou brevemente em apertar tão forte que a cabeça do homem saltaria como uma rolha. Mas ele afrouxou o aperto. Ainda precisava desses amadores inúteis para fazer seu trabalho sujo. O homem caiu no chão, agarrando o pescoço já ficando roxo, arquejando por ar.
Ob Nixilis olhou de volta para os restos de Xander. Ele fez uma careta, mas não pela carnificina que causara. Não~ele estava desgostoso consigo mesmo. Ele deixara algo passar. Mesmo do além-túmulo, Xander o enganara.
"Não importa", rosnou ele. "Vou encontrá-la, mesmo que tenha de queimar esta cidade até o chão."
"Chefe, os Cabaretti estão praticamente neutralizados —" Outros quatro oficiais saíram correndo do museu, parando a alguns passos de seu amigo arquejante. "Vemos que o senhor já sabe."
"Sim, fui informado do seu #emph[fracasso] ." Ob Nixilis forçou as palavras por entre dentes cerrados tão firmemente que sua mandíbula estalou. "Os Maestros estão sob controle. E quanto aos outros?"
"Jetmir escapou, mas foi gravemente ferido. Os Cabaretti desmoronarão assim que ele vacilar — e garantiremos que ele vacile", relatou um deles.
"Os Corretores e a Obscura rastejaram para seus buracos e sombras, embora nós também os persigamos. Os Arremessadores estão completamente comprometidos. A luta é intensa na Caldaia; teremos a situação sob nosso controle em breve."
Ob Nixilis estalou os nós dos dedos e girou a cabeça. "Quero a cabeça das famílias. De #emph[todas] elas. Traga-me cada uma delas, presa ao pescoço ou não."
"E a Fonte?" perguntou o único de seus generais que ainda tinha coragem de falar.
"Dois de vocês — liderem a caçada por Jetmir e Jinnie. Se alguém souber como rastrear a Fonte, serão eles. Os outros dois, formem grupos de busca próprios pela Fonte. E #emph[quando] a encontrarem, tragam-na para mim, e suas taças nunca estarão vazias e suas famílias não terão falta de nada."
RUAS DE NOVA CAPENNA
A cidade estava em chamas. As famílias estavam em guerra.
Art by: Nestor Ossandon Leal
Elspeth, Vivien e Giada fugiram pelas ruas, correndo por escadas de ferro e telhados enquanto atravessavam o Mezzio.
"Nunca deixa de me espantar a rapidez com que as coisas saem do controle quando o equilíbrio é perturbado", avaliou Vivien enquanto recuperavam o fôlego.
"Para onde estamos indo?" perguntou Giada.
Elspeth quebrou a cabeça. Os primeiros lugares em que ela se escondera ao chegar agora estavam queimando. Os Maestros também não eram uma opção.
"Tenho uma ideia." Elspeth lembrou-se de sua segunda missão para Xander. "Há um armazém não muito longe daqui — está abandonado. #emph[Pode] ser seguro."
"Não tenho certeza por que você se incomoda", disse Vivien em voz baixa para que apenas Elspeth ouvisse. "Essas rixas familiares não são a verdadeira ameaça."
"Não me importo com as famílias agora." Elspeth virou-se para esconder o rosto de Giada para que sua companheira não ouvisse. "Eu me importo com uma jovem que está em perigo." #emph[Que merece muito mais do que jamais recebeu.] Elspeth teria dado qualquer coisa, quando estava presa e indefesa nos primeiros anos de sua vida, para ter alguém lutando por ela. Ninguém estivera lá, então. Assumir esse papel para Giada agora parecia quebrar um ciclo, como dar esperança à menina assustada e prisioneira que ainda existia nas profundezas da alma de Elspeth.
"Então vamos deixá-la em segurança e nos desvincular." Vivien cruzou os braços. "Você e eu temos assuntos mais urgentes para tratar. Coisas que apenas pessoas como nós podem lidar."
Elspeth tinha mil perguntas ardentes sobre o que Vivien encontrara, mas guardou-as para si por enquanto. Haveria tempo para perguntar quando não estivessem mais fugindo por suas vidas.
"Fui clara?" perguntou Vivien, direta mas não indelicada.
"Perfeitamente. Deixaremos Giada em segurança e então seguiremos em frente."
"Bom. Agora, guie-nos até esse armazém."
"Eu irei, mas primeiro, vou voltar para o quartel-general dos Maestros." Elspeth caminhou em direção a uma escada próxima. "Preciso de uma arma melhor que uma faca. Vocês duas esperem aqui até eu voltar. Se algo der errado, nos encontraremos no banco em Altos do Parque."
"Entendido." Vivien sabia exatamente a qual banco Elspeth se referia.
"O quê?" Giada agarrou sua mão. "Eu vou para onde você for."
"Não acho que seja uma boa ideia. É arriscado demais levá-la para o antro de outra família", disse Elspeth suavemente.
Giada considerou por um momento, soltou Elspeth e disse: "Você tem razão. Esperarei aqui com Vivien."
Elspeth conseguiu chegar a um dos elevadores cívicos sem grandes problemas. Houve alguns oportunistas que cometeram o erro de tentar atacá-la pelo caminho, mas Elspeth conseguiu lidar com eles com facilidade.
Ela soube que algo estava errado no momento em que se aproximou do museu. Não havia guardas na frente. As cinzas cobriam a escadaria de entrada, tornando-a pálida como osso. O ataque do Adversário não fora apenas no Crescendo esta noite.
Felizmente, seu tempo catalogando todas as várias peças da coleção de Xander dera-lhe um conhecimento profundo do museu. Ela usou uma porta de recepção lateral, quebrando a fechadura com sua faca e tornando a lâmina inútil. Ela estava comprometida em encontrar uma nova arma agora.
Elspeth rastejou pelos salões escuros. O fedor de morte era pesado no ar. Ela quase podia sentir uma presença sinistra espreitando pelos corredores na forma de inimigos que ainda não conhecera e estava determinada a não conhecer. Ela se escondeu no segundo em que ouviu passos, então usou dois quartos conectados para contornar o barulho e entrar em um dos arsenais.
"Você não acha que foi realmente a nova recruta, acha? Aquela de quem Xander parecia ter gostado?"
O estômago de Elspeth revirou. A maneira como o homem falava sobre Xander, o estado do museu... ela sabia o que tinha acontecido ali. Suas mãos fecharam-se em punhos.
"Parecia ser ela."
"O Adversário a considerou o alvo número um, e os Cabaretti dizem que ela está fora também. Não importa se ela é quem levou a Fonte ou não, ela não tem para onde ir; estará morta em breve."
Estavam todos atrás dela agora, começando pelos dois que se aproximavam rapidamente do arsenal. Ela firmou sua determinação e voltou-se para as armas. Esconder ou minimizar sua habilidade e poderes de agora em diante seria inútil. Seria uma espada.
Ela não teve tempo para avaliar cuidadosamente qual espada tinha o melhor peso para seu porte físico. Ela passou as mãos pelos punhos, imaginando se uma daquelas seria a arma à qual Xander se referira quando falaram pela última vez. As vozes estavam se aproximando. Ela escolheu uma apenas por instinto e fugiu para a noite.
A maneira como aqueles homens falavam fazia-a parecer um alvo fácil.
"Nós#emph[ temos] mesmo que parar aqui hoje à noite, pai? Este lugar~ é simplesmente cafona, não é?"
Anhelo fez uma careta. Ela não estava errada. Park Heights era uma obra de arte cuidadosamente elaborada, algo que qualquer um morreria para contemplar. Todas as suas partes cantavam juntas como um coro de~ bem, anjos. E para um homem como Anhelo — um maestro, um conhecedor, um verdadeiro bon vivant — escolher o ambiente certo para o seu trabalho era como escolher o tom certo para uma sinfonia.
Mas ele não conseguia imaginar o que alguém poderia compor aqui. Se você perguntasse a ele, o lugar era um lixo, puro e simples. Federia a comida podre, com sujeira em todas as paredes. Nada de calcário aqui, não senhor; nada de mármore, nada de ouro. O lixo revestia as ruas, esperando para ser recolhido. As pessoas aqui eram igualmente suspeitas — nem uma gota de moda em lugar nenhum. Os anjos não deviam estar vigiando este lugar.
É claro que Errant odiava. E com razão. Tê-la aqui era como trazer um raio de sol para dentro de uma caverna. Mas não havia jeito. O chefe queria informações, e Errant precisava de alguns suprimentos de última hora para o grande dia amanhã.
Anhelo não tinha certeza de quantas chances mais teria de ser aquele que faria as coisas por ela. Ele tinha que aproveitá-las quando surgissem. Mas o chefe, bem~
"Sinto muito, querida", disse ele. Ele beijou a testa dela. "Apenas cinco minutos, eu prometo."
"O que você está comprando aqui?", perguntou ela, fazendo beicinho. Ela tinha a pele marrom quente da mãe, mas o cabelo ondulado e grosso era todo dele. Ela gesticulou pela janela, sua manicure cara empobrecida pelo piscar de luzes mal conservadas. "Não tem como este lugar ter artistas."
"A arte está em toda parte, se você souber onde procurar", respondeu Anhelo. Desejo dele, mas não era uma mentira total. Ele saiu do carro. Um olhar transmitiu ao motorista o que aconteceria com ele se Errant sofresse qualquer dano enquanto ele estivesse fora. Os boatos nas ruas diziam que este lugar fazia negócios rápido, mas se não fizessem~ "Se eu não voltar em quinze, nos vemos de manhã."
Errant cruzou os braços. Ela se parecia tanto com a mãe quando fazia isso, que a alma da mulher descanse em paz. "Você disse cinco minutos. Agora são quinze. Isso vai ser como quando você perdeu minha festa por causa daquele cara, o Severo?"
Nenhuma faca que ele já empunhara poderia igualar a dor daquela decepção. Ele merecia aquela. Errant não sabia por que ele estava aqui, nem saberia.
"Você me pegou nessa", admitiu ele. "Cinco minutos então."
Cinco minutos para apresentar seu caso. Cinco minutos para obter suas informações. Cinco minutos de volta ao carro. Ele não podia decepcioná-la, não de novo. O pensamento disso sozinho era ímpeto suficiente para ir direto ao ponto.
"Toluz. Ouviu as notícias?"
Arte de: Donato Giancola
O sorriso dela era largo e branco na escuridão de seu escritório, pálido como uma navalha encostada na própria garganta da noite. Sua voz era mais rica do que tudo neste bairro junto. "Eu ouço todas as notícias, Anhelo. É assim que se cumprimenta a família?"
Anhelo tocou a ponta do próprio nariz pardo. "Não tenho muito tempo, e ainda não somos família."
Unhas tamborilaram invisíveis na mesa. Apesar disso, ele vira Toluz o suficiente para conhecer a expressão em seu rosto. Sempre tinha o olhar de uma mãe que acabou de pegar você saindo escondido à noite. Aquelas sobrancelhas pretas e grossas eram a coisa mais expressiva nesta parte da cidade. "Negócios, então? Eu não esperaria nada menos de um Maestro. Você não tem senso de propriedade."
"Negócios", Anhelo assentiu. Ele deixaria o resto passar sem comentários, apenas por hoje. "Há uma mulher de branco perambulando pelo território do chefe. Sabe alguma coisa sobre ela?"
"Bastante", veio a resposta. Claro. Toluz tinha a reputação de brincar com sua comida, e Anhelo não tinha ilusões. Fora deste lugar, ele era um assassino imparável, um artista da faca sem igual. Mas aqui?
Havia uma razão para Toluz manter seu escritório tão escuro. E o fato de Errant se casar com a filha de Toluz não importaria muito se ele a irritasse. Não a chamavam de Luz Apagada à toa. Ganhou um dispositivo esperto dos superiores uma vez, de forma justa, segundo ela alegava. Um gerador de sombras. Se Luz Apagada quisesse que você desaparecesse, você nunca a veria chegando.
Mas Anhelo não tinha tempo a perder e não gostava da ideia de alguém que trabalhava no escuro. Melhor ter seu trabalho ao ar livre. Parte do motivo pelo qual ele odiava este bairro, na verdade. Muita gente inventiva aqui — mas nenhum senso de drama.
"O que um cara precisa fazer para conseguir essa informação?"
"Se você fosse da família", começou ela, "seria de graça."
Lá estava ela, enrolando as coisas. Anhelo rangeu os dentes. "Apenas me diga."
"Não pareça tão sombrio, Anhelo", disse ela. "Tudo o que peço é um favor. Ajuda você tanto quanto me ajuda."
"Acho difícil de acreditar com a sua reputação", disse ele. O poder extra que Toluz oferecia aos seus clientes significava que ela cobrava muito mais até do que os Corretores por seus serviços. Não parecia tê-la atrasado muito o fato de sua perna ter ficado arruinada no trabalho do Gerador de Sombras. A única diferença era que ela fazia um pouco menos de seu próprio trabalho de campo — e quando fazia, trazia uma bengala.
"Você não me conhece muito bem", veio a resposta. Saltos clicaram no chão. "Fiero Vespin. Conhece o nome?"
Anhelo riu. "Sim, conheço o cara. Um dos nossos. Não tem gosto para moda, mas continua indo ao buffet de qualquer maneira. Qual é o trabalho?"
"A bufonaria é um disfarce. Minha filha tem tido problemas com ele há anos. Ontem à noite ele agiu. Você a viu."
Ele vira. Parnesse apareceu no jantar de ensaio com um corte na bochecha do tamanho de um chiclete. Errant não conseguia parar de paparicá-la a noite toda. Anhelo também não perdera o cheiro de sangue nela, ou a maneira como ela se encolheu quando Errant a abraçou. Costelas quebradas. Parnesse se recusou a falar sobre isso, claro — orgulho cabeça-dura — mas Anhelo tinha um palpite de que a coisa estava feia. Pensou que talvez fosse a mulher de branco de quem ele tanto ouvira falar, causando problemas por toda parte.
Mas Fiero? #emph[Fiero]? Simplesmente não fazia sentido. O cara nunca fizera um trabalho real, até onde Anhelo ouvira. Ele #emph[realmente era] apenas um negociante de arte, e um dos ruins, ainda por cima.
Ainda assim, ele sabia que Toluz não era mentirosa. Especialmente quando se tratava de Parnesse.
"Se você quer informações para a sua Família, tem que trabalhar um pouco para a nossa. Elimine-o e conversaremos", disse ela.
Ele apertou a ponte do nariz. Matar alguém dentro da família seria difícil de explicar, mas ele poderia fazer funcionar. Não era como se ele gostasse tanto assim de Fiero, também. Ninguém gostava. O homem usava colônia suficiente para sufocar você até a morte a um quilômetro de distância.
"Quando você precisa que isso seja feito?"
"Amanhã."
"Mas isso é—"
"O casamento, eu sei", disse ela. Uma batida no chão de pedra fria — sua bengala, provavelmente. "Ele tem vinte capangas sob seu controle querendo causar problemas, caso contrário. Cansado de ser a piada, eu apostaria, e querendo fazer um nome para si mesmo. Que melhor maneira de provar sua natureza implacável do que arruinando um evento de tão alto nível?"
Ele fechou a mão direita em um punho. Aquele ratinho~
O tempo seria apertado. Ele precisava estar no Salão da Grande Capenna às três e meia para o casamento. Errant queria que ele a levasse ao altar. Para transformar Fiero no monumento aos covardes e traidores que Anhelo queria que ele fosse, levaria horas. "Por que você não pode fazer isso?"
"Porque você vai fazer", diz Toluz. "Não vamos discutir sobre isso."
Ela mesma poderia ter feito. O fato de Fiero tentar encomendar a morte de Parnesse quando a mãe dela uma vez esmagou o crânio de um rhox com as mãos vazias falava de sua audácia, sua arrogância. Que ele tentasse seguir isso com um ataque a um casamento entre famílias~
Ele odiava admitir que ela tinha razão. O cara tinha que ir.
"Já se passaram três minutos e meio, Anhelo. Se você sair agora, terá tempo de voltar para o carro."
"Muito atencioso da sua parte", disse ele. Ele se virou para a porta. "Eu farei o serviço."
"Eu sei que fará", disse ela. "Parabéns pelo casamento."
Ele soltou uma risada forçada. "É. Para você também, Toluz. Para você também."
Você pode compor a melhor sinfonia do plano apenas para entregá-la a um bando de crianças tocando violinos desafinados. Boa arte — seja música, pintura ou assassinato — era tudo sobre a soma de suas partes. Compositor, intérprete, instrumento. Pintor, tela, tinta.
Anhelo tinha uma parte terrível para trabalhar. Fiero não era amigo de ninguém, e o que ele chamava de moda só ia atrapalhar a expressão artística de Anhelo. Muito berrante, de longe. Se ele ia fazer isso funcionar, precisava garantir que o corpo fosse encontrado em algum lugar limpo e simples para fins de contraste. Isso era pedir muito para um homem que dirigia um museu.
Era um pedido ainda maior com menos de doze horas para concluir o trabalho.
Mas Anhelo odiava decepcionar — o chefe, Errant, seu público adorador. Ele daria um jeito.
O primeiro passo era enviar o convite. Isso ele podia fazer na noite em que recebeu as ordens, e isso lhe daria tempo para trabalhar.
O próximo passo era encontrar um colaborador. Grande arte como esta exigia dois artistas, afinal. Logo pela manhã, ele passou na casa de Evelyn, beijou o anel, elogiou suas últimas aquisições — mas ela o descobriu em cinco minutos.
Arte de: Marta Nael
"Você não está aqui para olhar retratos, está?"
A astúcia de Evelyn era tão afiada quanto as facas que Anhelo guardava nas mangas. Ela tivera séculos para aprimorá-la. "Você me farejou", disse ele. "Preciso de algo para amanhã."
"Para o casamento?", disse Evelyn. Suas sobrancelhas se ergueram. "Ouvi dizer que Parnesse se envolveu em uma briga, mas não achei que fosse com você."
"Não foi", disse Anhelo.
"Então~ você está fazendo negócios da família no dia do casamento da sua filha?"
O canto do lábio de Anhelo tremeu. Ele odiava como aquilo soava, mas~ "Sim. Estou. Preciso de algo que eu possa armar no museu."
Um momento de silêncio passou entre eles, Evelyn avaliando-o. "Nossa, que #emph[dilema]. É claro que vou ajudar~"
Uma sensação de vazio no estômago dele. "Por um preço?"
"Garoto esperto", disse ela, mostrando as presas. "Resolveremos os detalhes em outro momento, mas por enquanto, vamos apenas chamar de um favor por um favor."
Os "favores" de Evelyn eram as piores coisas que você poderia ter pendurado no pescoço nos Maestros. O chefe estar chateado com você era a única coisa que poderia inspirar mais desespero em alguém da família. A última vez que ele lhe devia um favor, ela pediu que ele matasse um Pesadelo. Disse que queria ser a única na cidade. Ele o fizera — mas as cicatrizes daquela vez ainda cobriam suas costelas. Carne feia com a qual ele teria que viver por toda a eternidade. Toluz poderia tornar esse tipo de coisa um ponto de orgulho, mas ele não.
Ele poderia recusá-la. Ele poderia descobrir alguma maneira de fazer isso por conta própria, uma que envolvesse menos ostentação. Se ele desistisse de fazer disso uma obra de arte, poderia apenas puxar Fiero para uma alcova e matá-lo ali, fácil como poderia ser. Aparecer no casamento cedo o suficiente para ajudar a arrumar os talheres.
Mas que tipo de mensagem isso deixaria? Que tipo de impressão?
Não. Um artista nunca faz concessões. Ele tinha tempo para ambos. Ele #emph[era] ambos. Ele não poderia cortar a garganta de Fiero em um beco mais do que poderia abandonar sua filha. Ia dar certo, tinha que dar.
"Tudo bem", disse ele. "Diga o seu preço."
"Anhelo, Anhelo, Anhelo!" Fiero passou um braço em volta dele como se fossem velhos amigos. Fumaça de Halo se curvava ao redor deles, atraindo olhares da segurança. Não importava os sinais espalhados por toda parte — Fiero queria causar uma impressão. "Meu velho amigo! Que honra. Eu não fazia ideia de que você daria o tour. Não é o dia do casamento da sua filha?"
O sorriso de Anhelo era forçado. "Com certeza é."
"Tirando um tempo do seu dia para ajudar um simplório como eu", disse ele. Com mais dois tapas no ombro, ele soltou Anhelo, ungido agora com o fedor de colônia barata. "Eu te digo, ninguém na família como você, amigão. Ninguém mais cuidando dos pequenos."
Pelo menos concordavam que ele era um simplório. "Esse é o seu trabalho, não é?", disse Anhelo. Ele começou a caminhar, esperando que Fiero entendesse a dica. "Cuidar de todos os nossos novos rapazes, mostrar-lhes o caminho, ficar de olho em novas artes. Onde estaríamos sem você?"
Com anzol, linha e chumbada, ele atraiu Fiero. O homem estava caminhando direto para seu próprio túmulo. Apesar de ser uma pessoa tão banal, a solenidade da ocasião conferia às coisas uma certa poesia à qual Anhelo não conseguia resistir.
"Bem, você sabe, eu faço o que posso. Diga, como está Errant, aliás? Nervosa com o grande dia?"
Anhelo os conduziu por um retrato de um anjo abraçando um demônio, a garganta deste último cortada. #emph[Redentor e Redimido.] O cabeça-oca nem se deu ao trabalho de olhar. Que tipo de negociante de arte ele era. Tour privado, e ele estava ocupado se gabando de um casamento que queria arruinar. Se Anhelo o matasse bem ali, não seria fora de lugar.
"Não sei. Não a vi", admitiu ele. A pontada de culpa em sua voz não fazia parte da atuação. "Mas ela estava feliz como poderia estar antes de eu sair de manhã. Parnesse é o mundo todo dela."
Fiero deu uma tragada em seu bastão de Halo. Ele soprou a fumaça diretamente para a pintura a óleo. Os dentes de Anhelo doeram. "E ela é o seu mundo todo. Estou surpreso que você não esteja lá agora", disse ele.
"Oh, acredite em mim, eu gostaria de estar. Mas você sabe como é. Ordens do chefe para eu cuidar deste lugar", disse Anhelo, o veneno fervendo sob a superfície de seu sorriso encantador. "Por aqui, Fiero. Tenho uma exibição totalmente nova que queria lhe mostrar. Achei que poderia usar seu olhar de especialista."
"O que você tem para o velho Fiero?", perguntou ele. Ele passou direto pela porta que Anhelo segurava para ele. O ar nesta sala estava visivelmente mais seco e fresco do que na antecâmara principal. "Minha especialidade é, você sabe, as coisas contemporâneas. Modernismo, estão chamando. Você está mergulhando os pés no banho de sangue lá?"
"Pode-se dizer que sim", disse Anhelo. Por que ele queria tanta conversa fiada? Pelo menos estavam a caminho. Ele gesticulou para as paredes ao redor, adornadas como estavam com painéis de madeira recuperados de igrejas da Antiga Capenna. No alto, havia beirais genuínos arrancados das mesmas, trabalhados em carvalho e cerejeira. "Bem-vindo à exibição da Antiga Capenna."
"Antiga Capenna? Anhelo, um cara como você, rea— O que é #emph[aquilo]?"
Mesmo um caipira como Fiero reconhecia algo especial quando via. E #emph[era] algo especial. Com o dobro da altura de Anhelo e o dobro da largura de Fiero, o braço-lâmina do Guerreiro da Antiga Capenna era temível mesmo na morte. Uma tempestade de arestas afiadas, uma sinfonia de metal, Anhelo nunca vira nada parecido. Ele não tinha ideia de onde Evelyn o encontrara, também.
Mas ele sabia que se pudesse fazer Fiero parar em um ponto específico, o machado que ele segurava deceparia sua cabeça no exato momento em que a luz atravessasse o vitral para iluminá-lo. E isso era um deleite para se trabalhar.
"Impressionante, não é?", disse Anhelo. Ele agora colocou sua própria mão no ombro de Fiero e o conduziu até a maravilha. A cabeça de seu machado sozinha era do tamanho de uma pessoa encolhida em posição fetal. "Remessa fresca. Eu queria sua opinião sobre como posicioná-lo."
Fiero, pela primeira vez, guardou seu bastão de Halo. "O tamanho dessa coisa. Eu me pergunto o que eu poderia fazer com um machado desses~"
"Gostaria de pôr as mãos nele?", disse Anhelo. Mais perto, mais perto~ "Podemos descê-lo. Você poderia dar um golpe de teste, se quisesse."
Fiero olhou para ele como uma criança a quem disseram que pode ter o que quiser na loja de doces. "Você fala sério? Faria isso por mim?"
"Pelo meu velho amigo, Fiero? Qualquer coisa." Anhelo sorriu. Seu sangue começou a bombear novamente, estando tão perto da ocasião. "Apenas fique parado bem aqui e eu vou subir lá para descê-lo."
Fiero plantou os pés exatamente no lugar perfeito. A luz já estava em seus tornozelos; era a hora.
Anhelo assobiou enquanto contornava o pedestal. Até grunhiu como se estivesse prestes a começar a subir. Na verdade, tudo o que ele teve que fazer foi cortar um fio minúsculo, quase invisível. Ele nem precisou da faca para fazer isso — arrebentou-o com a unha.
Acontece que, quem quer que fosse esse guerreiro, o machado soldado em seu braço ainda estava afiado. A cabeça de Fiero saiu limpamente. O sangue espirrou em um arco perfeito ao redor da estátua, caindo então nos sulcos que Anhelo passara a manhã inteira esculpindo. Letras sangrentas aos pés do guerreiro soletravam seu aviso: #emph[morte aos traidores.]
Ele se permitiu um momento para admirar seu trabalho — a maneira como a luz multicolorida brincava com o escarlate do sangue de Fiero, o contraste de seu corpo contra o piso de mármore branco liso. Estava quase perfeito. Após um segundo para ajustar a postura do corpo à de um ícone próximo, a imagem estava completa.
E não foi um momento cedo demais. O relógio de Anhelo marcava três horas. Ele tinha meia hora para cruzar a cidade.
Arte de: Aurore Folny
Dirigir você mesmo era cafona. Assim como ele não pôde matar Fiero da maneira fácil na noite anterior, seu cérebro não o deixaria entrar em qualquer carro velho e dirigir para o casamento. Se chegasse o dia em que Anhelo tivesse que escolher entre a morte e aparecer em uma festa com as modas do mês passado, a #emph[única] coisa que poderia mudar sua mente era o pensamento de Errant em luto.
Mesmo quando o tempo era essencial, ele não conseguia se forçar a roubar um carro e dirigir, não importa o quão rápido fosse. E, claro, ele estivera tão focado em Fiero morrendo belamente que não pensara em pedir uma carona. Ele não tinha tempo para esperar por um carro aprovado pelos Maestros — o que significava, horror dos horrores~
Mas tudo bem. Era por Errant, e ele ainda não estaria dirigindo sozinho. Ficaria tudo bem. Taxistas conheciam o caminho em Nova Capenna melhor do que ninguém, não conheciam?
Ele passou impetuosamente por seus capangas nos portões e desceu os degraus. Do lado de fora, uma frota de carros estava pronta e esperando por qualquer otário de fora da cidade que quisesse pagar seus preços. Os olhos de Anhelo pousaram no melhor deles — o motorista do lado de fora vestindo um paletó de abotoamento duplo, feito sob medida para matar. Sua carona era elegante também — toda preta com detalhes em ouro polido. Com esse cara, nem pareceria uma corrida de táxi.
"Salão da Grande Capenna, voando", disse Anhelo enquanto se acomodava no banco de trás. "Chegue em quinze minutos e eu compro o que você quiser."
"Pode deixar, Chefe, pode deixar", disse o motorista. Ele sorriu — mas havia algo errado em seus olhos, algo como um fogo começando a arder.
Mas no segundo em que Anhelo teve esse pensamento, as travas prenderam as portas. Os pelos da nuca dele se arrepiaram. Talvez fosse o estresse da situação, mas não havia algo estranho aqui? O cheiro de cerejas grudava em sua língua; ele sabia bem que os limpadores industriais mais pesados usavam cereja para esconder o cheiro de solvente. E embora o interior do carro fosse luxuoso e novo, era #emph[novo demais]. Um táxi não era equipado assim.
Arte de: Dan Scott
"Salão da Grande Capenna. Grande dia para você, não é?" A voz do motorista era suave e leve, mas o ardor ainda estava lá em seus olhos quando ele ajustou o retrovisor. "Senhor Anhelo."
"Muito grande", disse Anhelo. Ele não desviou o olhar do cara. "Olha, minha oferta ainda está de pé. Não me importa quem você é. Hoje, de todos os dias, se você me levar onde eu preciso ir — eu lhe darei o que você quiser."
O motorista os colocou na rua. Fosse qual fosse seu real objetivo, ele não tinha vergonha de pisar fundo. As luzes da cidade ao redor deles tornaram-se rastros de luz em minutos. Outros carros desviavam do caminho e buzinavam quando não podiam. Cada curva os fazia pender de um lado para o outro do carro. Algo chacoalhou no porta-malas — algo que soava como vidro, algo que soava caro.
"Você não pode me dar o que eu quero", disse o motorista, ainda suave, ainda profissional.
Anhelo procurou o medalhão do cara. Ali, na divisória, ele o avistou — um pequeno retrato desenhado e informações básicas. Antonio Swift. Que nome para um motorista. Não era um que ele tivesse ouvido antes, também. Ele teria se lembrado.
Mas, parando para pensar, aquele rosto não era um pouco familiar também? O nariz, especialmente — quebrado uma vez e curado fora de centro, como uma rachadura no concreto.
"Oh, está começando a se encaixar para você, não está?", disse Antonio. "Este meu rosto. Você já o viu antes."
Anhelo fechou a mão em volta de sua faca. Desgraça pouca é bobagem. "Talvez tenha. Temos negócios, Antonio? Porque pode esperar. Hoje é o dia do casamento da minha filha—"
"Casamento. Eu sei", disse o motorista. "Eu sei tudo sobre você. Foi assim que o enganei tão facilmente. Este carro, este terno. Eu não tinha certeza de que funcionaria, mas vocês, vampiros, são todos tão fáceis de ler. Seu vício pelo luxo é patético."
Carro roubado e terno roubado. Talvez não fosse apenas uma semelhança ruim.
"Seu nome não é Antonio."
"Não, não é. É Severo. E há três anos, você matou meu pai no meu aniversário", disse ele, sorrindo o tempo todo. Ele girou o volante todo para a direita. Luzes brilhantes preencheram a cabine enquanto eles invadiam a pista contrária do tráfego. "Parabéns pelo grande dia. Espero que sua filha sofra como eu sofri."
Anhelo avançou contra ele através da divisória, mas mesmo enterrar a faca no peito de Severo não foi suficiente para evitar o que estava por vir. Um enorme transporte dos Rebitadores colidiu com eles como um rhox furioso. A visão de Anhelo ficou vermelha, depois branca; sua cabeça bateu contra a divisória. A última coisa que ouviu antes de seus ouvidos começarem a zumbir foi a risada maníaca de Severo.
Mas mesmo enquanto dançava na beira da inconsciência, ele não se deixou ceder. Não podia. Não hoje. Não com tão pouco tempo sobrando. E Severo estivera certo sobre uma coisa: Anhelo #emph[não podia] dar a ele o que ele queria.
Ele ia chegar àquele casamento. Não importava se parecesse um animal atropelado, não importava se o tempo todo sua cabeça girasse como uma roleta, ele ia conseguir.
Quando o carro parou de se mover, era seu único pensamento. Vidro se enterrou em sua pele; um estilhaço do tamanho de seu punhal atravessara seu antebraço. Anhelo quebrou-o, então arrancou a mão de sua fixação no ombro de Severo. Ele saiu cambaleando do carro. Fosse ele um mortal, seu estômago teria se esvaziado — mas havia vantagens na não-vida, e a liberdade de vomitar era uma delas.
Mas não eram apenas notícias boas. Anhelo colocou a mão nos destroços do carro para se equilibrar, apenas para ouvir gritos vindos de trás dele.
"Aquele é um Maestro com a nossa mercadoria?!"
Anhelo soltou um suspiro. Mercadoria. As coisas no porta-malas, o vidro~ Ele arrastou-se em direção à traseira do carro apenas para ter seus temores confirmados.
Quem quer que aquele tal de Antonio fosse, ele estava transportando Halo para os Rebitadores.
Rebitadores que acabaram de tirá-lo da estrada e que queriam sua mercadoria de volta. Rebitadores que estavam se fechando ao redor dele, com pés de cabra e chaves inglesas nas mãos. Ele podia ouvi-los, mesmo que não pudesse vê-los.
Ele tinha quinze minutos, #emph[talvez], para chegar ao casamento antes que Errant sentisse sua falta. Ele mal conseguia enxergar, seu terno estava arruinado, ele matara duas pessoas em um dia e cada osso de seu corpo doía, recém-quebrado.
Mas conforme os brutamontes se fechavam ao seu redor, tudo o que ele conseguia pensar era no grande dia de Errant. Ele fizera a coisa errada ao aceitar este trabalho, não fizera?
Bem, ele não ia deixar que seu erro arruinasse o casamento.
Anhelo, ensanguentado e surrado, puxou uma faca reserva de sua bota. "Querem dançar?", balbuciou ele. "Então vamos dançar!"
Os capangas reconheceram um convite quando o ouviram. Passos se arrastaram ao redor dele enquanto fechavam a distância. Um rhox balançou um vergalhão sobre a cabeça de Anhelo. Reflexos sobrenaturais foram a única coisa que o manteve de pé — ele não viu o golpe chegando tanto quanto sentiu o vento no alto. Mas esquivar-se teve um preço alto: Anhelo não conseguiu recuperar o equilíbrio a tempo.
Ele caiu de cara no chão. Vidro se enterrou em suas bochechas; cinzas cobriram sua língua. Quando ele rolou, viu os Rebitadores reunidos, mas não conseguia distinguir seus rostos com o mundo girando ao seu redor. No borrão, ele viu Errant, e no uivo das buzinas e motores ao seu redor, ele ouviu a voz dela.
Quantas vezes ela lhe perguntara aquilo? Se ele parasse para contar, provavelmente mais vezes do que havia luzes nesta cidade.
"Eu~ eu estou indo", resmungou ele. Ele apoiou os nós dos dedos cheios de vidro no asfalto e forçou-se a levantar.
Ele não viu a faca vindo em direção às suas costas.
Mas não precisou — porque Toluz viu.
A faca tilintou no chão um instante antes de seu portador. Se o estalo de dezenas de ossos e os sussurros frenéticos de "luz apagada" não lhe dissessem quem viera em seu auxílio, a escuridão repentina era pista suficiente. Uma nuvem de preto engoliu tudo o que estava à vista. Lá dentro, ele ouviu estertores de morte e esternos esmagados, sonhos sufocados e esperanças destruídas. Quando tudo acabou, ela era a única que restava de pé — sem uma gota de sangue em seu terno.
Ela lhe deu a mão. Ele olhou para ela por um momento, para o sangue na palma dela, e considerou suas opções. Ele poderia tentar se levantar sozinho, mas~ o que a Família pensaria se ouvisse falar disso? Levando uma surra de um bando de capangas, precisando que Toluz o salvasse. O chefe não aceitaria isso muito bem.
"Não deixe seu orgulho atrapalhar as coisas", disse ela. "Você é da família, Anhelo."
Aquilo o pegou um pouco de surpresa. As ondas do mundo continuavam girando — mas a mão dela era um amparo. "Você me seguiu?"
"Eu protejo meus investimentos", respondeu ela. Ela passou o braço dele pelo seu ombro. Aquela bengala estava sustentando os dois agora. Juntos, eles se dirigiram para o lado da estrada, onde ela tinha um carro pronto e esperando por eles. "E eu~ tive alguns arrependimentos sobre o trabalho."
Ele riu, o que só o fez tossir sangue. "Oh? #emph[Você] tem alguns arrependimentos? Conte-me sobre isso."
Para sua surpresa, ela riu também. "Deve soar estranho vindo de mim, não é?" Seus capangas abriram a porta e o ajudaram a entrar no banco de trás de sua limusine. Esperando por ele lá dentro estavam um curandeiro e um rapaz segurando um terno novo. De grife, inclusive. "Aguente firme, Anhelo. Se algo acontecer com você, Parnesse nunca vai parar de me importunar."
A estrada passa rápido quando sua cabeça não está boa. Ele não conseguia acompanhar nada daquilo — sua carne se regenerando, o assistente trocando suas roupas estragadas por seus trajes novos e frescos. Enquanto as luzes nadavam ao seu redor, tudo o que ele podia fazer era continuar verificando a hora. Dez minutos. Oito minutos. Cinco.
Quando chegaram ao Salão da Grande Capenna, ele apenas começara a se situar. Mas ele sabia, mesmo então, que se seu coração ainda batesse, o metrônomo que seguiria seria sua filha. O pensamento de Errant encolhida nos aposentos da noiva se perguntando onde ele estava~
Ele se jogou para fora do carro sem esperar que parasse. Para sua surpresa, viu Toluz fazendo o mesmo — embora ela parecesse mais composta do que ele. Os Obscura podiam não ter muito estilo, mas sabiam como manter a compostura.
E, ok, talvez aquela bengala dela fosse elegante.
A festa começou no momento em que atravessaram a entrada. Ao redor deles havia ouro e madrepérola, penas e seda. Obscuras em cinza sóbrio exibiam sorrisos e bochechas coradas, champanhe alegrando seus espíritos; assassinos dos Maestros conversavam sobre Halo. Melodias de swing davam ânimo até mesmo aos passos cansados de Anhelo.
Ao lado dele, Toluz solta um suspiro de alívio. "Achei que o seu pessoal já teria começado uma briga a esta altura."
"E arruinar uma noite linda? Esqueça isso", disse Anhelo. "Se alguém fosse começar uma briga, seria o seu pessoal."
Ela sorriu e balançou a cabeça. "Não hoje à noite, não hoje à noite", disse ela. Como ele, ela estava varrendo a multidão em busca da filha. Dois Obscura do outro lado do salão já a estavam sinalizando. Toluz tirou um envelope do paletó e ofereceu a ele. O papel era firme e preto, selado com cera preta. "Eu tive minhas dúvidas sobre tudo isso. Pessoas como nós não costumam se unir facilmente. Sangue demais em nossas mãos. Mas vendo tudo isso, e como você se arriscou~ eu posso ter sido muito dura com você. Foi errado da minha parte fazer você passar por todos aqueles obstáculos. Da próxima vez que precisar de alguma informação, é por minha conta."
Ele olhou para o envelope como olhara para a mão dela. Mais uma vez, a resposta surgiu para ele. Ele a dispensou com um gesto. "Escute, eu entendo. Um cara como eu passa tempo demais pensando no trabalho, você precisava saber que eu me importava. Podemos deixar os negócios para outro dia."
Toluz deu um aceno ponderado. Ela guardou o envelope, então pegou uma taça de um garçom que passava. Ela a ergueu em direção a ele enquanto saía. "Parabéns, Anhelo."
"Você também, Toluz", disse ele. Ele viu as escadas para a suíte nupcial e não perdeu tempo. As damas de cada lado ofereceram-lhe um pouco de coragem líquida por seus problemas, mas ele não precisava de nada disso. O que ele precisava era chegar lá nos próximos três minutos.
Por isso, um de seus lacaios agarrando-o pelo braço esgotou o último resquício de paciência que ele tinha. Mesmo quando percebeu que o cara estava mais pálido do que as flores que brotavam da urna de uma cariátide próxima. "É bom você ter um bom motivo para isso", rosnou ele.
"Chefe, perdemos alguns homens lá na Caldaia—"
Anhelo apertou o nariz. "O que eu acabei de dizer?"
"Que era bom eu ter um bom motivo", disse o rapaz.
"É. Esse não foi um. Vá encontrar outra pessoa para relatar. Diga ao Grandão que não conseguiu me contatar, se chegar a esse ponto", disse Anhelo. "A menos que tenhamos capangas arrombando as portas, pelas próximas oito horas, a única família com a qual me importo está naquela sala. Agora suma daqui."
Pelo menos ele não precisou se repetir. O lacaio partiu, levando consigo a última aura do trabalho. Apenas a suíte nupcial restava. Lá dentro, ele podia ouvir Errant e suas amigas tagarelando, a bolha alegre de risadas.
Naquele momento, não importava o quanto ele sofrera para chegar aqui a tempo.
Anhelo abriu a porta. Lá estava ela, sua filhinha, vestindo o vestido de noiva da mãe. Elas se pareciam tanto que aquilo o fez parar, roubou-lhe o fôlego. Ele já a vira mais feliz do que agora? Cercada de amigos, radiante de alegria, o próprio ar ao seu redor parecendo brilhar? As flores em seu colo não poderiam esperar igualá-la. Ela saltou de pé ao vê-lo, deixando as flores para a sua dama de honra. "Papai! Papai, você veio!"
Arte de: Justine Cruz
"Sempre, querida." Ele a abraçou. Havia um nó em sua garganta. O nó só aumentou quando ele percebeu que a mãe dela nunca a veria assim. Anhelo estivera presente em seu lugar, quando pôde, mas~
Não importava. Ele estaria lá. Para Serena e Errant, para sempre era uma promessa.
Hoje e em todos os dias que virão, elas eram o centro de seu mundo.
Nenhuma obra de arte jamais poderia se comparar.
5 de Abril de 2022 | Por Elise Kova
Episódio 5: Hino dos Anjos
RUAS DE NOVA CAPENNA
"O que vocês acham?" Elspeth perguntou às suas companheiras, empoleirada na mesma beirada que usara ao seguir o informante. Era difícil acreditar que seus testes com Xander já haviam ocorrido há algumas semanas. De alguma forma, eles pareciam tanto ontem quanto anos atrás.
"É a seção mais silenciosa da cidade que vimos até agora", admitiu Vivien.
Arte de: Adam Paquette
"Giada?"
A jovem parecia exausta até os ossos, então Elspeth não ficou nem um pouco surpresa quando ela disse: "Acho que ficar aqui é uma boa ideia".
"Você cuida de Giada. Eu farei uma rápida varredura no perímetro", ofereceu Vivien.
"Obrigada." Elspeth apontou para a lateral do prédio. "Os povo-guaxinim estavam no beco adjacente; fique de olho."
Vivien saltou da beirada, descendo na noite cor de tinta. Ela continuava a impressionar Elspeth. Cada movimento era seguro e deliberado. Embora Nova Capenna fosse nova para ela também, ela caminhava como se fosse dona de cada pedaço de vidro e concreto sem parecer jactanciosa ou orgulhosa. Ela havia se adaptado à cidade de forma mais contínua do que Elspeth no que parecia ser a mesma quantidade de tempo, embora devesse ser o lar de Elspeth.
"Elspeth." Giada quebrou o silêncio, salvando Elspeth do turbilhão pessoal e da dúvida.
"Sim?" Quando Giada não falou imediatamente, Elspeth voltou seu olhar para ela. Giada estava esticada na beirada, as mãos cruzadas sob o queixo, mordendo o lábio inferior entre os dentes. Elspeth já havia sentido esse nível de incerteza antes e colocou a palma da mão levemente entre os ombros da adolescente para oferecer algum consolo. Giada continuou a olhar além do horizonte nebuloso de Nova Capenna.
"Estou com medo."
"Do que você tem medo?" Elspeth conseguia pensar em vários milhares de motivos para Giada estar com medo. Mas ela queria ouvir qual deles pesava em seus pequenos ombros.
"E se eu não for o suficiente?"
"Suficiente para quê?" Elspeth cutucou gentilmente.
"E se eu não puder ajudar Nova Capenna? Minha magia pode realmente ser suficiente? O que acontece se — #emph[quando] — ela acabar?" Giada balançou a cabeça. "Não sei quanto mais tenho para dar, e realmente não sei se fará diferença se eu tentar. Esta cidade está tão~quebrada."
As palavras saíram como uma lufada de ar. Como se, em algum lugar dentro de Giada, uma represa tivesse quebrado e essas perguntas que a estavam consumindo lentamente por dentro agora encontrassem um momento livre para liberação. Elspeth ouviu atentamente as perguntas de partir o coração de sua companheira. Cada pergunta coloria uma de suas interações passadas sob uma nova luz — contaminando-a com uma sombra de medo que Elspeth tinha visto em Giada, mas nunca havia entendido até este momento.
Tanto havia sido colocado nos ombros de Giada, sem lhe dar autonomia ou crédito. Os Cabaretti, as famílias, o Adversário, todos a viam como uma solução para seus problemas, uma ferramenta. Eles a espremeriam até secar por sua solução barata para o suprimento minguante de Halo até que não houvesse mais sangue em suas veias, medula em seus ossos ou magia em sua alma, e eles fariam isso sem pensar duas vezes em seu bem-estar.
Elspeth deveria ter feito muito mais por Giada muito antes.
Giada voltou os olhos para Elspeth, que buscava respostas que não sabia se poderia dar. Ela se perguntava se era assim que Ajani se sentia em todas as vezes que ela o procurava em busca de respostas que sabia, no fundo, que ele não tinha. Ela se perguntava se Giada a ressentiria por sua resposta tanto quanto ela havia ressentido seu querido amigo naqueles momentos de muito tempo atrás.
"Você tem razão", Elspeth começou suavemente. "Nova Capenna #emph[está] quebrada, e o Halo é um curativo frágil nas feridas desta cidade." #emph[Paz real, prosperidade real, precisavam vir de dentro] — ao enfrentar os demônios que literalmente construíram a cidade e os figurativos que ainda assombravam suas ruas.
"O que eu faço, então? Eu ainda quero ajudar — eu quero um propósito."
"Realização~propósito~" Elspeth começou suavemente, perdendo-se em seus próprios pensamentos como estivera por meses sobre esse tópico. Mas, pela primeira vez, seu peito não doeu. A sensação de vazio não era tão escancarada quanto antes. "Essas coisas têm que vir de dentro de você. Eu não posso dá-las a você. Ninguém pode."
Giada franziu a testa, repousando o queixo de volta nas mãos, desanimada. Elspeth esfregou levemente entre os ombros dela.
"Mas vou te dizer uma coisa, Giada. Você terá a oportunidade de encontrar essas respostas — para si mesma. Você encontrará seu propósito." #emph[Assim como eu encontrarei.] "E eu pessoalmente garantirei que você esteja segura para levar o tempo que precisar para fazer isso, não importa quanto tempo seja."
"Você promete?" Giada voltou olhos esperançosos para ela.
"Eu juro."
A conversa delas foi interrompida pelo retorno de Vivien. Ela pousou levemente na plataforma em que Elspeth e Giada estavam esticadas. "Parece suficientemente abandonado. Nenhum sinal de vida lá dentro."
"Bom." Elspeth se levantou. "Então ficaremos aqui esta noite e recuperaremos o fôlego."
ARMAZÉM
Elspeth acordou com um peso em seu ombro. A luz nebulosa do amanhecer, derramando-se por uma claraboia acima, banhava o rosto de Giada em um brilho quente enquanto ela dormitava ao lado de Elspeth. As três haviam se amontoado em um pequeno escritório perto dos fundos do armazém. Havia apenas uma entrada e saída, fácil o suficiente para proteger. E um espelho na parede oposta à janela com vista para o chão do armazém dava a elas uma linha de visão sem se exporem.
"Devemos nos mexer. Não acho que estejamos sozinhas aqui", sussurrou Vivien, os olhos correndo para sons que Elspeth não ouvia. Ela estava encostada na parede oposta a elas.
"Provavelmente apenas o povo-guaxinim. Dê a ela um pouco mais de tempo." Elspeth ainda não havia se movido. Ela nunca tinha visto Giada parecer tão em paz. Em todas as interações anteriores, Giada fora assombrada por um turbilhão que Elspeth não entendera até as revelações da noite passada.
Qual era a história de Giada? Ela sempre estivera presa com os Cabaretti? Como ela descobrira seu poder de criar Halo?
Todas perguntas que Elspeth continuaria se fazendo. Já se pedia o suficiente de Giada; Elspeth não precisava ser mais uma fazendo exigências a ela. Enquanto fosse capaz, Elspeth manteria seu voto e a protegeria. Isso era o suficiente.
O som de metal ecoou, agudo e estridente. Giada deu um pulo para cima, e a mão de Elspeth voou para sua boca. Seu outro braço envolveu firmemente seus ombros, segurando a adolescente contra si.
"Fique em silêncio", sibilou Elspeth, seus olhos esquadrinhando o espelho em busca de movimento.
Vivien estava de joelhos, alcançando seu arco enquanto a porta se abria e vidro chovia ao redor delas, sua manhã pacífica estilhaçando-se com a janela.
Jinnie estava no batente da porta. Dois executores Cabaretti estavam atrás dela, brandindo machados. No espelho, Elspeth podia ver mais três com espadas desembainhadas.
Antes que Vivien pudesse sacar uma flecha, Jinnie atirou uma adaga nela. Vivien ergueu o braço para bloquear a adaga, que cavou um corte em seu antebraço. Um dos homens correu por trás de Jinnie, derrubou o arco do braço ferido de Vivien e o tomou para si.
"Não é tão durona sem isso, é?"
Os olhos de Vivien brilharam com um desafio para que ele descobrisse o quão mortal ela poderia ser, mesmo sem seu arco. Ela sorriu lentamente, quase placidamente. O tipo de sorriso que prometia ser o último que ele veria.
"Você não achou realmente que poderia escapar de nós, achou?" Jinnie se aproximou, com uma faca na mão que colocou sob o queixo de Elspeth. #emph[Como Jinnie as encontrou?] O armazém estava abandonado, a cidade era enorme. Tinha que haver uma explicação, algo que elas negligenciaram e que permitiu que Jinnie as rastreasse. "E pensar que eu confiei em você."
A lâmina estava mais quente do que o olhar frio e duro com que Jinnie encarava Elspeth. Embora ela ainda estivesse respirando, para Jinnie, ela estava morta.
"Eu estava tentando —"
"Poupe-me de suas mentiras", disparou Jinnie. "Você está aliada ao Adversário?" O fio de sua faca mordeu o pescoço de Elspeth.
"Nunca."
Jinnie sondou com seu olhar. Finalmente acreditando nela, perguntou: "Então, por quê?"
"Eu estava mantendo Giada segura."
"Mentirosa. Você queria a Fonte para si mesma." Jinnie empurrou a faca para frente. Um pouco mais, e ela atingiria a veia no pescoço de Elspeth. Elspeth nem sequer ousou engolir.
"Jinnie, não cabe ao Jetmir decidir como lidamos com traidores?" Giada encontrou sua voz. Mágoa e confusão passaram pelo rosto de Jinnie. Elspeth olhou para Giada. Ela sabia o que estava fazendo ao defendê-la? Mas Giada claramente estivera aprendendo com os Cabaretti enquanto empunhava habilmente suas palavras. "Deixe que ele decida o que fazer com as duas. Ele sempre tem a cabeça fria. Mas #emph[estou] #emph[tão feliz] em ver você de novo. Obrigada por me salvar."
O aperto de Jinnie relaxou, e a faca se afastou da garganta de Elspeth. "É bom ver você também. Pensei que tivéssemos perdido a Fonte para sempre."
"Eu estou bem aqui." Giada sorriu fracamente.
"Sim." Jinnie exalou a raiva, com a cabeça mais fria prevalecendo. Mas quando olhou de volta para Elspeth, o mesmo ódio ainda ardia. "Algeme-as. Vamos levá-las de volta para Jetmir."
"Vamos voltar para o Vantoleone?" Giada se levantou.
"Não, está comprometido. Vamos para amigos", respondeu Jinnie ambiguamente. "Nenhuma família quer ver o Adversário tomar Nova Capenna para si. E agora que a Fonte está segura mais uma vez, temos uma moeda de troca para garantir que os outros trabalhem conosco."
"Todos podemos sair vivos desta." O tom gentil de Jinnie estava em forte contraste com os homens algemando rudemente Elspeth e Vivien.
Elspeth sentiu um formigamento de magia queimar seus pulsos enquanto eram travados no lugar. Vivien parecia estar seguindo o exemplo de Elspeth. Ela prestou atenção cuidadosa ao homem Cabaretti que recolheu sua espada, mantendo seus protestos atrás de lábios firmemente cerrados. Concordar com isso, por enquanto, era a melhor maneira de permanecer perto de Giada.
"E então você poderá trazer equilíbrio ao nosso plano", concluiu Jinnie.
Giada assentiu, os lips pressionados em uma linha dura. Jinnie agarrou sua mão, e os olhos de Giada voltaram-se para Elspeth, que inclinou o queixo lentamente.
CARTOMANTE
Elspeth e Vivien trocaram olhares cautelosos enquanto eram escoltadas pelo Mezzio. Elspeth não ousava dizer nada com os Cabaretti tão perto. Ela encontraria um momento tranquilo para se reagrupar com Vivien quando chegassem a esse "lugar seguro".
O aroma de sândalo e laranja provocou o nariz de Elspeth.
"Jinnie", chamou Elspeth, parando onde estava.
"Continue andando." Um dos Cabaretti a empurrou. Elspeth tropeçou para frente, tentando usar isso para esconder os passos largos que agora usava para diminuir a distância entre ela e Jinnie.
"Este é um esconderijo Obscura", disse Elspeth.
"Você acha que eu não sei disso?" Jinnie arqueou as sobrancelhas. "Quem você acha que são meus amigos?"
O coração de Elspeth começou a acelerar. "Você estava no Crescendo. Os Maestros, Cabaretti e Arrematadores — cada família foi infiltrada. Isso pode ser uma armadilha."
"Ao contrário de #emph[você] , alguns são realmente leais." Jinnie parou diante de uma porta e bateu. Era idêntico à batida que Elspeth usara ao entregar o pacote de Xander.
Elspeth deu um passo atrás para ficar ao lado de Vivien, encontrando seus olhos. "Fique alerta", murmurou Elspeth. Vivien assentiu. Elspeth não tinha exatamente a maior fé na capacidade de Jinnie de identificar um seguidor leal em oposição a alguém operando em seu próprio interesse. Afinal, ela pensara que Elspeth não passava de uma bajuladora ansiosa.
A porta se abriu antes que Jinnie pudesse dizer mais nada, revelando uma mulher cefálida em um sobretudo azul-marinho adornado com ouro. Suas roupas e chapéu cloche eram de fabricação semelhante aos dos Obscura para quem Elspeth entregara o pacote. Os pelos da nuca de Elspeth se arrepiaram.
"Kamiz," Jinnie disse com alívio. "Como está Jetmir?"
Arte de: Chris Rallis
"Estável, embora enfermo. Vejo que vocês garantiram a Fonte. Excelente, eu sabia que conseguiriam. Entrem, antes que alguém as veja."
"Obrigada por nos oferecer refúgio." Jinnie entrou, com os outros a seguindo.
"Quem são elas?" Kamiz olhou entre Elspeth e Vivien.
"Traidoras — as que levaram a Fonte. Jetmir saberá como melhor lidar com elas."
Entraram em uma área de recepção com uma mesa e algumas cadeiras. Atrás de uma cortina havia uma mesa quadrada coberta com um pano de seda azul-marinho. No centro da mesa havia uma grande bola de cristal e um baralho de cartas. Kamiz afastou uma cortina para revelar uma porta secreta que se abria para uma sala nos fundos muito maior. A julgar pelos caixotes e estantes que sem dúvida continham segredos preciosos, era um local de descanso para espiões Obscura.
"Vejo que vocês tiveram sucesso." Jetmir estava acomodado em um beliche inferior, uma curandeira Cabaretti cuidando dele. A mulher se afastou quando Jinnie correu até lá.
"Pai, como você se sente?"
"Você se preocupa demais." Foi uma não resposta. Mesmo do outro lado da sala, Elspeth podia ver que os olhos de Jetmir estavam opacos. Havia um forte cheiro de sangue no ar, um pano saturado descartado ao lado de sua cama. Ele precisaria de um milagre para sobreviver.
"Giada, venha, #emph[venha] ." Jinnie acenou para a jovem, vasculhando uma bolsa de suprimentos e tirando um pequeno frasco. "Por favor, cure-o."
Giada pegou o frasco, e seus olhos se fecharam. Houve um pequeno brilho de luz, e Giada balançou, estendendo o Halo para Jinnie. O frasco nunca teve a chance de trocar de mãos.
Tanto a porta pela qual haviam entrado quanto a porta dos fundos foram arrombadas ao mesmo tempo, revelando uma dúzia de brigões com aventais e roupas de trabalho pesadas. O caos irrompeu.
"Arrematadores?" Jinnie virou-se, sua expressão azedando instantaneamente em puro ódio. "Arrematadores #emph[traidores] ."
Vivien aproveitou o momento. Ela fechou as duas mãos em punhos e girou em direção ao homem que ainda segurava seu arco — braços retos como um aríete — para atingi-lo em cheio no rosto. Seu arco caiu no chão, e ela o pegou. Ainda algemada, ela era incapaz de atirar com ele, mas podia, e usou, para golpear o outro Cabaretti na têmpora.
Elspeth forçou poder em suas mãos. Ele fez o ar ao redor de suas algemas brilhar. Com um pensamento, sua magia quebrou as fechaduras, e le metal caiu no chão com um clangor. Balançando a mão, ela lançou o feitiço em direção a Vivien, e as algemas de sua aliada caíram também.
"Onde você estava escondendo esse truque?" Vivien avaliou, recolhendo a espada de Elspeth do homem caído e jogando-a para ela.
Elspeth pegou a lâmina pela bainha. "Tentei manter um perfil baixo e guardar minhas habilidades para quando realmente precisasse delas. Agora parece ser o momento."
"Que bom que você finalmente se juntou à luta adequadamente." Vivien mudou sua pegada no arco, alcançando uma flecha em sua aljava. "Pegue a Giada. Eu vou abrir caminho."
"Obrigada." Elspeth avançou, desembainhando sua espada enquanto um brilho verde surgia.
Giada estava encurralada com Jinnie e Jetmir. Jinnie estava lutando bem, mas estava em enorme desvantagem numérica contra os assassinos Maestro e os brigões Arrematadores.
Elspeth não ia esperar para descobrir.
Ela correu para a direita, balançando sua espada em direção ao Arrematador que erguia seu martelo acima da cabeça. Sua lâmina atingiu o ombro dele, e ele deixou cair a arma antes que pudesse golpear. Em sua periferia, outro avançou sobre ela. Ela agarrou o braço dele e o desarmou. Enganchando a adaga dele com a ponta do sapato, ela a atirou para cima, agarrando o cabo a tempo de aparar outro ataque. Um terceiro estava avançando contra ela, e Elspeth se esquivou, afundando o cotovelo nas entranhas dele enquanto recuava para estocar com a lâmina, enterrando-a entre as costelas do primeiro atacante.
A luta era claustrofóbica. Cada movimento que Elspeth fazia tinha que levar em conta as ações de vários outros. Além disso, ela tinha que ficar de olho em Giada. Elspeth fizera uma promessa de que manteria Giada segura até seu último suspiro.
Mas havia gente demais, e ela mal conseguia distinguir amigos de inimigos. Era apenas uma questão de tempo até Elspeth cometer um erro. Ela se esquivou do golpe de um homem, recuando para ganhar distância suficiente para balançar sua pesada lâmina. Ela não viu a marreta até que fosse tarde demais.
Ela esmagou suas costelas enquanto Elspeth se esforçava para erguer sua espada, tirando o fôlego dela. Ela podia sentir seu peito comprimir, ossos quebrarem. Elspeth tossiu sangue. Uma adaga atravessou seu ombro. Os gritos de Giada estavam distantes.
Ela conhecia esse frio. O rastejar do dedo frio e ossudo de Érebo subindo por sua espinha. Ele o envolveria em seu pescoço e o seguraria até que o último suspiro a deixasse.
Justo quando sua visão se estreitou, o homem que estava se preparando para desferir o golpe final em Elspeth desabou. As roupas de trabalho foram substituídas por um verde profundo, o casaco prático que Vivien usava. Uma nova figura apareceu enquanto os sons da batalha diminuíam.
Um braço envolveu os ombros de Elspeth, erguendo-a. Um par familiar de olhos escuros olhava preocupado.
"Giada?" Elspeth piscou, tentando entender o que via.
"Tome isto." Giada enfiou algo na boca de Elspeth, não lhe deixando escolha a não ser engolir.
O calor irradiou através dela. Seus ossos se moveram, unindo-se. As feridas cicatrizaram. Mãos invisíveis montaram seu corpo quebrado novamente, restaurando lentamente a consciência e a clareza e sacudindo o aperto de Érebo. O mundo nunca parecera tão nítido. As luzes estavam mais brilhantes e —
"Giada~" Elspeth tocou levemente a bochecha da jovem. "Você está radiante."
Os lábios de Giada se abriram ligeiramente de surpresa. "Você também vê?" ela sussurrou.
"Eu —" Elspeth não teve chance de perguntar se "isso" era a aura nebulosa que cercava Giada.
"Por aqui!" Kamiz gritou.
Jinnie agarrou Giada, erguendo-a pelo braço. "Não ajude #emph[elas] , temos que fugir."
"Espere." Elspeth estava de pé novamente, o Halo surgindo em suas veias tornando-a ágil e forte mais uma vez. "Nós também vamos."
"Você acha —" A raiva de Jinnie foi interrompida pois ela teve que se esquivar de um ataque. Ela praguejou alto e olhou entre Elspeth e seus soldados Cabaretti caídos. "Tudo bem. Você é boa demais em uma briga. Acompanhe, e não tente nenhuma gracinha."
Lideradas por Kamiz, elas escaparam por um beco nos fundos, com Arrematadores e Maestros avançando atrás delas. Elspeth e Vivien ficaram na retaguarda, contendo os atacantes. Eventualmente, ninguém mais as seguiu.
"Acho que os perdemos." Jinnie deu um suspiro de alívio.
"Rápido, entrem aqui." Kamiz abriu uma porta, e todos mergulharam em uma escuridão quase total. "Estes são túneis Obscura", explicou ela enquanto caminhavam com dificuldade para cima, serpenteando por Nova Capenna. "Nós os usamos para nos locomover sem sermos vistos."
"Como você sabe que eles não estão comprometidos?" Vivien roubou a pergunta de Elspeth.
"Não sei", respondeu Kamiz honestamente. "É por isso que precisamos continuar nos movendo."
"Para onde estamos indo?" perguntou Jinnie.
"Alturas do Parque. A principal fortaleza Obscura, o Pináculo das Nuvens. Se não for seguro lá, não estaremos seguras em lugar nenhum."#figure(image("009_Episode 5: Hymn of the Angels/03.jpg", width: 100%), caption: [Arte por: Sam White], supplement: none, numbering: none)
CATEDRAL DE PARK HEIGHTS
Enquanto continuavam a subir, Elspeth pegou a mão de Giada e deu um leve aperto. #emph[Obrigada por me salvar], Elspeth articulou em silêncio, esperando que Giada pudesse ver na luz tingida de azul que emanava das tiras ao longo do topo das paredes. Os lábios da jovem se curvaram em um sorriso cansado, e ela assentiu. Enquanto os dedos de Elspeth escorregavam dos dela, a atenção de Giada permaneceu em sua própria mão.
Giada deslizou lentamente um bracelete de seu pulso e olhou entre Jinnie e Elspeth. Depois de confirmar que o foco de Jinnie estava à frente, ela deixou o bracelete cair e apontou para ele, articulando duas palavras, #emph[Feitiço de rastreamento].
Elspeth esmagou o bracelete sob sua bota. Giada estivera fazendo as mesmas perguntas que atormentavam Elspeth sobre como Jinnie as encontrara. Uma onda de orgulho percorreu Elspeth. Giada era esperta, tornando-se mais forte e mais confiante a cada momento. O gesto de se livrar do bracelete também era toda a confirmação que Elspeth precisava para saber que Giada ainda queria ir com ela. Na primeira oportunidade, Elspeth a levaria embora novamente.
A passagem chegou a um beco sem saída.
Kamiz abriu uma porta, e os familiares aromas terrosos de Park Heights as saudaram. Elspeth piscou sob a luz da tarde, já ficando irritada com um crepúsculo que prometia ser tão sangrento quanto Nova Capenna.
"Falta pouco", disse Kamiz, liderando através de sebes cuidadosamente aparadas. "Bem por aqui."
Vivien parou de repente. Elspeth ouviu passos e o tilintar de armas também.
"Espere, é uma ar—"
Giada e Jinnie já haviam dobrado a esquina das sebes.
"Qual o significado disso?" gritou Jinnie.
Vivien preparou seu arco, virando-se para os executores Obscura que as cercavam por trás. Elspeth confiou nela para proteger sua retaguarda enquanto corria à frente.
Mais executores Obscura esperavam em uma clareira. Jinnie já havia se engajado com eles enquanto uma Kamiz ferida tentava rastejar para longe dos pés de Jinnie. Jinnie sem dúvida voltara sua fúria contra Kamiz imediatamente ao perceber sua decepção.
Tudo isso fora uma armação. Os Obscura estavam tão comprometidos quanto todos os outros. A luta no esconderijo fora apenas uma desculpa para separá-las dos outros Cabaretti e atraí-las para uma armadilha. Mas ela apostaria que Kamiz não contara com Elspeth e Vivien ainda estarem por perto.
"Vamos." Elspeth agarrou Giada.
"Mas Jinnie—"
"Ela fez sua escolha." Elspeth praticamente carregou Giada no colo. "Temos que sair ou vamos morrer."
Giada obedeceu.
Arte por: Ekaterina Burmak
Com Vivien em sua retaguarda, elas correram pelo parque, galhos se estendendo, arranhando seus rostos e braços enquanto disparavam em busca de um alívio. #emph[Que haja um lugar seguro nesta cidade, um santuário], Elspeth implorou silenciosamente aos deuses cruéis e indiferentes. Elas emergiram de volta em um caminho que conectava a uma catedral próxima, suspensa sob estátuas de anjos.
"Ali dentro." Elspeth decidiu, entrando no ante-recinto. Seus passos desaceleraram enquanto ecoavam na nave.
A catedral era uma obra-prima. Inúmeras estátuas de anjos ladeavam os corredores que levavam ao transepto. Cada um tinha as mãos para cima, alcançando as claraboias acima que os destacavam com uma coluna de luz solar cortando a sombra relativa da própria catedral.
Elspeth piscou várias vezes. Não era um truque de luz. Essas estátuas emitiam seu próprio brilho. Muito parecido com Giada. Como—
Ela olhou para as palmas das mãos. Como não tinha visto isso até agora? Mais fraca que as outras~mas Elspeth também estava emitindo a mais tênue névoa dourada.
"Você ouve?" sussurrou Giada.
"Sim."
O coro ressoava das profundezas de cada estátua. Reverberava pelo coro e pelo deambulatório para preencher toda a catedral com um réquiem solene. Não havia palavras, apenas som, forjado do tumulto e de uma dor tão profunda que fez os olhos de Elspeth arderem. Uma soprano aguda voava sobre os demais, cantando notas em uma linguagem de esperança imprudente de que todos eles precisavam desesperadamente.
Era calor e bondade. Era gratificante, mas saudoso. Era~
"O que é isso?" sussurrou Elspeth.
"Minha família. Estou em casa", disse Giada reverentemente, como se atingida por uma clareza inesperada.
Arte por: Eric Deschamps
De repente, a palavra "casa" ganhou significado. Elspeth compartilhou um longo olhar com Giada, que ostentava um sorriso enigmático. Ela irradiava como os anjos da catedral. Sua própria forma parecia pertencer aqui, como se fosse uma peça finalmente retornando ao seu lugar.
"Casa", ecoou Elspeth. Casa era propósito. Era defender aqueles que precisavam dela. Ajani estivera certo; casa nunca fora sobre um lugar. E pela primeira vez, Elspeth sentiu que encontrara algum lugar onde pertencia—encontrara propósito, alguém e algo em que acreditar e defender.
Um estrondo baixo preencheu a catedral e interrompeu a canção, seguido por passos trovejantes. Elspeth virou-se para ver um homem colossal e chifrudo. Duas asas de membrana, da cor de sangue envelhecido, estendiam-se atrás dele.
O Adversário.
"Fique atrás de mim, Giada." Elspeth sacou sua espada.
"Você realmente achou que poderia escapar de #emph[mim]?"
"Que bom que você se mostrou, Ob Nixilis." Vivien não esperou por uma resposta. Ela disparou a primeira flecha.
Ob Nixilis esmagou o punho direto no rosto do lobo fantasmagórico. Ele se dissipou com um ganido. Vivien tinha duas novas flechas prontas quando mais executores se alinharam na catedral atrás dele.
"Cuide dele, eu lidarei com o resto. E cuidado, ele é #emph[como nós]!" gritou Vivien. #emph[Um planeswalker], ela quis dizer. Elspeth apertou sua espada com mais força.
"Corra", rosnou Ob Nixilis enquanto Vivien passava. Sua voz era lixa e fogo. "Brinque com meus agentes até que eu esteja pronto para atormentá-la." Ele manteve seu foco apenas em Elspeth e Giada, ostentando um sorriso cruel. Autossatisfeito. Como se tudo fosse graveto para ele queimar. "Você achou que poderia me vencer? Vou lhe mostrar o que acontece com as pessoas que ousam me contradizer—que sequer pensam em ficar no caminho do meu poder. Assim que a Fonte estiver em minha posse, acabarei com as duas, uma de cada vez, #emph[lentamente]."
Arte por: Slawomir Maniak
Elspeth podia sentir o imenso poder irradiando dele. "Giada, se as coisas derem errado, corra. Faça isso antes que eu caia", sussurrou Elspeth. "Vou segurá-lo o máximo que puder, mas você deve fugir enquanto eu o distraio."
Ob Nixilis moveu-se com a velocidade de um homem muito mais ágil. Elspeth assumira incorretamente que todos os seus músculos volumosos o tornariam lento. Mas usando suas asas para equilíbrio, ele conseguia se impulsionar para frente a velocidades alarmantes.
"Vou me divertir destruindo você!"
Elspeth concentrou-se em ataques defensivos. Ela precisava cansá-lo. Ele a vencia em força e velocidade, e sua única chance era usar isso contra ele.
Sempre que via uma abertura, ela desferia estocadas ou cortes. Mas não conseguia nada mais do que golpes de raspão. O suficiente para sobrecarregar e frustrar. Mas não o suficiente para desacelerar ou parar. A espada era grande demais para ela e difícil de manejar. Ela tinha que esperar pela abertura certa se apresentar.
Atingindo seu limite de tolerância para as diversões dela, Ob Nixilis liberou uma explosão de poder. Ela disparou dele, enviando Elspeth voando para trás. Sua cabeça bateu contra a pedra, e tudo girou. Náusea subiu de seu estômago.
"Giada", ofegou Elspeth. Ela inclinou a cabeça para trás, mas isso apenas fez mais estrelas surgirem em sua visão. "Corra."
"Não, não há para onde eu correr." Giada flutuava; sua forma estava se tornando nebulosa, brilhando ainda mais intensamente do que antes.
Os passos estrondosos de Ob Nixilis aproximaram-se. Sua risada áspera sacudiu os ossos de Elspeth. "Primeiro, você. Depois a Fonte. Depois o outro planeswalker~e então nada me deterá."
"Corra", implorou Elspeth, os olhos ardendo. Ela jurara que protegeria Giada. Encontrara dever e propósito apenas para ser recebida com mais fracasso.
"Não tema mais por mim, Elspeth. Há mais para mim lá fora—vou estar com minha família agora." Giada aproximou-se do lado de Elspeth, ajoelhando-se. Ela era mais um contorno de magia cintilante agora do que um ser físico.
O foco de Giada permaneceu apenas em Elspeth. "Obrigada, por tudo. Encontrei minhas respostas. Deixe-me protegê-la agora." Ela ergueu o queixo e parecia exatamente como o restante dos anjos esculpidos. "Estou pronta", sussurrou ela para ouvidos invisíveis.
A luz preencheu a sala. Ela disparou em todas as direções do corpo de Giada, a força da explosão forte o suficiente para arremessar Ob Nixilis para longe. Elspeth, no entanto, não foi afetada. Ela assistiu maravilhada enquanto Giada era transformada na magia radiante de Halo.
Arte por: Eric Deschamps
Elspeth respirou aquilo, permitindo que cobrisse sua pele como uma armadura e afundasse em seus ossos. O canto retornou, um coro completo em que cada parte estava em perfeita harmonia. Atingiu um verdadeiro crescendo de alegria, como se para sobrepor os gritos da celebração Cabaretti que ousara usar o mesmo nome.
Lentamente, enquanto as luzes giratórias começavam a desaparecer, Elspeth sentou-se. Ob Nixilis gemeu, ainda prostrado. Vivien e os homens do lado de fora também estavam de costas. Elspeth se perguntou se a transformação de Giada havia atordoado toda Nova Capenna.
Elspeth ouviu Ajani nas palavras de Giada. Seu amigo ainda falava com ela, através do tempo e do espaço. Seus olhos se fecharam e ela suspirou suavemente.
Elspeth abriu os olhos e levantou-se. Em um movimento fluido, ela içou a espada ao seu lado. A arma não era mais uma espada larga e desajeitada. Havia sido transformada em uma arma mais estreita, muito mais adequada em comprimento e peso para sua estrutura. O pomo não era uma guarda de aço prática, mas uma orbe de Halo, brilhando com cores que mudavam com tanta frequência que eram todas as cores ao mesmo tempo.
O Halo infiltrou-se na lâmina, subindo pelos sulcos no centro. Do meio até as bordas, a arma brilhava com a mesma luz tênue que Giada. Elspeth levou o punho ao nariz, lâmina vertical, sabendo que, de alguma forma, em algum lugar, Giada assistia à saudação e poderia completar sua metamorfose agora que Elspeth levaria adiante seu voto.
Elspeth defenderia Nova Capenna.
Arte por: Volkan Baga
Ela avançou, empunhando sua nova espada com ambas as mãos. Ob Nixilis mal teve tempo de rolar para longe de sua estocada. Enquanto se esquivava, ele ergueu uma mão, apontando para ela. Ela podia sentir a magia se acumulando no ar e evitou por pouco o disparo dele.
Impulsionada pelo Halo e pelo propósito, empunhando a lâmina presenteada por Giada, Elspeth podia lutar de igual para igual com o poderoso Adversário. Seus golpes não eram mais desajeitados e de raspão, mas propositais e habilidosos.
Ela sentia-se como seu antigo eu. #emph[Não.] Estes não eram os movimentos da mulher que ela fora um dia. Estes eram os movimentos de alguém mais forte, melhor. Quem ela fora significava pouco quando comparado a quem ela se tornaria.
Ob Nixilis ficava cada vez mais frustrado toda vez que ela desferia um golpe nele. Ele rugiu, esquivou-se para trás e tentou erguer a mão para mais um ataque. Elspeth não permitiu. Ela fechou a distância, golpeando direto em seu queixo.
No último segundo, ele tentou sair do caminho, mas não foi rápido o suficiente. O aço encontrou a carne, e ela atingiu o lado de seu pescoço. Ob Nixilis engasgou, embora isso só tenha piorado o ferimento. O sangue fluía entre seus dedos enquanto ele aplicava uma compressão fútil. Elspeth recuou, determinada a golpear novamente. Ela cortaria seus dedos se fosse isso o necessário para terminar o serviço.
Mas Ob Nixilis cambaleou para trás. O ar oscilou, distorcendo tudo ao seu redor. Ele se dobrou sobre si mesmo, colapsando a forma de Ob Nixilis além do reino da percepção. Em um piscar de olhos, ele se fora, tendo transplanado para longe.
Elspeth olhou para o lugar agora vazio onde Ob Nixilis estivera. Vários xingamentos estavam prestes a escapar de seus lábios quando um gemido a trouxe de volta à realidade. #emph[Vivien!] Elspeth correu até a entrada, ajudando sua amiga a se levantar. Vivien massageava a cabeça.
"O que aconteceu?"
"Giada salvou todos nós. Mas Ob Nixilis escapou. Isso está longe de terminar."
EPÍLOGO – MUSEU
Elspeth e Vivien subiram os degraus do museu. Sem surpresa, as cinzas já haviam sido limpas. Mas ainda havia marcas de marcas no mármore do salão principal. Os Maestros estavam trabalhando duro para reconstruir seu museu.
"Eu as esperava." Anhelo atravessou de onde estivera dando ordens a alguns membros mais jovens da agora bem menor família.
"Esperando por mim?" perguntou Elspeth, com a mão descansando levemente no pomo da espada de Halo presa ao seu cinto. Ela não veio aqui para lutar. Mas não estava prestes a aceitar um não como resposta quando se tratava de finalmente obter acesso aos arquivos de Xander.
"Sim. Encontrei isto costurado no meu casaco na noite do Crescendo. Assim que li, voltei imediatamente, mas já era tarde demais~embora tenha me poupado do banho de sangue no Vantoleone." Anhelo pescou uma carta de seu bolso. Ela ostentava o selo de Xander. Elspeth a desdobrou, lendo seu conteúdo:
"Ele sabia que eu viria." Elspeth leu a carta mais duas vezes antes de devolvê-la a Anhelo.
"Xander sempre soube o que aconteceria em Nova Capenna, muitas vezes antes de qualquer um de nós." Anhelo cruzou as mãos nas costas. "Por aqui."
Ela seguiu Anhelo pelo museu até o escritório de Xander. Ele puxou uma cortina no canto oposto da sala para expor uma porta. Destrancando-a, ele gesticulou para que Vivien e Elspeth entrassem.
"Qualquer coisa nos arquivos de Xander é sua. Venha quando quiser." Anhelo deixou-as.
Elas passaram o dia pesquisando e vasculhando. Nenhuma página foi deixada de lado. Anhelo foi gentil o suficiente para trazer-lhes almoço~e jantar, enquanto o crepúsculo descia sobre a cidade.
Histórias de Capenna escondidas no escritório de Xander contavam a história: No passado distante, os Phyrexianos tentaram invadir este plano. Os anjos tentaram deter a invasão, mas a ameaça era grande demais para eles enfrentarem sozinhos. Em desespero, formaram uma aliança com os Senhores Demônios. Diante dos Phyrexianos, as próprias rivalidades de Capenna eram insignificantes; no entanto, essas rivalidades não seriam esquecidas. Os demônios acabaram traindo os anjos, prendendo-os em um tipo de estase do qual podiam converter os corpos dos anjos em Halo, uma essência que—como Xander lhe dissera—podia ser usada para ajudar a proteger a cidade. Foi complicado, mas funcionou. Os Senhores Demônios usaram Halo para derrotar os Phyrexianos e depois desapareceram.
Halo fora a chave. Se manteve os Phyrexianos sob controle aqui~esta poderia ser a resposta que Ajani buscava, mesmo que o estoque de Halo estivesse diminuindo. Felizmente, entre os arquivos havia um pequeno estoque de Halo que Xander sem dúvida estava guardando para um dia difícil. Este parecia ser o dia mais difícil possível. Elspeth o levaria, junto com todas as informações, de volta para Ajani e as Sentinelas.
Elspeth e Vivien estavam lado a lado, olhando pela enorme janela no mesmo lugar que Xander estivera. Elas não diziam uma palavra há horas. O silêncio estava preenchido com revelações e conhecimento.
"Nova Capenna continuará a lutar por Halo", disse Elspeth finalmente. "O suprimento está quase esgotado e, se secar, eles se destruirão." Sua mente vagou brevemente para Giada e as figuras brilhantes com as quais a jovem partira. Os anjos retornariam a Nova Capenna para inaugurar uma nova era se a cidade estivesse em extrema necessidade? Ou todos haviam partido para algo maior?
"Há mais neste plano do que uma cidade. Se o destino de Nova Capenna é se destruir, então a natureza o recuperará. A vida persistirá neste plano." As palavras de Vivien não foram frias, mas pensativas. Talvez até destinadas a ser tranquilizadoras de que #emph[algo] prosperaria muito depois da queda da cidade.
"Mesmo assim, não posso virar as costas para eles."
"Você nunca poderá mantê-los seguros se ficar. Os Phyrexianos agora são uma ameaça para todos."
"Eu sei", disse Elspeth.
"Mas agora podemos combatê-los", disse Vivien, com um aceno para a espada de Elspeth e depois para o estoque de Halo escondido de Xander. "E se Urabrask estiver falando a verdade~"
"O que ele lhe disse?"
Vivien cruzou os braços. "Revolução." Ela franziu a testa em pensamento intenso. "Em Nova Phyrexia. Isso pode nos dar a janela de que precisamos para detê-los."
Ela era forte o suficiente? Tinha escolha? Alguém tinha? Tudo o que ela queria era descansar, mas como poderia se afastar da batalha agora? Ela tinha que voltar para Dominária e contar a Ajani tudo o que aprendera, mostrar-lhe o Halo e preparar-se.
"Devemos ir", declarou Elspeth.
"Para onde?"
Elspeth ficou satisfeita ao ver que Vivien parecia pronta para continuar esta jornada com ela. Se a guerra estava chegando, ela poderia usar mais aliados poderosos.
"Dominária." Elspeth virou as costas para a silhueta da cidade de Nova Capenna. "Hora de encontrar alguns velhos amigos."
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5 de Abril de 2022 | Por Rhiannon Rasmussen
Blues do Gato de Beco
Kitt colocou a bolsa de couro no ombro, sentiu os frascos de Halo se movendo sob sua jaqueta e se perguntou como havia se metido nessa confusão para começar — ela, apenas uma musicista de rua de pequeno porte do metrô, cantando por uns trocados.
Arte de: Thomas Stoop
Claro, o metrô não era a parte mais cheirosa de Nova Capenna, nem de longe, mas o trabalho lhe garantia o sustento. As pessoas subiam e desciam aquelas escadarias de mármore desgastadas como se os trens as inalassem e exalassem em ondas. Kitt havia escolhido o canto com melhor acústica da Estação Lower Bassomer naquela manhã, de costas para os balaústres de ferro. Antes de começar, ela sempre se dava alguns minutos de escuta para captar o clima do momento, o ritmo dos pés, o bater sincopado das conversas, o estrondo lânguido enquanto os trens desaceleravam até parar e depois seguiam seu caminho com o clique-claque, #emph[ba da dum ba da dum ba da dumbadi dumbadi dum] .
Os pombos sempre se acomodavam em fila nas vigas, com os olhos brilhantes voltados para ela. Mesmo quando ninguém lhe atirava uma moeda, os pombos lhe dedicavam sua atenção extasiada. Ela começava a cantarolar, depois a cantar, improvisando e harmonizando com o fluxo de som. Todas as melodias antigas soavam melhor com a vida de Nova Capenna como sua seção rítmica.
Lá estava ela, sem uma única alma parando para ouvir ou agraciar sua voz e presença com uma moeda, então ela começou a favorita dos pombos, "Birdnest Berceuse". Todos se agitaram animadamente, as asas se eriçando enquanto ela fazia suas variações pela ponte, brincando com uma mudança de tom simplesmente pela alegria de lançar sua voz em voo. Por que não? Ninguém estava lhe prestando atenção.
E então, exatamente como nos filmes, um homem grande e bem-vestido — leonino, como ela, mas três vezes o seu tamanho e vestindo um casaco deslumbrante e caro em tons de joias de que a pequena Kitt ficou com inveja no momento em que o tecido chamou sua atenção — esse figurão parou bem na frente dela. Ele a observou pensativo, sua expressão de dois tons ilegível. Ele estava enojado? Impressionado? Entediado? Estava ele batendo levemente um sapato impecavelmente polido em apreciação? Seus nervos estremeceram e, por um instante, Kitt pensou que perderia o ritmo e explodiria em um voo frenético como os pássaros faziam quando se assustavam, mas ela aguentou firme. Já havia passado por coisas piores.
Ela conduziu a melodia até sua cadência final e terminou com um floreio: um último trilo e o gesto de uma mão para o alto enquanto cantava a frase final, "em nosso aconchegante ninho para dois".
Os pombos arrulharam.
O homem grande colocou a mão no bolso, e ela pensou que ele talvez fosse até lhe dar uma gorjeta de verdade. Em vez disso, ele tirou um cartão de visitas, oferecendo-o a ela enquanto a olhava fixamente nos olhos. Seu olhar era de âmbar fundido, com apenas um movimento de orelha de emoção no olhar de leão.
Sua voz possuía uma autoridade rouca. "Parece-me que uma irmãzinha como você só precisa de uma chance."
Bem! Não era isso que ela estava sempre dizendo a si mesma?
Ela aceitou o cartão com um ronrom educado, desejando que fosse dinheiro vivo em vez disso. Até que ela olhou para a escrita ornamentada que trazia um único nome: #emph[Jetmir] .
"Chefe Jetmir!" Kitt exclamou, chocada a ponto de perder a compostura.
Arte de: Ryan Pancoast
"O próprio", disse ele com uma afabilidade preguiçosa que não a enganou nem um pouco. O chefe dos Cabaretti não era amigo de ninguém. Mas ele mudava vidas, de um jeito ou de outro. "A vaga de abertura no Quarto Vermelho hoje à noite é sua, pequena cantora. Se você completar um pequeno favor para mim. Você aceita?"
O Quarto Vermelho no Vantoleone — se ela aceitava!
Então foi assim que ela se viu em um trem da Ponte Nuvemponta pela primeira vez em toda a sua triste vida, segurando firme a bolsa de mensageiro que ele lhe dera. Ela continha um estoque ilegal de Halo para entrega a um agente Cabaretti nos Altos do Parque, mas ela havia transferido todos os frascos para os bolsos internos costurados em sua jaqueta para que não chacoalhassem tanto. Mais importante, a bolsa continha um vestido, envolto em papel de seda, para sua estreia.
"Uma cantora precisa do visual certo", Jetmir dissera.
Ela deslizou a mão sob a aba para acariciar a seda fresca, o tecido mais caro que já havia tocado. Aquela suavidade acetinada era a textura do sucesso. Ela simplesmente sabia.
Então ele perdeu o sorriso amável e acrescentou: "Loja de Doces Herculaneum na Praça da Ponte Superior. Peça por Henzie. Esteja no Vantoleone às sete. Se não estiver, outra cantora irá em seu lugar."
Ela usara o bilhete que ele lhe dera, um bilhete que ela jamais poderia pagar, e fizera a transferência na Estação Upper Bassomer para um trem de terceira classe com destino às glórias dos Altos do Parque. O trem começou a chocalhar subindo pelo nível mais baixo da Ponte Nuvemponta, com os níveis movimentados do Mezzio sob seus pés e o glamour dos Altos do Parque esperando por ela acima como um pedaço do céu.
Ela verificou o relógio posicionado acima da porta que conectava ao compartimento traseiro e sorriu com satisfação. Ela tinha tempo de sobra para fazer a entrega nos Altos e voltar ao Mezzio para a apresentação. Pela primeira vez, ela não pareceria uma gata de rua suja e deslavada cujas roupas de trapo eram mantidas unidas por alfinetes tortos e cadarços de bota descartados. Ela pareceria a estrela que sabia que poderia ser, toda em verde cintilante com detalhes dourados enquanto os rostos da plateia se voltavam para ela em adoração.
Toda a sua vida, ela sonhara em sair da maldita fornalha de Caldaia, longe das ruas iluminadas dia e noite por lanternas esfumaçadas porque a luz do sol nunca alcançava as profundezas industriais sombrias.
Jetmir estava certo. Ela só precisava de uma chance, e o homem grande lhe entregara uma. Era assim que os Cabaretti trabalhavam. Uma vez que você estava na família, você estava dentro.
Parada perto da frente do vagão lotado, Kitt balançava e se acotovelava entre vampiros de olhos brancos, elfos de rosto formal, um diabo malicioso acompanhado por um trio de leoninos austeros e bem-arrumados vestidos com uniformes de criadas, e um bando de ogros suados indo para algum trabalho de força bruta entre os ricos. Os trabalhadores que trabalhavam nos Altos do Parque tinham que estar limpos e asseados, mas, mesmo assim, este era um trem de terceira classe lotado. O cheiro pungente de todos aqueles corpos era suficiente para eriçar seus pelos. Havia um único assento vago, mas ninguém estava sentado lá porque um indivíduo desconhecido havia deixado para trás uma poça de gosma brilhante. Por sua cor azulada, o culpado provavelmente era um cefálida.
A família Cabaretti não viajava em trens de terceira classe que tinham que compartilhar os trilhos com cargas pesadas de mercadorias. A "família" conseguia assentos nos trens de segunda classe que circulavam no nível acima, ou, se fossem importantes o suficiente na família, nos trens de luxo de primeira classe que corriam como centopeias douradas e gordas ao longo do gracioso convés superior da Ponte Nuvemponta.
Kitt sentaria naquele trem de primeira classe algum dia; ela olharia para o horizonte sobre a cidade cintilante, mostraria apenas uma fresta de sorriso de presa para seu reflexo na janela polida, e todo o céu seria seu. Ela só precisava deixar sua marca.
Quais músicas ela deveria escolher? Quatro, Jetmir dissera. Seu número da sorte. Primeiro um ritmo vibrante e atrevido como "Wiggle Waggle Boom!" enquanto ela desfilava para o palco no vestido que a marcaria como A Coisa Real, uma cantora para atrair o olhar deles, um deleite saboroso para aguçar o interesse.
Ela seguiria com um número grandioso e vibrante para mostrar sua extensão vocal. "Seja um Anjo e Erga-me em Suas Asas" serviria. Os pombos amavam aquela quase tanto quanto amavam "Birdnest Berceuse", que seria a balada romântica doce perfeita para seu terceiro número, um pouco sentimental e na medida certa de popular para pessoas que nunca usaram um sapato sujo ou reviraram o jantar em uma lata de lixo em suas vidas.
E para uma impressão duradoura no quarto, um verdadeiro encerramento espetacular —
Com um solavanco, o trem parou morto. Ele deu um tranco para frente com um suspiro, parou novamente e soltou um chiado prolongado. As pessoas ao seu redor ficaram em silêncio da mesma forma, todas com a respiração suspensa. Quando o trem não partiu e nenhum anúncio foi transmitido, um murmúrio de ansiedade percorreu a multidão. Um rhox beligerante golpeou as portas, que não abriram porque o trem estava parado entre as estações — não havia nada além de trilhos e grades de serviço entre eles e a queda para Caldaia. A essa altura, o trem estava empoleirado acima do nível principal do Mezzio. As janelas fumês davam para um crepúsculo marcado por luzes no topo das muitas vigas e telhados do Mezzio e pelas linhas retas dos enormes pilares que sustentavam a cidade, subindo da esfumaçada Caldaia até os Altos do Parque. Mais perto dos trilhos, os onipresentes e cintilantes ninhos de pombo, tecidos com gravetos e fios, brilhavam com uma tintura de Halo.
Aqui e ali, o brilho vermelho opaco de Caldaia era visível através de buracos e frestas no nível múltiplo do Mezzio. Era uma longa queda naquele fosso. Kitt se recusava a voltar. Ela tinha que fazer essa chance funcionar, subir no plano. Ser a estrela que sabia que poderia ser.
Mas este trem de terceira categoria jazia morto nos trilhos, e ela estava presa junto com todos os outros passageiros. Quanto tempo levaria para os mecânicos chegarem? Pela janela mais próxima, ela conseguia ter vislumbre da linha ao longo da passarela de manutenção, mas não havia movimento, ninguém vindo verificá-los. Poderiam trazer outro trem nos trilhos ao lado? Os passageiros teriam que caminhar pela passarela de emergência de volta para Bassomer e então pegar um novo trem para subir? Quanto tempo isso levaria?
Kitt verificou o relógio acima da porta de conexão na frente do vagão. Mesmo com todo o barulho no vagão, ela conseguia ouvir o tic-tac fatídico do ponteiro dos segundos #emph[tic. . .tic. . .tic. . .] , cada segundo que passava uma minúscula e lenta dança de um corte contra sua pele. Sua #emph[única] #emph[grande] #emph[chance] .
Não. Ela não desistiria. Com um brilho nos dentes e um empurrão com o ombro, ela se espremeu para mais perto de uma das janelas, tentando passar pelo diabo. Se conseguisse abrir a janela, poderia sair e subir pela passarela de manutenção. Ela já havia percorrido distâncias maiores em sua vida.
"Cai fora, gata de beco!" sibilou o diabo.
As três criadas, todas em fila, curvaram os lábios para mostrar as presas para ela, mas Kitt flexionou os ombros e se eriçou para parecer maior. Ela já havia arranhado carnes mais duras que elas. As orelhas delas baixaram.
O diabo a cotovelou com força. "Eu disse, afaste-se!"
O golpe atingiu a bolsa em vez de suas costelas, a pressão afundando no precioso vestido lá dentro com um ruído de papel de seda amassado.
"Cuide da sua vida", Kitt rosnou.
O sorriso malicioso do diabo não era tanto beligerância, mas sim bravata, pelo modo como ele recuou com um suspiro assustado, achando que seus chifres e rosto feio eram suficientes para intimidá-la. Improvável! Graças aos anjos, ela havia movido os frascos de Halo para sua jaqueta, longe de perigo! Mas mesmo quando a pressão cessou, o ruído de papel amassado cresceu tanto que outros começaram a notar e a se virar.
Toda conversa cessou, então explodiu em um crescendo enquanto todos falavam ao mesmo tempo. O que foi aquilo? Uma colisão? Fogos de artifício? Kitt não tinha tempo para isso!
Um segundo #emph[boom] mais agudo soou mais alto, maior, sacudindo todo o trem. O estrondo da explosão chocou os ouvidos, seguido por um #emph[vuco!] de ar, como o maior órgão de tubos do plano, que respingou partículas de sujeira contra as janelas. Pombos aninhados nas vigas mais próximas levantaram voo em uma explosão de asas.
Os pássaros não foram os únicos assustados. A multidão na extremidade traseira do vagão, mais próxima do barulho, entrou em pânico, empurrando e se acotovelando em direção à frente, onde mais pessoas já estavam espremidas dente com focinho, chifre com queixo. Kitt não tinha um poste ou banco para se segurar, nem mesmo uma parede com janela para se apoiar, então a inundação crescente a forçou para frente, e ela mal se manteve de pé quando um ogro de terno tropeçou contra ela. Passos de ferro soaram além da porta fechada como a perdição se aproximando. A porta para o compartimento traseiro guinchou, arrancada por um braço poderoso empunhando uma chave inglesa do comprimento de um pé de cabra.
Um viashino grande e musculoso, vestindo o boné de carvão dos Riveteiros, abaixou-se pela porta e parou, pairando sobre os passageiros agora aterrorizados. Seu olhar brilhava com fogo interior, seu focinho escamoso com fogo literal. O diabo perdeu seu sorriso malicioso e se encolheu atrás de suas criadas.
"É uma caldeireira!" murmurou o diabo. Uma de suas criadas o calou antes que a Riveteira ouvisse o apelido rude e se ofendesse.
Arte de: Andreas Zafiratos
A viashino bateu a grande chave inglesa contra uma palma carnuda. Suas palavras lentas, deliberadas e lambidas pelo fogo eram pontuadas por estalos da chave.
"Eu estou apenas deixando todos vocês, finos ovos, saberem que se não quiserem ser quebrados hoje, prestarão atenção. Vocês foram atrasados porque minha equipe está sob ordens para desmontar os trilhos à frente e atrás deste trem. Como sabem, usamos apenas os métodos de engenharia mais sofisticados."
Outra explosão soou. #emph[Dinamite] . Os ricaços nos Altos do Parque ficariam furiosos quando suas cargas e seus servos não chegassem a tempo. O que valia tanto para os Riveteiros agirem de forma tão pesada?
"Agora, poderíamos acelerar este processo com um pouco de ajuda de um voluntário sortudo." #emph[Estalo!] Mas nem uma alma deu um passo à frente. "Eu sei que vocês sabem quem são e o que fizeram. Então não pensem que vão escapar fácil." Fogo verde lambeu o ar enquanto a viashino rugia as palavras seguintes, apontando com a chave para os passageiros trêmulos e assustados. Até os ogros pareciam prontos para molhar as calças. "É por isso que não se cruza o caminho dos Riveteiros!"
Como se alguém precisasse de um lembrete disso! Kitt manteve seu focinho bem fechado. Este não era o momento de ser uma espertinha. Alguém não pagando suas dívidas aos Riveteiros não era problema dela, e ela não queria descobrir de quem era o problema. Ela encolheu o traseiro, enfiou uma bota entre outros pés e deslizou meio passo para longe da Riveteira que cuspia fogo. A viashino era uma dama grande, ousada e vibrante, se ela já tivesse visto uma, um verdadeiro torpedo. Melhor sair de alcance, se pudesse, e descobrir como seguir seu caminho em vez de ficar presa em algum negócio escuso.
"Pois bem!" rugiu a Riveteira enquanto examinava a multidão com um olhar aguçado demais, como se já soubesse o que estava procurando. Seu olhar de bordas vermelhas parou nas três criadas todas em fila. "Há algo que nosso velho amigo Henzie nos deve, e ele sabe disso, mesmo que não queira admitir."
Estalo fez a chave contra a palma. Os passageiros mais próximos da viashino recuaram, mas não havia para onde fugir. Um segundo viashino apareceu na porta do compartimento, não tão grande, então provavelmente um macho, carregando um martelo. O vagão ficou tão quieto quanto um rato de igreja pouco antes da coruja o engolir.
A primeira viashino mostrou todos os dentes, e eles eram muito brancos, fortes e pontiagudos. "É o seguinte, meus bons ovos. Recebemos a notícia de que nosso velho amigo Henzie interceptou algumas de nossas mercadorias e as passou para uma mocinha leonina para transporte. Ouviu isso, minha pequena ronronante? Você pode se mostrar agora, entregar o pacote, e nós a deixaremos seguir seu caminho tão leve quanto um porco satisfeito depois que a festa na lama termina. Que tal, boneca? Nós, Riveteiros, não invejamos a pá de uma garimpeira, mas este não é o monte que lhe pertence. Então seja um ovo sábio, e não haverá mais problemas."
No vagão de trem apertado, as pessoas se viraram para olhar as três criadas leoninas enquanto Kitt encolhia os ombros para se tornar menos visível. Ela conseguira se afastar do diabo e agora estava espremida entre o traseiro de um vampiro e os joelhos de um humano com aparência chocada em roupas de lojista, sentado no banco de costas para uma janela. Todos ainda olhavam para a viashino ou para as criadas, embora o vampiro estivesse começando a farejar como se tivesse captado o cheiro de cinzas de Caldaia ao redor de Kitt.
Os frascos se moveram sob seu braço nos bolsos acolchoados costurados em sua velha jaqueta, porque às vezes uma garota tinha que transportar quinquilharias de carga ilícita para pagar o aluguel. Seria tão fácil dar um passo à frente, confessar, entregar os frascos e dar o fora dali.
Se os Riveteiros a deixassem ir. Não havia garantias quanto a isso, havia? E então ela teria que lidar com os Cabaretti, talvez até com o próprio Jetmir. Quando ela se lembrava de seus olhos de âmbar e de sua maneira confiante de ocupar espaço, ela sabia que as perguntas que ele faria não seriam gentis. Com um chefe daqueles, a decepção poderia matar. E se fosse apenas a vida dela, bem, era uma coisa. Ela tinha uma carreira em jogo.
Mesmo que ninguém encostasse uma lâmina em sua carne, a chance de Kitt no holofote do canto que ela merecia estaria acabada. Sua carreira? Em ruínas. Claro, ela poderia continuar cantando para os pombos na estação de metrô, com uma moeda ou duas atiradas para ela, mas que tipo de vida era essa para uma leonina com orgulho? De qualquer forma, pensando bem, ela tinha muito mais confiança em sua habilidade de superar um brutamontes de um viashino e seus amigos Riveteiros do que em trair os astutos Cabaretti e aquele Jetmir, que vira o que ela poderia ser.
Músicos tinham que ser tão rápidos em seus pés melódicos quanto qualquer mensageiro veloz dos Altos do Parque voando de um pináculo a outro, então Kitt tomou sua decisão ali mesmo.
"Ei, #emph[você] é uma leonina", sussurrou o vampiro como se tivesse levado todo esse tempo para seus pensamentos lentos registrarem a presença de Kitt.
Com um forte movimento de quadris, ela empurrou o vampiro para o lado, derrubando-o contra um par de ogros, então pisou no calcanhar do lojista. O humano gritou de dor, curvando-se, o que permitiu que Kitt agarrasse seus ombros e o lançasse do banco de cabeça no vampiro, que bateu nos ogros novamente. Com um rugido, os ogros esqueceram a viashino ameaçadora e se enfureceram com grunhidos e pragas, xingando o vampiro. As pessoas começaram a empurrar, apertar e gritar enquanto lutavam para se afastar desta nova altercação.
Kitt pulou no banco e, com um impulso nos ombros e uma explosão de adrenalina, abriu a janela.
"Lá vai ela!" bradou um barítono estrondoso.
Sem tempo para descobrir quem estava apontando o dedo! Kitt pulou pela janela, uma proeza fácil o suficiente para uma garota com muita prática em escapar de situações complicadas. Ao aterrissar com as patas macias nos trilhos, ela olhou de um lado para o outro, avaliando sua melhor rota. Correr de volta para Bassomer a levaria direto para seus perseguidores, mas quando ela se virou para subir, viu uma multidão de mecânicos fervilhando no trem que estava circulando meia milha à frente. Os entusiasmados Riveteiros estavam literalmente desmontando o casco externo cintilante do vagão como formigas removendo o exoesqueleto de um besouro gigante. Uau, eles realmente queriam esse Halo, e ela estava presa no meio de seus planos implacáveis. Bem! Ou você nadava ou afundava, e esta gata não ia se afogar hoje.
Que rota restava? Os níveis superiores da ponte eram longe demais para pular, e ela não podia voar. Isso deixava os telhados do Mezzio e as vigas e canos com tantos pombos empoleirados observando os acontecimentos com interesse atento. Havia um telhado com jardim a cerca de três metros de distância e cinco abaixo da borda do trilho, portanto, ao alcance. Além dele, ela poderia ser capaz de pular e agarrar uma das vigas, depois correr ao longo de sua extensão estreita até o telhado do Salão da Guilda dos Mercadores e descer por uma de suas estátuas pomposas e entrar no Mezzio por ali.
A porta do vagão de trem se abriu a cerca de vinte passos dela. A grande viashino saltou para os trilhos com um baque sólido que ela sentiu em seus ossos. Aquele olhar de fogo mirou direto nela. "Como vai ser, boneca? Pelo jeito fácil ou pelo difícil?"
Músicos de rua sabiam quando ignorar provocações. Deslizando um pé após o outro para longe do bruto, Kitt entoou o início de "Seja um Anjo e Erga-me em Suas Asas" e percebeu um ruído de interesse dos pombos, centenas de olhos escuros se voltando para ela. Os pássaros foram seu primeiro público, e ela aprendera que havia muito mais nos pombos de Nova Capenna do que as pessoas percebiam. Como os pombos cuidavam dela em troca das melodias que desejavam. Alertavam-na de problemas vindo. Os pombos não eram apenas cabeças de vento. Os anjos haviam deixado fios e gravetos de poder por todos os altos e baixos da cidade, e as pessoas sempre ignoravam os habitantes menos chamativos e mais onipresentes dos níveis. Até os pássaros poderiam ser tocados pelos poderes misteriosos do Halo.
Ela pulou, encolhendo-se primeiro para ganhar velocidade e depois relaxando para atingir o telhado em um agachamento flexível, firme em seus pés. Mas ela não deu um único suspiro antes que o telhado estremecesse sob o peso chocante da viashino, seguida por um par de machos menores. Quem diria que aqueles brutamontes poderiam ser tão ágeis!
Kitt correu para o lado oposto do telhado. Uma explosão de dinamite como fogos de artifício ocorreu entre as vigas, espalhando os pombos em uma revoada de asas furiosas e assustadas. Ninhos foram pulverizados, despedaçados, palha flutuando para baixo com faíscas e flashes de brilho tocado pelo Halo. Da grade, ela viu uma plataforma de construção a uma distância de salto, esta apoiada sobre um telhado inacabado. Os três viashinos se aproximaram atrás dela, espalhando-se para que ela não pudesse passar correndo por eles até a escada que levaria para dentro do prédio. Sem escolha agora. Kitt subiu na grade e pulou novamente. Era uma queda maior, o vento assobiando em seus ouvidos e ondulando em seus pelos. Ela atingiu a plataforma, encolheu-se e rolou sobre um ombro e voltou a ficar de pé para absorver o impacto.
Baques sacudiram a plataforma enquanto os três viashinos a perseguiam. Kitt correu para a borda da plataforma, mas não havia viga ao alcance, nenhum pináculo rochoso, nenhuma rota para o telhado do Salão da Guilda, apenas uma longa queda através das frestas dos edifícios e níveis do Mezzio até o brilho vermelho opaco lá embaixo. As pessoas diziam que os gatos sempre caem de pé, mas esta gata não podia voar. Se saltasse desta altura, estaria morta.
Kitt virou-se, com as costas pressionadas contra a grade de proteção, a bolsa apertada contra o peito.
A grande Riveteira sorriu enquanto o fogo verde lambia ameaçadoramente seu focinho. "Você não pode superar a velha Ognis, gatinha. Uma engenheira como eu planeja cada truque possível. Você ouviu o estalo da minha armadilha? Agora entregue a mercadoria. Esta é sua última chance, porque estou com um cronograma rigoroso hoje."
E #emph[era] sua última chance. Kitt não ia voltar para Caldaia, nem hoje, nem nunca. Ognis e seus comparsas poderiam ser engenheiros, mas Kitt tinha muita prática em cair de pé quando a queda parecia terrível.
"Grandes palavras, periquito", disse Kitt, encarando Ognis direto em seu olhar ardente. "Melhor garantir que você não cozinhe seus próprios ovos." Ela inalou e cantou bem na cara assustada deles, pulando direto para o segundo verso, afastando-se da chama lambente da viashino como se estivesse fazendo uma curva naquele palco dos Cabaretti. "Seja um anjo e erga-me em suas asas, lembre-me de como seu amor me leva até o #emph[céu] #emph[acima] ~"
Equilibrada na borda, com o Mezzio e a velha e suja Caldaia lá embaixo, Kitt parou e estendeu a bolsa para fora da grade. Ah, doía fazer aquilo, mas ela não tinha escolha. Ela encontrou o olhar de Ognis com um olhar firme e próprio. "Você quer isto, caldeireira? Então pode ir buscar."
Abrindo a mão, ela soltou a bolsa. A boca de Ognis se abriu, e a dama fogosa deu um #emph[bufo] completo de espanto e descrença. Mas Kitt não esperou que os Riveteiros recuperassem o fôlego. Ela escalou a grade, parou lá equilibrada por um instante, porque isso era tudo o que ela tinha, enquanto mergulhava na música novamente.
"Seja um anjo —"
Ela cantou. Ela abriu os braços.
Ela saltou no vasto abismo de ar, ainda cantando.
E os pombos se agruparam, eles enxamearam, eles se uniram para formar uma grande nuvem de penas cinza e brancas. Eles a pegaram em meio às suas centenas de asas cintilantes e a ergueram mais e mais, até a borda inferior dos Altos do Parque. Até um pequeno estacionamento na extremidade onde um atendente vampiro cochilava em uma cadeira vigiando um esquadrão de carros luxuosos.
Os grasnidos e pios do bando acordaram o vampiro, piscando com os olhos lentos enquanto Kitt tropeçava no convés sólido e se situava com um assobio de agradecimento. Os pássaros giraram para o céu e se dispersaram.
Ela segurou o parapeito e olhou para baixo. Nunca estivera tão alto e, por um momento, perguntou-se se teria tempo de voltar para o Mezzio ou até para Caldaia para procurar aquela bolsa. Aquele vestido lindo e de alta classe.
Um susto foi o suficiente. Pena que ela não estaria lá para ver as caras dos viashinos quando descobrissem que tinham sido enganados!
Um relógio tocou, então badalou a hora com um vibrante #emph[bing bang bing bang bing bang] .
Ela tinha apenas uma hora, e precisava encontrar Henzie, fazer a entrega e voltar para o Mezzio, tudo sem ser vista por mais Riveteiros vorazes.
"Hein?" disse o atendente vampiro, que claramente não havia absorvido Halo ou sangue suficiente recentemente. "O que foi? Pare aí, delinquente!"
"Sem tempo para conversa", Kitt gritou e saiu correndo pelo portão do estacionamento.
Jetmir lhe dera um mapa dos Altos do Parque junto com a bolsa. Ele era justo assim, mesmo que a tivesse lançado direto no caldeirão fervente, fosse para testá-la ou porque não queria sacrificar um de seus tenentes de confiança. Bem! Ela mostraria a ele do que era feita!
As pessoas sofisticadas dos Altos do Parque e seus servos de aparência sóbria olharam duas vezes para uma gata de rua maltrapilha correndo pelas amplas avenidas. Ela não tinha tempo para passear, ficar boquiaberta ou olhar fixamente para as vitrines luxuosas, os vestidos glamourosos e as pernas elegantes, os edifícios refinados e as praças magníficas onde a luz do sol tocava os rostos daqueles afortunados o suficiente para viver no topo da pirâmide. Não, ela teria tempo para isso mais tarde, quando fosse a joia da coroa.
A loja de doces de vitrais e casca de besouro ficava a dois quarteirões da Estação da Ponte Crossponte, um lugar onde as pessoas do Mezzio podiam comprar lindos bastões de açúcar e pirulitos infundidos com Halo para o longo dia de trabalho, e onde os aventureiros do grupo dos Altos do Parque podiam experimentar as balas agridoces de marrubio que as mães sobrecarregadas de Caldaia usavam para aliviar a dor da fome na barriga de seus bebês.
Ela entrou desfilando e encontrou um cliente examinando uma prateleira de puxa-puxa. Um diabo baixo estava sentado atrás de um balcão, um homem que parecia um chicote de hortelã. Ele tinha o cabelo pomadado para trás para combinar com seus chifres, um nariz que fora quebrado vezes demais e uma lente de joalheiro no lugar do olho direito.
Arte de: Johannes Voss
"Estou procurando por Henzie", disse Kitt.
O proprietário a olhou de cima a baixo, mas esperou até que o cliente saísse e o sino da porta tocasse antes de dizer, secamente: "Perdeu a bolsa, hein, gatinha?"
"Eu tenho o que você quer." Um por um, com um floreio, ela colocou os frascos, contou-os em voz alta e deu um passo atrás, esperando.
"Vou ser tio de uma ostra." Henzie inclinou a cabeça enquanto uma expressão de respeito se instalava em seu rosto magro.
"Não achou que eu conseguiria, achou?" disse Kitt, mostrando um pouco da presa. "Você tem um bilhete para mim?"
Ele a observou por mais um momento, depois assentiu, tirou um canhoto de papelão impresso do bolso do terno e o deslizou sobre o balcão.
Ela o agarrou. "Espero que não se importe se eu não ficar por aqui jogando conversa fora. Tenho um palco para pegar."
"E um vestido esmeralda chique para ofuscá-los, se não me engano", disse ele com um olhar curioso para os braços vazios dela.
Ela não pensou nisso — não podia pensar nisso — enquanto corria para a estação. Pombos voavam acima como batedores, e ela manteve os olhos atentos a qualquer sinal de Riveteiros.
Na estação, um par de viashinos de boné de carvão — não o torpedo ou sua gangue — espreitava perto da entrada principal. Um bando de pombos circulou em uma massa grasnante como se algum benfeitor tivesse espalhado alpiste nos pés dos vigias Riveteiros. Enquanto a dupla agitava os braços para cobrir a cabeça e praguejava como trovões, Kitt passou correndo, de cabeça baixa, e pegou o próximo trem no momento em que as portas se fechavam. Os trilhos faziam seu clique-claque em seu ritmo ágil, uma batida para acalmar a alma agitada.
O vestido se fora, com certeza. Mas ela ainda tinha sua voz e sua apresentação para deixar sua marca. E não fora isso que chamou a atenção de Jetmir na primeira vez? #emph[Com certeza] , a voz dentro dela ronronava que ela não poderia aparecer como uma gata de rua em uma festa de alta classe, #emph[mas é tudo brilho por aqui. Você tem que ter ambos para ter sucesso, gatinha.]
Com a jaqueta balançando, Kitt correu da Estação Mezzio, escorregando, deslizando e abrindo caminho com os cotovelos pelas multidões nas ruas pós-expediente. Aromas ricos saíam dos restaurantes recebendo as pessoas para os aperitivos da noite. Escriturários e advogados riam de forma óbvia com bebidas em bares da moda. Ela não tinha relógio, não tinha como saber a hora e não tinha tempo para desviar para um dos pilares de relógio situados nas praças. Ela apenas correu e ofegou até a porta dos fundos do Vantoleone exatamente no momento em que ela se abria e um porteiro robusto com as cores dos Cabaretti saía.
Arte de: Bud Cook
"Você é a cantora?" Ele a olhou de cima a baixo com uma careta cética. "Não são os trajes que eu imaginei, mas você #emph[está] exatamente na hora. Seis minutos para o show."
Seis minutos! Kitt deu ao homem seu melhor sorriso atrevido porque ele parecia do tipo amigável, ou pelo menos um que não julgaria até ter que te jogar para fora da porta. "Você pode dar uma palavra ao maestro? Minha lista de músicas."
"Claro, gatinha."
"É Kitt, se me permite", disse ela com dignidade. "Kitt Kanto." Comece como pretende continuar, e ela pretendia continuar.
Enquanto Kitt entrava pela passagem dos fundos, uma bela elfa em um vestido vermelho escuro veio deslizando como luz brilhando sobre uma poça de óleo. Suas feições perfeitas se curvaram em um desdém enquanto ela, também, olhava Kitt de cima a baixo.
"Você não é o que Jetmir me deu a entender. Eu tenho um certo padrão para o meu palco. Ele me garantiu que você tem o tipo certo de visual para o Quarto Vermelho. Não há um vestido?"
Kitt estufou o peito e deu um movimento confiante nas orelhas. "Eu tenho meu número todo planejado. Com certeza será um sucesso com este público sofisticado. Há um camarim, senhora? Como devo chamá-la?"
A carranca da Vestido Vermelho era suave e gelada. "Faremos as apresentações depois, já que você está atrasada."
"Tive um probleminha, mas tudo deu certo."
"Teve, é? Jetmir e eu fizemos uma aposta se você conseguiria chegar. Por aqui."
A elfa a conduziu por um corredor. Risadas e o rugido de conversas animadas ecoavam da frente da casa, onde muitas pessoas esperavam o show começar.
"Cinco minutos para o show, e depois dois minutos de introdução, esse é todo o tempo que você tem para se preparar para a performance", disse a elfa com um erguer de sobrancelha condescendente, claramente duvidando que Kitt estaria algum dia apta para o palco do Quarto Vermelho. Os minúsculos sinos amarrados às tranças escuras da elfa tilintaram musicalmente, e Kitt cantarolou um pequeno contraponto, o que fez a elfa olhar para trás surpresa antes de fechar a porta.
O camarim era luxuoso o suficiente para um ato de abertura, com um sofá, uma mesa de maquiagem e espelho, e um biombo para se vestir. Era pequeno, mas muito mais chique do que seu quartinho enfiado em um armazém abandonado em Caldaia. Luzes brilhantes queimavam em cada lado de um grande espelho. Seu reflexo olhou de volta. Ela estava suja e suada, e sua jaqueta tinha um rasgo na bainha que ela não notara, sem falar nos cotovelos remendados e penas presas em seu pelo. Não adiantava chorar sobre o leite derramado. Descendo a Ponte Crossponte, ela decidira que só restava uma opção: Ser quem ela era e fazer isso cantar.
Enquanto fazia uma série rápida de exercícios vocais para aquecer a voz, ela se livrou da jaqueta, desabotoou os dois botões superiores da velha camisa de estivador que usava, limpou as penas, arrumou o penteado e espalhou a sujeira em seu rosto para dar um visual mais teatral, como se fosse uma atriz interpretando uma gata de rua. Depois de pensar melhor, ela pegou a pena mais vistosa, uma com um pouco de brilho de Halo, e a prendeu em uma das casas de botão.
Uma batida soou na porta. Ela se abriu um pouco. Vestido Vermelho espiou e falou com a dicção precisa de um indivíduo muito irritado por ter que lidar com o lixo que apareceu à sua porta. "Você entra agora, Senhorita Kanto."
Kitt seguiu a elfa até as coxias do palco. Um leve ruído chegou aos seus ouvidos. Quando olhou para cima, viu pombos — tantos pombos — reunidos nas vigas na escuridão. Como haviam entrado? Do mesmo jeito que ela, com uma asa e uma aposta.
"E agora", disse um anunciante sem corpo, "para seu prazer: Senhorita Kitt Kanto."
Kitt assumiu sua melhor atitude de rua enquanto a banda tocava os compassos iniciais de "Wiggle Waggle Boom!". As luzes da casa foram baixadas, mas ela tinha a habilidade de gato de ver no escuro e, caramba, havia Riveteiros na plateia, até aquela viashino torpedo. Abençoadas sejam suas estrelas flamejantes! Foi impressão de Kitt, ou os olhos da velha Ognis brilharam com raiva frustrada ao reconhecer a cantora desfilando no centro do palco com arrogância?
Kitt pontuava cada #emph[boom!] com um gingado atrevido de quadris. Os druidas Cabaretti adoraram. Não havia amor perdido entre eles e os Riveteiros, afinal! Ao final da música, os Cabaretti uivaram de rir, e os Riveteiros ficaram carrancudos. Até os pombos piaram, depois se eriçaram com orgulho enquanto a banda passava para "Seja um Anjo", e depois disso se acomodaram com contentamento para "Birdnest Berceuse".
Para seu número final, ela mudara de ideia seis vezes no trem dos Altos do Parque até o Mezzio antes de decidir jurar sua lealdade e desferir um golpe pelos Cabaretti ao mesmo tempo. Era uma aposta. Se perdesse, e saísse daqui sem um contrato, nem mesmo uma gata de rua com sua esperteza duraria muito tempo uma vez que os Riveteiros a rastreassem. Como fariam, a menos que ela vencesse — ah, sim, a menos que ela vencesse.
A orquestra fez a transição para uma variação acelerada de uma melodia clássica que Kitt pedira especialmente em sua lista de músicas. Ela sabia como mudar letras na hora, e essa canção era dedicada a todos os Riveteiros na plateia — mas especialmente para Ognis.
O crescendo final rolou através de uma cascata de tambores e sua última nota, em tom perfeito. Então uma respiração suspensa, prolongada em um longo silêncio. Acima, os pombos piaram excitados, o som subitamente abafado por um rugido de aplausos e até alguns assobios.
Kitt fez sua reverência e estava prestes a deixar o palco, tremendo de exaustão e alívio, quando a cortina na coxia se mexeu e uma figura corpulenta saiu graciosamente sob o holofote. Jetmir caminhou pelo palco, levantando uma mão que trouxe ao teatro um silêncio total de se ouvir um alfinete cair.
"Grande voz! Grande espírito! O que me dizem, irmãos e irmãs?" Aplausos sustentados e vivas entusiasmados encheram a casa, interrompidos quando ele novamente levantou a mão. Seu olhar tocou a elfa parada logo fora do palco, e ele acenou para sua gerente de palco com uma mensagem silenciosa, depois voltou-se para o auditório. "Veremos a Senhorita Kitt Kanto novamente amanhã à noite, com um destaque maior e mais algumas músicas."
Ele deu um aceno para Kitt, disse ao líder da banda: "Que tal um bis de 'Birdnest Berceuse'?", e saiu do palco.
Por um momento, ela ficou sem voz. Sem fôlego. Mas não, ela o ouvira direito. Ela passara no teste dele com distinção.
Cabaretti, aqui vamos nós. Ela estava dentro. Não era mais uma gata de rua, a Senhorita Kitt Kanto era agora uma ave canora de alta classe cantando no lugar mais chique da cidade. O céu era o limite!
Das vigas acima, os pombos arrulharam.
Arte de: Fariba Kamseh
3 de Maio de 2022 | Por Lora Gray
Um Jardim de Carne
"Aqui, na Ortodoxia das Máquinas, há perfeição. Aqui, há bênção."
Enquanto dizia isso, sua voz sintetizada ecoando pelo pátio da Basílica Imaculada, Elesh Norn, regente phyrexiana e Mãe das Máquinas, sentiu a luz daquela verdade no fundo de seu corpo sagrado e mecanizado. A Ortodoxia das Máquinas era o único caminho para a unificação definitiva, um caminho tão puro, infalível e inegável quanto seu próprio óleo reluzente.
Quando olhou para a reunião de phyrexianos de seu estrado, sua armadura brilhando na luz leitosa, Norn nunca estivera tão certa disso. Aqui estavam os emblemas do poder que ela facilitara: a Basílica Imaculada, suas torres, seus pináculos de metal como porcelana, grandes catedrais arqueando-se em direção ao céu, sinuosas, delicadas e arejadas. Estandartes carmesim ondulavam em pontes e torres, destacados contra as estruturas brilhantes e as lajes do pátio.
Os fiéis phyrexianos, seus rostos mecanicamente alterados voltados para ela, sua consciência tecida através da dela, estavam ansiosos para que ela falasse. Eram o seu povo, cultivados em casulos de nascimento. Eram seus filhos adotivos, capturados de exércitos oponentes, aquelas criaturas outrora pobres e lastimáveis que viveram tanto tempo cobertas por uma pele vil e inalterada, agora idealizadas com partes mecânicas. O ar cheirava a seus novos corpos. Metálico. Cortante. Limpo. O canto distante das orações phyrexianas, centenas de vozes sincronizadas, fluía ao redor de tudo aquilo.
Devido Respeito | Arte de: James Ryman
Como alguém poderia negar a beleza disso? A retidão? A verdade absoluta?
E, no entanto, a mirraniana que ela segurava diante de si ainda lutava. Era um esforço tolo. O topo do cabelo escuro e emaranhado da mulher mal chegava ao ombro de Norn. A carne sob seus dedos longos e garreados era lastimavelmente fraca, e ela meramente apertou o aperto para subjugá-la. Ela gritou, seus braços e pernas, amarrados juntos, retesando-se enquanto o sangue brotava da ferida que Norn havia feito.
Os humanos eram coisas tão falhas e frágeis.
Norn considerara deixar que os sacerdotes das cubas e emendadores começassem as alterações desta mirraniana enquanto ela se dirigia à assembleia. Ela não tinha dúvidas de que fariam um trabalho admirável. Mas a Ortodoxia das Máquinas estava crescendo e se expandindo rapidamente.
Qual a melhor forma de ensinar seus filhos, senão pelo exemplo?
"Agora é o momento da unidade." Norn levantou a voz, fria e suave como a brisa que soprava pelos terrenos da Basílica. "Vejam esta criatura imperfeita. Mesmo ela, uma abominação orgânica, é digna da misericórdia da Ortodoxia. Mesmo ela pode ser abençoada."
Norn empurrou a mirraniana em direção à borda do estrado. Ela cambaleou em seu aperto, ofegante e implorando, uma exibição agitada e vergonhosa. Algo nela, o cabelo escuro, o ângulo de seus olhos, a quadratura de sua mandíbula, cutucava as bordas da memória de Norn. Ela já havia encontrado essa humana antes? Duvidoso. Ela certamente teria transformado a criatura piedosa se o tivesse feito.
Era quase inédito alguém escapar da Ortodoxia das Máquinas.
Norn apertou a mão. "Em breve, esta humana miserável será libertada do fardo do medo. Nós a esfolaremos. Removeremos a carne que a prende a este corpo fraco. Então, ela também se juntará a nós na unificação total com nosso propósito e vontade divinos."
Houve uma mudança de som, um estrondo profundo que Norn nunca ouvira antes, vindo de todos os lados. O que poderia ser senão o poder da fé phyrexiana, suas vozes sintéticas aprofundando-se em oração? O som ressoou enquanto ela levantava a mão livre, dobrava seu dedo longo e garreado e perfurava seu pulso.
Por um momento, o céu pálido pareceu escurecer, como se estivesse nublado por fumaça, mas a atenção de Norn estava fixa no óleo reluzente que fluía de seu pulso, de seu próprio corpo, a fonte mais pura possível. A multidão inclinou-se para frente como um só corpo, seus olhos brilhando enquanto observavam o óleo fluir da ferida para a cabeça e os ombros trêmulos da mirraniana. Ele lubrificou seu cabelo, cobrindo a nuca. Ela se debateu quando ele penetrou na ferida ali e gritou, o som agudo e orgânico. Irritante. Logo aquelas cordas vocais seriam substituídas e imaculadamente calibradas, e sua voz se juntaria às outras em reverência.
Ela gaguejou e engasgou enquanto o óleo reluzente a sufocava, preenchia-a, seu corpo contraindo-se enquanto o óleo começava a fluir de sua boca escancarada e dos cantos de seus olhos abertos.
Ao redor de Norn, o estrondo aumentou.
Ela segurou a mirraniana pela nuca para que todos vissem. "Vejam a perfeição."
Mas em seu aperto, a mirraniana estremeceu, um movimento orgânico que borbulhou do centro de seu corpo em ondas súbitas e desiguais. Não havia nada mecânico nisso, nenhum ritmo medido de alteração sagrada. Em vez disso, a carne sob a mão de Norn inchou. Ela rolou e se contorceu como se as vértebras ósseas pressionando sua palma estivessem tentando empurrá-la para longe.
O corpo da mirraniana arqueou, uma convulsão tão violenta que Norn quase a deixou cair, e uma corda polposa de material orgânico, uma raiz de madeira fibrosa, sinuosa e alienígena, rompeu o ventre da humana. Sangue, não naturalmente espesso e fétido, escorreu sobre o estrado. Ele se acumulou sob os pés de Norn, uma abominação retorcida de seu próprio óleo reluzente, enquanto mais raízes surgiam da boca aberta da humana, arrancando dentes e língua para o lado, rompendo suas órbitas oculares e contorcendo-se no ar.
Elesh Norn ficou tão perplexa que levou um momento para reagir. Com um estalo e um clarão de luz branca, ela transformou uma parte de sua armadura de porcelana em uma lâmina estreita e cortou a garganta da mirraniana com um único golpe. Seu corpo sem vida desabou aos pés de Norn, uma pilha de raízes não naturais, sangue e vísceras.
Não havia sinal de mudança ou maquinário. Havia apenas corrupção não natural.
Isso nunca deveria ter acontecido.
Abaixo dela, os cânticos dos phyrexianos hesitaram, embora aquele estrondo profundo permanecesse, rolando baixo através de sua confusão.
Norn recompôs-se, mantendo-se ereta enquanto reabsorvia sua lâmina de porcelana. "Testemunhem este exemplo e tenham piedade dela", disse ela, sua voz calma, embora sua mente estivesse cambaleando, percorrendo cada probabilidade, cada explicação possível para o que acabara de acontecer. "Ela era um receptáculo tão corrupto que nem mesmo nosso óleo reluzente pôde salvá-la. Aqui está a prova de que devemos espalhar nossa doutrina rapidamente, para que todos possam ser salvos."
Mas mesmo enquanto dizia isso, Norn teve que lutar para se recompor.
Nada do que acabara de acontecer fazia sentido.
O óleo reluzente nunca deveria ter falhado.
A luz pálida da Basílica Imaculada brilhava sobre suas cúpulas e pináculos, tornando-os de um branco prateado frio, seus estandartes de um preto retinto, quando Elesh Norn retornou ao pátio.
Ela não se demorara após o incidente com a mulher mirraniana. Ela apenas permanecera o tempo suficiente para ordenar que o corpo inchado com suas raízes carnais fosse removido, para ser dissecado e descartado. Norn caminhara graciosamente daquele estrado para demonstrar que estava, de fato, ainda no controle. Ela se movera com propósito sereno de volta para a Basílica como se tivesse antecipado o fracasso de sua demonstração, a erupção daquelas raízes do corpo trêmulo daquela humana. Mas ela nunca vira tal coisa.
Mesmo quando administrado por um phyrexiano sem seu poder considerável, os efeitos do óleo reluzente eram previsíveis. Ele apagava coisas inúteis — memória, apegos, desejos — e reordenava mentes orgânicas caóticas em padrões perfeitos. Embora o óleo frequentemente vazasse dos olhos, nariz e outros orifícios antes que os emendadores e sacerdotes das cubas fizessem seu trabalho substituindo matéria orgânica por maquinário, o próprio óleo nunca induzia convulsões. Certamente nunca engrossava o sangue ou causava a ruptura do corpo.
O óleo era o mais sagrado dos elementos. Sua graça era autoevidente.
Então, o que, exatamente, dera errado?
Nenhum humano jamais seria poderoso o suficiente para resistir ao óleo reluzente por si mesmo, apesar do que Norn dissera à assembleia.
Elesh Norn caminhou pelo pátio, o zumbido distante das orações phyrexianas o único som a acompanhar seus passos medidos. Ela passou um dedo longo pela borda do estrado. Ela pensou em subir os degraus, revisitar o local onde a mirraniana colapsara e tentar determinar o que poderia ter causado a perturbação, quando notou uma pequena mancha nas lajes.
Elesh Norn fez uma pausa.
Ali, onde o sangue da mirraniana correra pelo estrado e sobre o pátio, estava uma pequena erva daninha cor de tinta, brotando através de uma rachadura nas lajes. Seu caule era retorcido, uma mistura manchada de verdes e marrons. Era totalmente orgânica. Horrorosa. Ofensiva.
Elesh Norn estendeu a mão para arrancá-la, para livrar a pedra outrora perfeita da erva daninha, mas ela era escorregadia, cedendo sob seu toque como a carne macia do pescoço da mirraniana. Norn franziu a testa. O que quer que estivesse acontecendo, qualquer que fosse essa anormalidade que rastejara para dentro da Ortodoxia das Máquinas, não seria tolerada. Ela trabalhara arduamente para cultivar este lugar, para assegurar o avanço da causa phyrexiana, para permitir que ele fosse sujado, nem que fosse um pouco.
Norn torceu o pulso, com a intenção de arrancar e esmagar a erva daninha em um movimento rápido, mas ela resistiu como se estivesse agarrada à parte inferior das pedras.
"Heresia", sussurrou Norn e arrancou a erva violentamente para cima. Ela se soltou, muito maior do que o previsto, a laje rompendo-se com a força de sua remoção. Mas não havia raízes penduradas na pequena intrusa. Em vez disso, um antebraço humano pendia, desproporcionalmente grande, meio apodrecido, o osso balançando como o badalo de um sino rachado na lama deslocada. Seus dedos flácidos estavam escancarados como se ainda estivessem tentando alcançar o próprio solo de onde ela a arrancara.
"Abominação." Norn ergueu a coisa ofensiva para estudá-la, com a cabeça inclinada.
Seria isso o resultado do sangue contaminado da mirraniana fluindo sobre as lajes?
Não fazia sentido.
Elesh Norn, Grão-cenobita | Arte de: Igor Kieryluk
Norn atirou a erva para longe com nojo. Ela precisava descobrir o significado desta heresia, erradicar a verdadeira causa antes que pudesse criar raízes novamente. Ela estava prestes a ordenar aos sacerdotes que a descartassem quando viu outra planta estranha perto de seu pé. E outra mais adiante no caminho. E ali, outra.
Um aperto desconhecido se formou nas profundezas do ventre de Elesh Norn.
Norn atravessou o pátio, arrancando outra erva do mármore. Eram os restos de um pulmão humano, uma massa flácida e sem raízes, o lobo superior enrolado no que deveria ter sido o caule da planta. Ela o esmagou em sua mão. Não poderia ter vindo diretamente do corpo da mirraniana. Os sacerdotes das cubas haviam dissecado seu cadáver e não encontraram nada anormal, exceto aquelas raízes, e nenhuma razão para que tivessem brotado de seu corpo humano em primeiro lugar.
O aperto em seu estômago aumentou.
Uma após a outra, Norn arrancou as abominações do chão. Ela desenterrou uma coxa grossa e decepada, o tendão desfiando entre seus dedos longos enquanto ela a rasgava em dois. Um coração, com as artérias pendendo dele. Uma mecha inchada de intestino esponjoso. Um único rim. Uma orelha. Uma dúzia de dentes impossivelmente enfiados como pérolas denteadas. Vez após vez, ela os puxava, cada vez mais rápido, determinada a purgar a Basílica de impurezas. E a cada descoberta, sentia algo dentro de si apertar e azedar.
Um nervosismo espalhou-se por seus membros.
Poderia ser um mau funcionamento? Impossível. Ela era a Mãe das Máquinas. Regente. Infalível.
E, no entanto, a última coisa que tocara aquela mirraniana fora seu próprio óleo reluzente.
Elesh Norn ficou imóvel, sua armadura de porcelana brilhando, suas mãos sujas cerradas, suas vestes vermelhas fluindo na brisa suave e constante.
"Nós somos a Mãe das Máquinas", sussurrou ela e, em algum lugar distante, aquele fluxo interminável de orações phyrexianas pareceu vacilar e aquele estrondo baixo retornou, profundo e quase imperceptível. O que antes parecia uma afirmação de poder e fé agora parecia ressoar com dúvida. Mil mentes phyrexianas tremeram.
Ela não podia permitir que a Ortodoxia fosse vítima dessa sensação alienígena que a afligia. Tinha de haver uma explicação para tudo isso. Uma ordem para tudo isso.
Elesh Norn levantou a cabeça, mas até o céu brilhante parecia impossivelmente mais opaco agora, como se o próprio ar tivesse escurecido, como se uma nuvem tivesse descido sobre a Basílica. A penumbra esfumaçada coagulava e suavizava alternadamente, parecendo por um breve segundo resolver-se em uma figura flutuando acima do horizonte da Basílica, esguia e escura, antes de se dissipar. Ela balançou a cabeça, forçando-se a acreditar que não era sua visão falhando. Deve ter sido um truque da luz inconstante, tentou dizer a si mesma.
Ou outra corrupção inexplicável.
A própria ideia de que algo ousaria ofuscar a beleza de sua gloriosa criação era absurda. E, no entanto, a atmosfera parecia mais escura, o mundo ao seu redor vagamente fora de sincronia consigo mesmo de uma forma que nada na Ortodoxia das Máquinas jamais estivera. Havia uma qualidade irreal nisso, um peso que desmentia a natureza arejada que ela tanto se esforçara para cultivar.
Esta era sua Basílica, afinal de contas.
Este lugar nada mais era do que uma extensão de si mesma.
E, no entanto~
Norn olhou para a praça e recuou. Cada cavidade que ela limpara daquelas atrocidades orgânicas, cada lugar que o sangue da mirraniana manchara a terra requintada, estava cheio de novas ervas daninhas brotando. Elas pulsavam e cresciam, invadindo a Basílica Imaculada como um jardim de carne.
Norn caminhou para o espaço outrora aberto entre a Basílica e a torre norte, onde crescimentos não naturais agora se enrolavam sobre as lajes quebradas. Ela os arrancou da terra ao passar.
Ela parou ao lado de uma torre onde uma perna surgira das lajes como a coroa de um dente em crescimento. Seria este realmente o resultado do sangue daquela mirraniana? Era isso que acontecia quando a imperfeição orgânica era autorizada a infectar a Ortodoxia? Norn ergueu o membro decepado, segurando sua carne entre as mãos. Era macio. Fraco. Apodrecendo de formas que uma máquina não apodreceria. Parecia que sua Basílica estava fazendo exatamente isso. Putrefazendo-se de baixo para cima. Era intolerável.
Não.
Era impossível.
Enquanto atirava o pesado pedaço de carne para o lado, Norn disse isso a si mesma novamente.
Impossível.
Tinha de haver uma explicação lógica.
Se a humana e seu sangue não natural não tivessem desencadeado essas abominações, o que, então, seria poderoso o suficiente para ter alterado o mundo que a própria Elesh Norn criara?
Norn olhou para sua mão, o pulso de onde o óleo reluzente fluíra.
Poderia ela mesma, de fato, ter feito isso?
Quem mais seria poderoso o suficiente para perturbar a ordem da Ortodoxia tão completamente? E se ela fosse a razão pela qual o óleo tivera aquele efeito no corpo da mirraniana?
Norn sempre fora tudo o que um pretor deveria ser, mas e se ela tivesse falhado de alguma forma nisso? E se ela estivesse errada? E se durante todo esse tempo, à espreita dentro dela, houvesse alguma falha invisível, germinando e esperando para explodir e arruinar a Ortodoxia das Máquinas? Seria ela, de alguma forma, intrinsecamente corrupta? Teria a Grão-cenobita Elesh Norn inadvertidamente gerado algo tão impuro e orgânico? Seria ela incapaz de liderar a Ortodoxia das Máquinas?
A Ortodoxia era justa, portanto o próprio óleo reluzente não poderia ser culpado. Não havia razão lógica para que o sangue de uma humana humilde e lastimável gerasse o horror espalhado diante dela.
Elesh Norn pressionou uma mão, extraordinariamente instável, contra o estrado como se para se apoiar contra seu próprio mundo, distorcido e inexplicável em sua imperfeição.
Tudo isso, #emph[tudo isso] , ainda parecia tão estranhamente irreal.
Ela se lembrava de uma vez ter testemunhado mirranianos, capturados após a insurreição, dormindo em suas celas de detenção. Eles jaziam encolhidos sobre si mesmos, sonhando, ganindo, presos nos desenhos pesadelescos de suas próprias mentes fracas e singulares. Ela se lembrava de como uivavam e gritavam através de uma realidade que só existia neles mesmos, encurralados e implorando para acordar.
A Ortodoxia os purgara daqueles sonhos quando os presenteara com suas alterações, mas Norn não esquecera a visão alienígena deles sonhando. No mínimo, isso confirmava sua crença de que a carne era inferior. Era mais um motivo para despi-los dela e presenteá-los com a certeza mecânica da Ortodoxia.
Phyrexianos não sonhavam.
As mentes phyrexianas estavam ancoradas na realidade, no ritmo previsível do maquinário e da retidão. Não havia razão para que sua mente tivesse vagado para um espaço fantasioso e subconsciente cheio de plantas, horrores carnais e suposições ilógicas. Mas enquanto estava ali, seu corpo tenso, sua mente tentando dar sentido a uma realidade improvável, Norn sentia-se como se estivesse presa como aqueles humanos adormecidos estiveram. Como se tudo voltasse ao normal com o mundo se apenas ela pudesse acordar e pensar com clareza novamente.
Elesh Norn ficou imóvel. Ela não respirava. Sua armadura de porcelana estava tão imóvel quanto os pilares de pedra ao seu redor.
Este mundo não era o dela.
Lentamente, Elesh Norn olhou para cima, para o céu onde a escuridão parecera formar uma figura mais cedo. Franzindo a testa, ela sussurrou: "Ashiok."
O som de estrondo que rolava sob tudo se intensificou e então, através do pátio da Basílica, uma forma esguia e andrógina apareceu. Flutuavam por cima das pontes delicadas e das torres cuidadosamente esculpidas como se a gravidade não os detivesse, vestes de gaze arrastando-se sob seus pés descalços, o ângulo estreito de seu rosto subindo em espiral para um par de chifres onde seus olhos deveriam estar. Fumaça negra ondulava, como um espectro e sinuosa, das pontas afiadas de seus chifres, aquele mesmo escurecimento do ar que Norn vira quando cortara a mirraniana pela primeira vez.
Ashiok, Tecelão de Pesadelos | Arte de: Karla Ortiz
Os dedos de Norn se curvaram ao redor da borda do estrado, rachando a pedra branca.
Ashiok. Planeswalker. Mago de pesadelos. Ela ouvira falar deles, é claro. Norn não desconhecia o caos que Ashiok infligira aos mirranianos, como o mago de pesadelos frequentemente infectava mentes inferiores com sonhos para seu próprio divertimento, para induzir o medo. Mas ela nunca considerara que Ashiok seria tão tolo a ponto de tentar impor sua "arte" pesadelesca sobre ela.
Embora Elesh Norn fosse uma phyrexiana e uma regente, acima de explosões emocionais, sentiu-se enfurecida ao perceber que nada daquilo — nem a lama orgânica que infestara sua Basílica, nem as partes de corpos humanos brotando como ervas daninhas sob seus pés, nem mesmo seu improvável sofrimento — fora real. Era simplesmente uma ilusão.
Um divertimento.
Um desperdício.
Elesh Norn ergueu-se em toda a sua altura, sua armadura de porcelana brilhando, suas vestes carmesim arrastando-se atrás dela.
"Ashiok." Desta vez, quando disse o nome deles, sua voz era gélida, o tom sintético de cada vogal e consoante perigosamente afiado. Era uma voz que comandava exércitos, uma voz que falava a verdade e a pureza, uma voz que, até hoje, nunca duvidara de si mesma. Norn jogou os ombros para trás, despejando cada grama de autoridade e ameaça divina em sua postura.
Ashiok aproximou-se em um ritmo vagaroso, derivando pelo pátio, contemplando sua criação pesadelesca com um sorriso pequeno e satisfeito. Pairavam fora do alcance de Norn, pés descalços quase sem tocar as lajes sujas, suas vestes enfunando-se atrás deles.
Ashiok estendeu as mãos largas como se para acariciar tudo aquilo. "Belo, não é? Trabalhei por muito tempo nesta obra-prima em particular." Ashiok inclinou-se ligeiramente para a frente, com a cabeça pendida. "Sua mente é uma tela muito~ única, Elesh Norn. Muito única, de fato."
"Então esta abominação, esta imundície, é de fato obra sua?" Norn perguntou friamente.
"Mas é claro." Ashiok sorriu. "Para ser completamente sincero, eu não tinha certeza se os phyrexianos seriam adequados para a minha arte. Simplesmente não se pode criar uma obra-prima sem uma tela apropriada."
"Então você estava nos testando?" Norn disse isso com controle, cuidadosamente calculado, embora sua fúria indignada tivesse começado a ferver. Ela recusou-se a considerar que o cerne de sua incerteza persistente pudesse estar perpetuando sua dúvida.
"Quem mais teria sido um melhor sujeito de teste? Você é a Mãe das Máquinas, afinal, não é? Sua mente~" A voz de Ashiok sumiu, contemplativa e vagamente perplexa. "Ela não processa o medo da mesma forma que as mentes humanas."
"Somos uma Regente de Phyrexia", disse Norn. "Somos a perfeição personificada. Não tememos." Até hoje, ela nunca teria questionado essa afirmação; não teria sido uma mentira dizer que nunca duvidara de si mesma. Mas Norn recusava-se a deixar que essa incerteza viesse à tona completamente. Ela forçou autoridade em sua voz, cada grama de decepção e manipulação que aprimorara para derrotar seus rivais. Ela não era feita inteiramente de material orgânico.
Ela não era fraca.
Ela não era carne.
Ela não era humana.
O sorriso de Ashiok apenas se alargou. Eles deslizaram em um círculo amplo ao redor de Norn, os dedos dos pés roçando a terra, mas sem tocar. "Oh, se isso fosse verdade, eu não estaria aqui, estaria?"
Ashiok subiu no ar lentamente, e a fumaça que ondulava das pontas de seus chifres começou a fluir para baixo, enrolando-se nos membros e órgãos humanos que brotavam das lajes do pátio. O olhar de Norn seguiu o caminho de seu toque efêmero. Ali, no amontoado de pedra quebrada, estava uma cabeça humana, crescendo através de uma fenda larga como um fungo. Era uma mulher com cabelo escuro e pele clara. Uma armadura branca crescia ao redor de seu queixo e mandíbula como frondes. Suas feições estavam cobertas pela lama, mas, sob a imundície, algo em seu semblante parecia estranhamente familiar para Norn.
"Encontrei-a pela primeira vez quando estava criando minha arte em Theros", disse Ashiok, cada palavra soando de certa forma ameaçadora em sua suavidade enquanto sua fumaça acariciava as bochechas e a testa da cabeça humana. "O nome dela é Elspeth Tirel." Ashiok girou o nome na boca como se o provasse pela primeira vez. "Ela chamou minha atenção, e eu a procurei no Submundo. O medo dela dos phyrexianos era glorioso. Simplesmente de tirar o fôlego. Como minha curiosidade não poderia ter sido despertada? Que tipo de artista eu seria se não buscasse tal oportunidade para aprimorar meu ofício, para testá-lo em um ser como você? Eu simplesmente tinha que descobrir. Como seria um pesadelo phyrexiano?"
Elesh Norn lembrou-se de Elspeth Tirel agora, de seu ataque fracassado à sua Basílica sagrada, e aquela familiaridade incômoda que sentira com a mirraniana subitamente fazia mais sentido.
"Elspeth escapou, não escapou?" Ashiok disse e sorriu suavemente. "Esta humana pequena e inconsequente escapou da Ortodoxia das Máquinas."
"Irrelevante." Norn sentiu sua indignação crescer. "As verdades que vemos estão além da sua compreensão, Ashiok. Não seremos intimidados. Não seremos uma ferramenta para sua 'arte'." Em um lugar mais profundo do que qualquer pesadelo jamais poderia penetrar, ela sentiu a conexão com seu povo, o coletivo de Phyrexia, unidos, a força dessa unidade, uma força imparável de milhares e milhares de seres esplendidamente alterados esperando seu comando para atacar.
O sorriso de Ashiok vacilou.
"Não toleraremos mais esta blasfêmia", continuou Norn. Ela respirou fundo e voltou seu foco para dentro. Houve uma agitação nas sombras, movimento vindo dos cantos profundos do pátio. Um ranger de portas sendo abertas. Passos medidos em degraus de pedra. Um por um, dezenas de phyrexianos, tão reais em seu sonho quanto poderiam ser no mundo desperto, materializaram-se das sombras, seus corpos de metal brilhando, seus olhos brilhando vermelhos e ansiosos.
Por um momento, Ashiok pareceu quase confuso. "Eles não fazem parte desta peça", disseram. "Eu não os projetei para estarem aqui. Agora não."
"Somos um", disse Norn. "Você achou que poderia nos controlar tão facilmente com este #emph[pesadelo] ?"
Houve um momento de silêncio, todo o maquinário imóvel. O moer de engrenagens e os sons úmidos do jardim de pesadelos de Ashiok cessaram. Havia apenas o vento, carregando o cheiro de decomposição e óleo, estalando os estandartes carmesim no alto.
"Você nos subestimou", disse Norn calmamente, em um sussurro sintetizado.
E então, puro como uma oração, os phyrexianos atrás dela repetiram: "Você nos subestimou."
Ashiok inclinou a cabeça, tamborilou as pontas dos dedos e flutuou para trás com cuidado, distanciando-se de Norn e do restante dos phyrexianos enquanto a luz branca brilhava, um enxame de lâminas de porcelana formando-se no metal que envolvia seu corpo.
"Interessante", disse Ashiok.
O estrondo tornou-se um rugido, um som profundo, gutural e orgânico que varreu a paisagem pesadelesca como uma onda. A fumaça que girava entre os chifres de Ashiok escureceu, engrossou e desceu. Os membros que brotavam da terra arrastaram-se juntos em uma zombaria da beleza phyrexiana, o jardim abaixo fundindo-se em criaturas e arremessando-se em direção a Norn, um emaranhado de pernas e braços, cabeças semiformadas pendendo de ombros dissecados.
Os phyrexianos avançaram, cortando as manifestações oníricas, a ilusão tornada corpórea em uma extensão da vontade de Norn. O que os phyrexianos não alcançavam, ela mesma eviscerava rápida e eficientemente em uma barragem de lâminas de porcelana finas como agulhas saindo de seu corpo em flashes ofuscantes de luz branca, estalando viciosamente pelo ar. Ela retalhou as criaturas de Ashiok antes mesmo que tivessem a chance de se aproximar do estrado ao lado do qual ela estava.
"Você blasfemou contra nós!" A voz de Norn reverberou pelo pátio. Ela puxou o braço para trás, preparando-se para aniquilar o corpo espectral de Ashiok, quando a coisa que seria Elspeth Tirel se levantou.
Ergueu-se diante dos pés de Norn, chapinhando para cima e para fora da terra com um som espesso e úmido, subindo da lama pesadelesca até pairar de frente para ela, com a medula espinhal pendendo como a cauda de um roedor. A fumaça de Ashiok enrolou-se nela rapidamente, inchando e curvando-se, moldando o próprio ar em uma forma alta e sólida, com músculos sinuosos e coberta com metal de porcelana perolada e um elmo curvo. Era um espelho da forma sagrada de Elesh Norn.
Norn deu um passo atrás. Elspeth fez o mesmo. Era um reflexo distorcido de seu próprio corpo, sua postura que parecia súbita, horrível e inegavelmente humana. E lá estava novamente, aquele aperto na garganta de Norn, formigando na nuca, descendo profundamente no centro dela como uma pedra. Ela sentiu a vontade de recuar. De correr. Aquilo era uma abominação, não apenas da Ortodoxia, mas dela. Mãe das Máquinas, Regente. Aquilo era uma versão distorcida do futuro da Ortodoxia.
Elesh Norn não queria chamar aquilo de medo, mas enquanto observava a mão de Elspeth subir à boca, enquanto observava aqueles dedos tão parecidos com os seus tremerem, ela soube que, sim, logicamente, era assim que ela também devia estar parecendo naquele momento.
Impura.
Imperfeita.
Impossível.
Como este planeswalker podia fazê-la sentir-se assim com seus truques, pesadelos e ilusões? Com uma simples visão de uma mulher humana esculpida para parecer com ela, para zombá-la? Ela, Elesh Norn, que tão magistralmente dobrava seus inimigos à sua vontade? Ela, que era o ápice de Phyrexia?
Com um estalo ensurdecedor e uma explosão de luz brilhante, as adagas finas como agulhas que saíam do corpo de Norn fundiram-se e formaram uma lâmina maciça e mortal em sua mão. Com mais poder do que jamais seria necessário, ela a arremessou na versão pesadelesca de Elspeth Tirel, cortando seu peito com tal força que ela voou pelo pátio, aterrissando em um monte no lado oposto. Uma forma vestida em seu próprio metal branco e vestes carmesim, ainda coberta de carne humana, morta.
Não, não morta.
Porque nunca estivera viva para começar. Tudo era uma ilusão, um truque.
Norn virou-se para Ashiok, seu funcionamento interno latejando com esta emoção nova e desconhecida, a raiva temperando o medo que sentira em algo quase incontrolável. Preparou-se para desencadear tudo sobre o planeswalker, mas eles já estavam bem acima da Basílica, disparando para trás com uma velocidade incomum até estarem fora de alcance, parecendo tão perturbados quanto Norn.
"Você é uma tela e tanto, de fato, Mãe das Máquinas." Ashiok abriu os braços e baixou a cabeça. "Outra obra-prima."
Norn observou Ashiok desaparecer, deslizando pelo céu noturno. O véu do mundo pesadelesco de Ashiok levantou-se com sua partida. Os phyrexianos que ela invocara com sua vontade dissiparam-se. As lajes quebradas resolveram-se mais uma vez em uma suavidade imaculada. O sangue espesso e as plantas não naturais estremeceram, endureceram e depois desmoronaram em pó, facilmente espalhado pela brisa fresca.
O corpo de Elspeth, ainda trajando a armadura de Norn, foi o último a desaparecer, apegando-se à corporeidade até que a regente deu um passo em sua direção. A armadura de Elspeth tremeu e depois desmoronaram, fina como areia branca, deixando sua cabeça humana decepada. A pele rachou. Linhas finas como fiapos de fumaça formaram-se ao redor de sua boca, espalhando-se para fora, dissolvendo sua carne de pesadelo de dentro para fora.
Mas pouco antes de a visão de Elspeth se desintegrar, ela abriu os olhos e encontrou o olhar de Norn. Olhou para Norn com tal piedade humana, com tal horrível #emph[simpatia] , que Norn não conseguiu respirar.
Quando o pesadelo havia verdadeira e completamente sumido do mundo, Elesh Norn caminhou cuidadosamente pelo pátio da Basílica e tocou as pedras, limpas agora, puras e sagradas, onde a coisa que fora Elspeth Tirel nascera. Ela não conseguia apagar Elspeth de sua mente. Não conseguia deixar de ver a piedade ali. Não conseguia suportar o pensamento de algo tão humano perturbando-a tão completamente.
E Elesh Norn soube então, com a mesma convicção com que adorava a Ortodoxia das Máquinas, que para purgar esta nova emoção que estava sentindo, este medo e incerteza, precisaria encontrar a humana, Elspeth Tirel, e livrar o Multiverso dela.